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“Posso ser uma inspiração para outras mulheres”

Maria João de Figueiredo conta como é que o Barreirense ultrapassou a difícil fase da pandemia, e como é ser a primeira mulher a liderar um clube com 109 anos de existência.

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O Futebol Clube Barreirense é um símbolo histórico na cidade do Barreiro e no desporto em Portugal, que tal como todos os clubes, foi afetado pela pandemia.

O Diário do Distrito esteve à conversa com a presidente Maria João de Figueiredo, que contou ao nosso jornal como é que o Barreirense ultrapassou a difícil fase da pandemia, e como é ser a primeira mulher a liderar um clube com 109 anos de existência.

“A nossa primeira preocupação foi manter os atletas ocupados porque sabíamos que iria ser difícil estarem em casa, principalmente da parte da formação. Os treinadores deram planos de treino aos jogadores e falavam com eles via ‘Zoom’.

Claro que eram coisas leves, porque uns tinham condições e espaço para fazê-lo na rua, e outros só em casa, mas iam fazendo sempre e enviavam as filmagens”, começou por dizer a presidente.

“A preocupação não foi só a parte física do atleta, mas também a parte mental. Quando as coisas começaram a acalmar, regressámos aos treinos. Agora todas as pessoas que entram aqui no estádio têm o seu nome apontado numa lista, além de que em todos os treinos e jogos é medida a temperatura e desinfeta-se as mãos”, referiu

A líder do clube acrescentou ainda que “não são usados os balneários, pois estamos a cumprir as regras da DGS, com um plano de contingência para todas as modalidades”.

“Cumprimos com os vencimentos com todas as pessoas”

Muitos clubes tiveram de despedir pessoas pela falta de receitas, mas não foi o caso do Barreirense. “Mantivemos todos os postos de trabalho. Aliás, nem cobrámos a mensalidade de março aos pais em nenhuma modalidade, porque não fazia sentido e só treinaram até dia 10”.

Maria João de Figueiredo assegura que o clube “cumpriu com os vencimentos com todas as pessoas que trabalham para o clube até ao fim do mês de março. Depois foram alguns para lay-off, mas agora já estão todos a trabalhar e não foi preciso mandar ninguém embora.

A nossa preocupação foi sempre a sustentabilidade financeira, e foi o que nós garantimos. Conseguimos aguentar no sentido do clube cumprir com as suas obrigações”.

No entanto, a realidade no Distrito de Setúbal é que nenhum clube tem condições para assegurar testes de despistagem à Covid-19 com frequência, “só três grandes e mesmo assim é difícil”, disse a presidente.

“Os clubes têm de ter algum apoio da Associação ou da Federação”

Se formos fazer contas a cada teste, que são 100 euros, vezes os atletas, modalidades e jogos, provavelmente ficaríamos com despesas de mais de 200 mil euros. Não é um orçamento para nenhuma das modalidades do clube, nem chegamos lá perto. Se essa medida for tomada, os clubes têm de ter algum apoio da Associação ou da Federação.

Um exemplo, nos playoffs de futsal para o acesso à Liga Placard, foi-nos indicado que alguns atletas, aleatoriamente, têm de fazer testes. Só assim é que podemos sustentar-nos, porque quem paga é o Barreirense, mas o valor é assumido pela Federação. Dessa forma parece-me razoável”.

Maria João de Figueiredo considera que a época passada “a nível geral foi positiva. Sei que o desporto rei é o futebol e toda a gente se preocupa muito com aquela modalidade, e quando terminámos abruptamente por causa da pandemia, estávamos em segundo lugar, o que nos deu acesso à Taça de Portugal.

No basquetebol há dois campeonatos, num deles o Barreirense não pertence”

Este ano a aposta no futebol é subir ao Campeonato de Portugal. No Basquetebol, como tenho por hábito dizer, existem dois campeonatos. Um para três ou quatro equipas, onde o Barreirense não pertence, e depois existe o outro campeonato que nós estamos. Desta forma, ficámos classificados de uma forma a não descermos de divisão, o que é positivo”.

A líder do clube refere, ainda dentro do tema do basquetebol, que “o nosso orçamento para um ano inteiro é provavelmente para um jogador de uma equipa grande para um mês. Não há comparação. O que um jogador ganha num mês, dá-nos para um ano inteiro. Mesmo assim fazemos uma ginástica muito grande e procuramos empresas e patrocinadores para estar ao nosso lado”.

No Xadrez e no Kickboxing “também tivemos resultados muito bons, com excelentes elementos nestas duas modalidades. Já na natação infelizmente este ano não podemos ter a quantidade habitual de atletas, temos de ter menos, porque a DGS assim manda”.

“Não vejo a derrota no futsal como um falhanço”

No futsal, “com todas as peripécias que existiram na época anterior, ficámos em 2º lugar, o que nos deu acesso ao playoff da Liga Placard”, contou a presidente.

O Barreirense acabou por cair na segunda eliminatória depois de uma derrota frente ao Caxinas por 5-1, mas Maria João de Figueiredo disse, antes da partida da equipa para Torres Novas (altura em que se realizou esta entrevista), que “se não subirmos, não vejo como um falhanço.

Esta direção está cá há um ano e não pensávamos que estaríamos onde estamos hoje nos playoffs. Se o resultado não aparecer é porque o adversário foi melhor”.

“No futebol queremos ter 50% da nossa formação a jogar nos seniores daqui a cinco anos”

No planeamento da nova época, a líder do clube referiu que “todos os anos ficamos com jogadores da formação em várias modalidades. Temos um plano a oito anos no futebol, em que queremos ter 50% da nossa formação a jogar nos seniores daqui a cinco anos.

Campo da Verderena, onde joga o Futebol Clube Barreirense

Não sei quem estará à frente do clube nessa altura, mas existe esse plano na formação. A ideia é os jovens atletas terem como referência os seniores.

Além disso, fomos também buscar atletas de fora. No basquetebol vamos sempre buscar norte-americanos, tal como todas as equipas, e no futebol e no futsal também vieram atletas de fora, mas a grande aposta é a formação. Estamos empenhados nesse parâmetro.

No entanto, a presidente refere que “para nós o aspeto mais importante são as pessoas, não é o talento. Se aparecer algum talento, será porque nós pensámos primeiro nas pessoas e no atleta.

Sabe-me bem quando recebo mensagens de alguns pais a dizer: ‘obrigado pela ajuda, por meter o meu filho a jogar, ele está muito feliz’. Mas eu sinto que não fiz nada, só passei o nome aos responsáveis. A verdade é que o atleta está feliz, tal como os pais, e é isso que queremos”.

“Posso ser uma inspiração para outras mulheres”

Maria João de Figueiredo é a primeira mulher a liderar o Futebol Clube Barreirense, um caso raro no mundo do desporto. A presidente diz que pode ser “uma inspiração para as outras mulheres, porque se eu estou aqui, também podem estar outras.

Tenho de dizer que nunca me passou pela cabeça, nem nunca tive o sonho de ser presidente do Futebol Clube Barreirense. Aquilo que nós vamos fazendo durante a vida e aquilo que foi acontecendo em toda a minha vida pessoal e profissional, talvez me tenha encaminhado para aqui.

Quero dizer às mulheres que é possível, desde que nós queiramos e tenhamos vontade, atitude e a disponibilidade. Até porque para estar num clube como o Barreirense tem de se vir com a mentalidade de que estamos a servir um clube e as suas pessoas. Temos de estar preparados para as críticas, sendo elas positivas ou negativas”, sublinhou.

“Não sou presidente, eu estou presidente”

“Eu estou aqui para servir. Quando me dizem: ‘és presidente’, eu digo: Eu não sou presidente, eu estou presidente enquanto cá estiver. Porque acima de mim há uma instituição muito superior que o Barreirense, é essa a minha forma de pensar.

Maria João de Figueiredo conta ainda que nunca se sentiu prejudicada no mundo do desporto por ser mulher, “porque quando as pessoas dizem certas coisas, eu só valorizo aquilo que é importante e acrescenta valor.

A minha vida é cheia de decisões, mas não me sinto afetada. Para estarmos num lugar destes, temos de estar psicologicamente e emocionalmente bem. Eu sinto-me muito bem, tenho pessoas à minha volta que me apoiam muito, além da direção, tenho os meus filhos e pessoas amigas”.

“Gostava de ter um centro de treinos com tudo concentrado num só sítio”

A presidente do Barreirense revela que há aspetos que gostaria de mudar no clube. “Aquilo que eu gostava era que o clube voltasse a ter um campo digno para os sócios, e que a cidade do Barreiro e os sócios se virassem mais para o clube de uma forma positiva. Não é que não sinta o apoio, mas queria mais.

Gostava de ter um centro de treinos para atletas, e tudo concentrado num só sítio. Eu sei que isto é um sonho, mas gosto de verbalizar os sonhos, porque às vezes acontecem”.

Mas há uma coisa que a líder do Barreirense nunca faria: vender o clube. “Poderia existir uma SAD, mas tinha de ser com sócios do clube, e com um investimento muito diferente. Agora virem comprar só por comprar, para ejetar aqui dinheiro como eu tenho visto em alguns clubes, está fora de questão.

Nunca iria fazer isso aos sócios. Enquanto eu cá estiver isso não vai acontecer. No entanto, claro que gostava de arranjar forma de ter um campo de futebol digno, de ter um pavilhão onde pudéssemos treinar e jogar no basquetebol e no futsal, e não termos de andar sempre de um lado para o outro. É tudo muito ambicioso, mas era o que eu gostava”.

“Não tinha a noção do carinho que as pessoas tinham pelo Barreirense”

A líder do clube sublinhou que “sonhar é possível, e aqui seria possível porque o Barreirense tem uma história muito grande por trás. O que me surpreendeu quando me candidatei foi a forma positiva como falavam do clube. Eu conhecia a história, mas não tinha noção do carinho que as pessoas tinham.

Fomos um viveiro durante muitos anos do Benfica e saíram daqui atletas de renome. O último deles foi o João Cancelo. Além dele, jogadores como o Bento, Carlos Manuel, Chalana. E no basquetebol também”, disse.

As expetativas são altas nesta época em todas as modalidades, e o Barreirense está pronto para realizar uma grande temporada a todos os níveis.

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