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“O Paio Pires Futebol Clube está de volta”

O Diário do Distrito esteve à conversa com o Coordenador da Formação, Jorge Cunha, e com o Coordenador do Futebol, Francisco Mané, que nos contaram sobre o renascimento do Paio Pires Futebol Clube.

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Com 95 anos, o Paio Pires Futebol Clube passou, nas últimas épocas, pelos tempos mais difíceis de que há memória. Saíram do clube centenas de jogadores, ficando este sem competir e com poucas equipas, quase “esquecido” no concelho do Seixal.

No entanto, o clube está aos poucos a reerguer-se. O Diário do Distrito esteve à conversa com o Coordenador da Formação, Jorge Cunha, e com o Coordenador do Futebol, Francisco Mané, que nos contaram sobre o renascimento do Paio Pires Futebol Clube.

“Ficámos com quatro atletas, desapareceu tudo. Mas o clube não morreu, esteve adormecido”

A grande pergunta que se faz é a seguinte: Como é que o Paio Pires ficou neste estado? Jorge Cunha começou por dizer que “houve uma mudança na academia. Tínhamos uma parceria com o Fusco, mas existiram complicações com o Presidente do Paio Pires e não chegaram a acordo para renovar. Como tal, foram embora do nosso clube 350 miúdos.

O Paio Pires ficou com quatro atletas. Tínhamos equipas em praticamente todos os escalões, desde os benjamins aos seniores, mas desapareceu tudo”. Porém, no ano passado o clube conseguiu ativar a academia, e juntar “cerca de 90 meninos”.

O coordenador da formação falou dos tempos difíceis. “O Paio Pires não tinha academia nem formação. Os atletas olhavam para nós e diziam: o ‘Paio Pires morreu’. Mas o clube não morreu, esteve adormecido. E era preciso trazer sangue novo para o clube. Foi difícil, porque muitas direções que passaram antes desta atual, apostavam mais no futebol sénior, e isso foi-se degradando, pois ninguém consegue ter seniores se não houver uma formação por trás, para alimentar os mais velhos”.

“Já houve início de atividade e começaram a aparecer atletas juniores, juvenis, benjamins e sub-20”

Mas as coisas melhoraram durante o início desta época. “Já houve início de atividade e começaram a aparecer atletas juniores, juvenis, benjamins e sub-20”, disse Jorge Cunha.

O coordenador de futebol, Francisco Mané, contou-nos como é que o Paio Pires atraiu mais jogadores neste ano. “A principal estratégia foi chamar treinadores competentes e com vontade e garra. Outra é apostar no marketing, porque atualmente esta ferramenta consegue fazer coisas boas e cativar a atenção do publico.

Com a minha experiência no futebol de formação e no futebol juvenil, tenho muitos atletas que me seguem e perguntam-me onde é que vou treinar. Tenho uma boa ligação com muitos jogadores, porque há pouco tempo ainda jogava e sei qual é a vontade e um mister que entende e socializa com eles”.

Paio Pires sagrou-se Campeão Distrital da 2ª Divisão de Seniores em 2010/2011

Francisco Mané quer mostrar que “o Paio Pires está de volta, e desejamos voltar aos tempos antigos, que tínhamos 40 a 50 atletas para cada escalão. Nessa altura o Paio Pires dava-se ao luxo de dispensar. Quem sabe se mais tarde tenhamos novamente o escalão de seniores”.

“Equipa de Sub-22 vem trazer mais oportunidades de aproveitamento dos jogadores”

O coordenador de futebol revelou que foi criada uma “nova equipa de Sub-22, porque sabemos que na idade dos juniores é quando há mais abandono no futebol, por poucas oportunidades para ingressar nos seniores, e também pelo facto de entrarem na faculdade e começarem a trabalhar. A criação desta equipa vem fazer com que eles não desistam e continuem a jogar nos Sub-22, até atingir a idade limite, e terem a experiência para jogar no futebol senior.

Várias equipas do distrito criaram equipas Sub-22 para manter os jogadores juniores e chamar mais atletas para o clube, de modo a fazer um maior aproveitamento. Hoje em dia há muito talento desperdiçado pelos treinadores”, afirmou Francisco Mané.

“Haverá mais condições de treino: um campo, balneários novos, bancadas e ginásio”

Além de mais jogadores, estão previstas mais condições, com a construção de um novo campo de futebol. “Haverá uma melhoria de condições de treino, com mais um campo, balneários novos, bancadas, ginásio e tudo mais”, disse Jorge Cunha.

“Isto vai motivar o aparecimento de mais jovens. Antigamente Paio Pires era a ultima paragem do autocarro, que partia de Cacilhas. E os atletas era a mesma coisa. Começavam a sair em Almada, Corroios, Arrentela, Seixal. Os que não ficavam nessas equipas, caíam aqui. Mas nós queremos inverter isso. No futuro temos de nos dar novamente ao luxo de poder escolher, ao contrário do que faziam antigamente: todos os que vinham, acabavam por ficar”, contou o coordenador da formação.

Mas o novo campo ainda pode demorar algum tempo, apesar de já existir acordo. Jorge Cunha informou que “a obra seria para este ano, mas está pendente do final da construção das Piscinas Municipais de Paio Pires. A equipa que está a realizar essa obra, é a mesma que vai fazer aqui. A pandemia também veio atrasar tudo. Vai demorar, talvez, mais um ano”.

“No futebol feminino criaram ilusões muito altas e esperava-se mais”

O futebol feminino foi a principal “arma” do clube nas últimas épocas, mas acabou este ano. No entanto, Jorge Cunha não mete as culpas no Paio Pires. “Não culpo o clube, mas sim o investidor, porque fez um investimento de 500 mil euros e não teve retorno. Neste ano pensou fazer um investimento inferior, com outras condições, mas para obter o mesmo retorno. A direção não aceitou e seguimos o nosso caminho”.

Nesta vertente, a época não decorreu como o esperado, devido às altas expectativas. “Criaram ilusões muito altas. Fizemos a primeira volta toda a dar goleadas, mas no primeiro confronto que teve com o rival, o Amora, empataram 1-1, e isto chocou a equipa. Mas no jogo seguinte o Amora perde e o Paio Pires fica em primeiro, a depender só de sim para ser campeão. Porém, no último jogo do campeonato, o Paio Pires recebeu o Amora. Bastava um empate, mas perdeu 2-1. O Amora foi campeão de série”, disse Jorge Cunha.

Na Taça de Portugal, o filme repetiu-se. “Esperava-se mais, pois deram goleadas até chegar ao Famalicão. Ao intervalo o Paio Pires está a ganhar, mas na segunda parte levaram 3 golos de rajada e nunca mais tiveram capacidade para reagir. Perderam 5-3″.

No entanto, o coordenador da formação considera que o futebol feminino deu nome ao Paio Pires. “Chegámos até ao norte do país. Se formos para a zona de Famalicão ou Condeixa, todos sabem quem é a equipa do Paio Pires do futebol feminino. Este percurso trouxe notoriedade ao clube”.

“Hoje os miúdos estão agarrados à PlayStation e ao computador e não querem jogar futebol”

Já no futebol masculino, a época decorreu dentro do esperado. “Não estávamos à espera de que o Paio Pires tivesse muitas vitórias. Nos benjamins só tivemos dois empates, o resto foram derrotas. Mas no fim dos jogos, os miúdos diziam que se divertiram, porque a maior parte deles nunca tinha dado um pontapé na bola.

Isto porque a realidade hoje é que os miúdos estão em casa e não têm vontade de jogar futebol”, disse o coordenador da formação.

“Estão agarrados à PlayStation, ao computador. Sentem-se mais cómodos em casa, onde não apanham chuva, calor e não se cansam. Eu digo aos pais para que quando os castigam, que não os tirem do futebol. Porque impedem os filhos de jogar, mas não tiram os telemóveis nem as consolas. E isso é o que a criança quer.

O conselho que dou aos pais é: Tirem as consolas e os telemóveis, mas não futebol. Ele vem treinar e não é convocado. É o castigo. E no fim de semana, o pai pega no filho e vem ver os colegas a jogar. Aí ele vai perceber que os colegas estão a jogar e ele não, porque está de castigo. A partir daí, vai melhorar”.

“Há pais que se sentem frustrados por não terem sido jogadores, e querem que o filho o seja quase à força”

Os pais são também um fator importante no futebol de formação, mas na opinião de Francisco Mané, a influência destes é negativa para os filhos. “Para mim não existiam pais nos treinos nem nos jogos. Um problema muito grande no futebol é os pais irem falar com o treinador. Não devem fazê-lo, devem falar com o coordenador. O treinador está lá para ensinar o futebol ao miúdo.

Porque quando o filho não joga, os pais dizem: ‘Mas eu pago para o meu filho estar aqui’. Sim, como todos os outros. Paga para o treinador ensinar futebol ao seu filho. O bónus é: O jogador compreendeu, captou as ideias, fez aquilo que é pedido, e o mister pode contar com ele para o jogo”, afirmou o coordenador de Futebol.

E vai mais longe. “Há pais que se sentem frustrados por não terem sido jogadores, e querem que o filho o seja quase à força. Para mim o coordenador do Fabril Barreiro é um modelo para todos, porque impôs a sua posição. Os pais não falam para dentro de campo, nem falam com o treinador. Porque já sabem que se o fizerem, os seus filhos são logo riscados, independentemente de ser melhor ou o pior jogador”.

“Os pais não são adeptos do clube, são adeptos do filho”

Jorge Cunha também teve uma palavra a dizer neste assunto. “Os pais não são adeptos do clube, são adeptos do filho”. O coordenador da formação deu um exemplo: O pai sai de manhã e vai trabalhar. O filho sai da escola, vai para o treino e quando o pai vai buscá-lo, este pergunta: ‘Correu-te bem o treino?’ Não pergunta como correu a escola. Porque se o treino correu bem ao filho, o pai consegue manter o estatuto perante os outros pais. Porque os pais têm estatuto quando o filho é bom jogador e joga bem.

Fica bem visto pelos outros pais. Se o treino correu mal, o pai fica chateado, e os outros pais vão chateá-lo: ‘O teu miúdo treinou mal, fez isto e aquilo’, e o pai começa a perder o estatuto que tem. Tenho filhos que jogam futebol, mas quando apoio, apoio todos, a equipa. Há pais que não conseguem separar o filho da equipa”.

“Estamos a alterar todos os balneários para haver melhores condições de higiene, com máquinas de desinfeção geral”

A pandemia “veio obrigar o clube a fazer remodelações totais que obrigam investimento”, afirmou Jorge Cunha. “Estamos a alterar todos os balneários para haver melhores condições de higiene, com máquinas de desinfeção geral. Em termos de ordenados, no futebol feminino houveram jogadoras em layoff. Mas nessa vertente só dávamos apoio logístico e o nome. Tudo o resto era com o patrocinador, que assumia as despesas.

Quando este apareceu, todos disseram que o Paio Pires descobriu petróleo, por causa do investimento de 500 mil euros. Mas nós não tínhamos esse dinheiro, era tudo do investidor”.

Para evitar ao máximo a propagação do vírus, o clube adaptou-se com medidas de prevenção. Ambos os coordenadores falaram sobre a nova rotina: “Os jogadores chegam ao campo, sendo depois tirada a temperatura. Desinfetam as mãos e seguem. Não utilizam balneários, só os bancos de suplentes, onde deixam as malas e os bebedouros. À entrada do relvado ainda terão de desinfetar uma segunda vez as mãos.

A roupa é dos atletas e nós só fornecemos o material de treino: as bolas, os cones, pinos e balizas. Não damos coletes, tem de ser o atleta a trazer duas camisas, uma branca e uma preta. Quando quisermos fazer uma situação de jogo, eles trocam conforme é solicitado”.

“Palavras do Zuneid são baboseiras de quem não pensou no que estava a dizer”

As declarações do ex-administrador da SAD do Amora Futebol Clube, Zuneid Sidat, deram que falar. Em entrevista, disse que o Amora tinha de roubar os adeptos ao Paio Pires, Seixal e Arrentela, porque estes clubes estavam mortos.

Na entrevista que o Diário do Distrito fez com presidente do Amora Futebol Clube, Carlos Henriques, o mesmo disse que não se revia naquelas palavras e que pediu desculpas. No entanto, nenhum dos clubes aceitou.

Francisco Mané mostrou-se indignado com as declarações de Zuneid. “Foram palavras feias. Ele pode dizer aquilo no núcleo de amigos dele, não numa entrevista. Ele não gostava de ver o Vitória de Setúbal dizer o mesmo sobre o Amora, por exemplo. Cai mal perante o Distrito, jogadores, árbitros e responsáveis do futebol. São baboseiras de quem não pensou no que estava a dizer, nenhum daqueles clubes visados está morto”, atirou.

Jorge Cunha conta que “a única coisa que o Presidente do Amora fez foi um telefonema para uma realizarmos uma reunião e fazer um almoço. Aquelas declarações não se resumem a um pedido de desculpas nem a um almoço. O Amora está num patamar diferente dos outros clubes do concelho, é verdade, mas ele não pode dizer que quer roubar os adeptos, e que os clubes estão mortos.

Podia ter dito aquilo de outra forma. A Associação de Futebol de Setúbal deveria ter uma palavra sobre o assunto e até agora nada. Acho que foi mau de mais”.

“Teremos equipas com capacidade de subir de divisão, se estiverem todos a remar para o mesmo lado”

O clube está finalmente a reerguer-se, e Francisco Mané acredita que num prazo de cinco anos, com o melhoramento das infraestruturas que está previsto, o Paio Pires terá “equipas em todos os escalões e com capacidade de subir de divisão. Mas isso só vai acontecer com estes melhoramentos, e se estiverem todos a remar para o mesmo lado”.

Já Jorge Cunha considera que “poderemos ter equipas mais competitivas, a lutar por objetivos que não os atuais. Porque a nossa luta diária é tentar construir algo que não havia. Olhávamos para o campo e víamos relva. Agora vamos tentar ver boas equipas”.

A entrevista com o Seixal 1925 sairá em breve. O Diário do Distrito já contactou os responsáveis do Atlético Clube de Arrentela para realizar também uma entrevista.

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