Uma queda com estrondo

Esta semana um artigo de opinião de Pedro Guerreiro Cavaco.

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Esta semana um artigo de opinião de Pedro Guerreiro Cavaco.

Sou sócio do Sporting Clube de Portugal há 20 anos ininterruptos e sportinguista há muitos mais. Além de pagante, sou daqueles sócios militantes, com lugar cativo no estádio e, ainda que esteja mais moderado, fruto da idade, continuo a viver intensamente – porque este Clube vive-se dessa forma – todas as vicissitudes leoninas, inclusive as do foro não desportivo.

Nestes muitos e longos anos e depois do eterno João Rocha, o Sporting teve vários presidentes, lembrando-me eu de dois deles em particular com duas peculiaridades que se assemelham ainda que não se cruzem, um popular e um populista. E também tivemos outros que, de outra forma mas de igual modo, não deixaram saudades.

Em Março de 2013, após uma luta sem tréguas na rede social Facebook (a página chamava-se, se bem recordo, Por um Sporting sem Complexos), Bruno de Carvalho sucedia a Godinho Lopes na presidência do Sporting, com 53% dos votos, tornando-se o 42º presidente do Clube. Já não tinha russos, nem dinheiro do leste europeu, mas trazia com ele imensas promessas.

Desde que chegou ao Sporting aconteceram coisas. Muitas coisas.

Bruno, que jamais teve o meu voto, criou um Sporting diferente. Se por um lado, desportivamente, teve o mérito de trazer as modalidades de novo para a ribalta (a troco de muitos milhões de euros), no futebol houve claro insucesso face ao investimento realizado. Na verdade, nestes cinco anos aterraram no aeroporto Humberto Delgado largas dezenas de jogadores que nunca se impuseram. Também neste anos, o Clube teve três treinadores. O primeiro, Leonardo Jardim, o segundo Marco Silva e o terceiro Jorge Jesus.

Três bons treinadores – verdade – que, por isto ou aquilo, não conseguiram ser campeões, título esse que o Sporting persegue, novamente, há quase duas décadas. Houve investimento no futebol profissional, mas desinvestimento do futebol juvenil, sendo o Sporting, infelizmente, ultrapassado pelo seu eterno rival.

Mas não pretendo escrever aqui sobre o lado desportivo. Quero escrever umas linhas sobre o outro lado. Nunca me revi na postura belicista de Bruno de Carvalho, nem na forma, nem no conteúdo.  Foram cinco anos amargos e marcados por muita tinta corrida em páginas de jornais, com absoluta ausência de paz e serenidade. Nunca me revi em vídeos nos écrans de Alvalade anunciando o nascimento de uma filha. Nem em frases totalitaristas como aquelas, em sede de AG, onde foi pedido aos sócios para não verem ou lerem outros canais de informação que não os internos do Clube. Como nunca me revi em processos disciplinares inusitados a sócios do Sporting. Ou mesmo a processos a ex. dirigentes e presidentes do Sporting. Ou a entrevistas onde lendas como Manuel Fernandes eram destratadas. Ou uma qualquer expressão como “bardamerda” que gravitasse no espaço desportivo leonino.

Mas, de todos os impropérios, de todas as cenas, algumas das quais ridículas, como aquela na Sporting TV, que recordamos sem saudade, entre Bruno e Rui Miguel Mendonça, a propósito do episódio como presidente do Arouca,  das palavras ofensivas proferidas após o jogo com o Paços de Ferreira, o que mais magoou – não assumindo aqui os casos Alcochete ou Cashball, que ainda estão a decorrer na justiça – o que mais magoou foi o atingir fratricida dos sócios, criando-se uma profunda divisão, catalogando-os por delito de opinião, entre sportinguistas, os que seguiam a liderança de Bruno e “sportingados”, aqueles que não a seguiam e a espaços contestavam. Não é possível ferir o pulmão do Sporting, o seu maior património, os sócios.

Do seu reinado, ficou um pavilhão. Dou-lhe esse crédito. Mas convirá não esquecer os mais desatentos a massiva comparticipação financeira de muitos sócios, entre os quais o autor destas linhas, e, por outro lado, os custos paralelos ocorridos, com foco particular aos milhões de euros pagos à Doyen em juros

Nada, absolutamente nada mais ficou.

Ninguém tenha a mais pequena dúvida. O culpado da derrota de Bruno de Carvalho foi Bruno de Carvalho. O culpado da sua queda foi ele próprio. Deslumbrou-se. Viu-se poderoso, afrontou poderes, destratou jornalistas, foi capa de revistas, abriu telejornais, teve um casamento de sonho, afrontou sócios que dele divergiam, falava de cátedra nas Assembleias Gerais como um guia doutrinário, galvanizando os presentes e, tantas vezes, convicto que o mundo paralelo que constituiu nas redes sociais, onde muitos dos seus apoiantes nem sócios eram, seria igual ao mundo real. Estava equivocado. Bruno caiu sem glória e com estrondo. Até a frase que quis que ficasse escrita na estátua do leão que está na rotunda Visconde de Alvalade, como o seu nome por baixo, imortalizando-o e enchendo-lhe, ainda mais, o ego, caiu. Tudo caiu.

Foi o primeiro presidente do Sporting a ser destituído. E foi o segundo a ser expulso, porque o primeiro havia-o sido antes, no decorrer do seu mandato, sem apelo nem agravo que se conheça.

Nesta altura em que foi expulso por uma maioria absolutamente inequívoca, lembrei Eduardo Barroso e Daniel Sampaio. Mais o primeiro, na verdade.  Foram, direi, os “pais de Bruno”. Assumi desde sempre a importância que tiveram na sua ascensão, avalizando a sua candidatura e, mais tarde, dando-lhe, mesmo publicamente, cobertura às mais variadas situações decorridas nestes cinco anos. Curiosamente, não se viram neste triste fim.

Alexandra Carvalho, dizem, é a senhora que se segue.

 

P.S.: considero absolutamente lamentáveis as cenas ocorridas no Pavilhão João Rocha no dia 6 de Julho. Num país cuja maturidade democrática está consolidada, questiono as razões pelas quais assisti ao que assisti. Só encontro uma razão, a emocional. Mas ainda assim, deve-se ter a suprema preocupação de ouvir as opiniões contrárias ainda que nos custem. O Sporting não é aquilo.

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