Rubrica

As crianças sem voz

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A 26 de junho de 2020, a convite da deputada Sandra Cunha, do BE, fui ouvida na audição de especialistas, Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, Grupo de Trabalho Residência Alternada, na Assembleia da República.

Nessa data, mais do que dissertar sobre teorias da vinculação ou as vantagens, reconhecidas de forma unânime, de um exercício conjunto da parentalidade, a minha preocupação foi a de dar voz a inúmeras crianças, silenciadas pelos progenitores, em nome dos seus egos e assuntos pendentes vindos do processo de separação, e, pelo Tribunal de Família e Menores.

Hoje, volto a erguer a minha voz em nome destas crianças.

Tem sido uma semana de muitas lágrimas no meu consultório. Lágrimas de medo e desproteção, de quem viveu, primeiro, em violência doméstica e agora, na iminência de ser entregue a quem tanto teme.

Sinto-me impotente. Como posso continuar a incentivar estas crianças a serem corajosas, a dizerem no Tribunal de Família e Menores o que sentem e o que desejam, se sei que, demasiadas vezes, são ignoradas e silenciadas?

Se sei que a sua verdade é negada, apresentada como egoísmo e lhes é pedido que se coloquem no lugar dos seus progenitores, sintam pena dos mesmos e se conformem à sua sina?

Os filhos não são propriedade dos pais!!

Os filhos têm direito a ser ouvidos em privado, sem que as suas declarações sejam posteriormente exibidas a quem temem, colocando-os, mais ainda, em risco.

Têm direito a que o seu caso seja devidamente avaliado e estudado. Têm direito a que a sua psicóloga seja ouvida e possa também, dar-lhes voz.

Arrisco dizer que, todos os dias neste país, há crianças que, após a separação dos adultos que deviam cuidar delas, estão desprotegidas, sofrem em silêncio e crescem num abismo de dor e de medo.

Por isso, hoje escrevo envolta em tristeza e indignação. Por todas as crianças maltratadas pelos seus progenitores.

Está em processo de divórcio? Prepara-se para regular as responsabilidades parentais?

Se sim, estou a falar consigo. Por favor, respeite o seu filho.

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Ouça-o! Não o use! O amor constrói-se. Se ainda não tem um laço de vinculação, comece por aí. Dedique-lhe tempo de qualidade, dê-se a conhecer. Sem pressas.

Não o obrigue a estar consigo, se isso o deixa aterrado. Mostre-se como base segura e deixe-o voar.

Só se pode amar em liberdade.

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