Opinião

Urge tirar os “Óculos Cor de Rosa”!

Uma crónica de Isabel de Almeida

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Há mais de vinte anos atrás, em plena sessão de formação da área de Processo Civil durante o meu estágio de advocacia conduzida pelo Saudoso Mestre Dr. José Carlos Mira este, perante o ar chocado de uma formanda ingénua perante um detalhe mais inusitado de um caso prático que analisávamos com vista a aprendermos a minutar uma acção de divórcio, suscitou da parte do insigne Formador uma frase que para sempre retive e que de quando em vez me acode à mente: “ – D. tire os óculos cor de rosa.”

Infelizmente, no momento presente, a maior parte daquilo que nos rodeia apenas nos permite olhar através de óculos cinzentos ou mesmo negros, mas a verdade é que, pese embora as experiências de vida que vamos acumulando na nossa existência, quem um dia foi idealista e ingénuo mais tarde ou mais cedo sempre acabar por ceder a este idealismo ou ingenuidade, em especial se foi criado num ambiente super-protegido, maior ainda é o risco de cair em situações que podem até causar sérios danos até que, finalmente, como que perante uma revelação divina sejamos forçados a tirar os “óculos cor de rosa”.

Inadvertidamente e ao longo da vida acabei por utilizar esta expressão deliciosa “tirar os óculos cor de rosa” sempre que eu própria ou alguém da minha família, amigos ou colegas nos defrontávamos com revelações nem sempre agradáveis.

Vários exemplos destes são recorrentes. Exemplificando para que os leitores melhor possam acompanhar esta reflexão: quantas vezes não achámos que determinado projecto profissional ou académico era a aposta certa em termos de futuro e viemos a concluir que se tratou de um “tiro no pé” e que o contexto não é positivo como se esperava e acreditava? Quem nunca confiou nas pessoas erradas? Quem não chegou a dar segundas oportunidades a pessoas que nitidamente não eram dignas de tal acto de fé e generosidade? Quem nunca imaginou mudar de área profissional convicto de que ali não iria encontrar um ambiente de competição feroz e tantas vezes cruel e desonesta e acabou por se ver como alvo de inveja, intrigas, ditos e mexericos e ataques mais ou menos hostis e causadores de maiores ou menores danos mas sempre aptos a tirar-nos a motivação e a paz de espírito? Quem nunca saiu de um exame ou prova plenamente confiante e convicto de que o resultado seria excelente e depois se deparou precisamente com o inverso? Quem não acalentou a esperança de que, depois do terror do início da pandemia, e perante uma reacção mais positiva no início da mesma aqui em Portugal a mesma iria resolver-se ainda este ano, para agora termos todos a noção de que está para durar e é incerto o seu fim? Quem nunca desvalorizou uma necessidade por exemplo de cuidados médicos e depois arcou com as consequências de um agravamento do seu estado de saúde?

Poderíamos passar horas a elencar exemplos deste género e nunca esgotávamos as possibilidades possíveis de tal nos acontecer nos mais variados meios.

A vida muda num segundo sem nos avisar (2020 é talvez a mais dura das provas desta afirmação) e, perguntarão? Como é possível evitar estas revelações dolorosas e ultrapassá-las? A má notícia, não há vacina para o vírus da desilusão, mas há medidas preventivas que podem minorar danos em caso de verificação da catástrofe. Algumas dicas que resultam da experiência à mistura com alguns ensinamentos aleatórios da área da Psicologia: nunca podemos iniciar “mergulhando de cabeça” em nenhum projecto, em nenhuma crença sobre instituições ou pessoas. Temos que dar oportunidades a nós mesmos e aos outros mas partindo sempre do pressuposto de que há saberes e detalhes que apenas devemos guardar connosco, porque informação é poder (e não é sensato que tenham muito poder sobre nós, porque os manipuladores são hábeis em recolher informação para depois a usar contra as vítimas a seu tempo e quando lhes seja mais favorável), devemos ter sempre um plano B para que não fiquemos desprevenidos se algo correr mal e devemos reservar recursos que possamos utilizar emergências ( e estes recursos são não apenas financeiros mas também humanos e psicológicos, pois a cada dia devemos rodear-nos de uma equipa de amigos e colegas em quem possamos depositar confiança plena, mas também temos para connosco mesmos a obrigação de trabalhar os nossos prontos fracos começando por os assumir e ponderar ferramentas mentais para encontrarmos reservas de motivação, resiliência e determinação para focar nas soluções e não nos problemas, pois o excesso de processamento leva a um bloqueio mental perigoso que nos estagna perante as ameaças).

Perante um choque de realidade entendam também como normal um período inicial de incredibilidade, negação (muito à semelhança de um processo de luto) até que cheguemos à aceitação e resolução daquilo que nos atormentou.

Em suma, não há mundos cor de rosa em lugar algum, não podemos viver isolados porque somos seres gregários e sociais por natureza, mas em especial em tempos conturbados os desequilíbrios ficam mais ostensivos e somos confrontados com um mundo cada vez mais inóspito, competitivo, agressivo e perigoso. O primeiro passo para melhor enfrentar isto é reconhecer que se trata de algo normal (embora o contexto que motive tais comportamentos dependa de  uma conjugação imensa de variáveis externas: o ambiente social, politico e económico onde nos movemos; a necessidade de luta pela sobrevivência com competição entre seres da mesma espécie, variáveis psicológicas como traços de personalidade, estado mental normal ou patológico; nível de educação e formação humana dos indivíduos) só assim estamos predispostos a enfrentar estas agruras da vida.

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