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Porto | Quartel dos Bombeiros Voluntários do Porto fechado

É mais um episódio em torno de uma instituição fundada há 147 anos e que tem honras de ser denominada Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Porto. Num novo protesto contra a atual Direcção, que está em funções desde 2019, os voluntários decidiram que não vão continuar a desempenhar a tarefa dos centralistas aos feriados e fins de semana, como estavam a fazer desde que no final de Maio, saiu de lá uma empresa contratada para o efeito.

“Desde o início de Junho, aos fins de semana e feriados a central tem sido abandonada, por ordem do sr. Presidente, desde as 8 da manhã até às 8 da manhã do dia útil seguinte. Os voluntários têm assegurado a central desde que isso acontece”, explicou Sérgio Macedo ao JN, um dos 13 voluntários que se manifestaram no quartel nesta quinta-feira, recusando-se a continuar uma tarefa que não lhes competia. Não querem que o quartel feche, querem é fazer o seu trabalho.


“Isto já aconteceu anteriormente. Depois, foi contratada uma empresa para assegurar a central. Sabemos que a empresa foi embora por falta de pagamento de vários meses”, prossegue Sérgio Macedo.

Perante a falta de quem o substituísse, o funcionário que esteve na central durante a noite teve ordens da Direção nesta manhã, para encerrar o quartel. Cá fora, os voluntários desdobraram-se em contactos para tentar encontrar uma solução e afirmam ter dado conhecimento informal da situação ao Comandante Distrital de operações de socorro, à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, à Liga dos Bombeiros Portugueses e, ainda, ao comandante do Batalhão de Sapadores de Bombeiros do Porto, corporação que agora está a receber as chamadas de emergência da central dos Voluntários do Porto.

O advogado Tiago Machado, que representa os bombeiros e alguns associados, revelou que no início da próxima semana vai apresentar recurso relativamente à providência cautelar que foi indeferida por um tribunal do Porto e em que era requerida a destituição da Direcção. Disse ainda que a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil também já apresentaram junto do Departamento de Investigação e Ação Penal do Porto um pedido de destituição dos órgãos sociais. Segundo o artigo 44.º da Lei 32/2007, é essa entidade que tem legitimidade para solicitar a destituição judicial. Segundo Tiago Machado, “há uma série de irregularidades” na gestão da associação, em particular “do ponto de vista financeiro”.

O comandante dos Bombeiros Voluntários do Porto, José Carlos Coelho, referiu que “a situação já vem a arrastar-se há muito tempo”, acrescentando que “a Direcção é que tem de resolver” o problema da falta de dinheiro.

“Sem a central, não há operacionalidade. A operacionalidade tem de ser no quartel, não pode ser em casa”, afirmou, por seu turno, Ricardo Silva, aludindo ao facto de, além do encerramento dos portões, o presidente da Direcção ter ordenado o reencaminhamento das chamadas de emergência para o telemóvel de outro elemento da corporação, que está em casa e, de momento está suspenso.

Só mais tarde é que o encaminhamento passou a ser feito para os Sapadores, depois dos Voluntários do Porto terem recebido a meio da manhã um alerta de incêndio que, devido ao fecho da central, acabou por ser reportado aos Sapadores. É pela central que passam quer a gestão das equipas a enviar para o terreno quer as comunicações, via rádio, do que os bombeiros têm de fazer, além de outros procedimentos.

A corporação tem 20 voluntários e o mais velho em tempo de serviço trabalha lá há 26 anos. “Não queremos que isto feche, mas ninguém fala connosco”, prossegue Sérgio Macedo. Ricardo Silva vai mais longe: “Esta Direcção tem de cair”. Nos rostos de todos estava a tristeza por verem o que está a acontecer à corporação, que foi fundada em 1875 e chegou a receber a visita do rei D. Luís I e da rainha D. Maria Pia, em 1887.

“Ninguém faz nada por nós”, repetia Paula Teixeira. Este é um sentimento geral a todos os voluntários. Já são muito poucos os assalariados da corporação e, por esse motivo, “há mais de um ano que não há operacionalidade de dia”, diz ainda Ricardo Silva, lembrando que a ambulância do INEM está parada à porta, também por falta de meios humanos. “Por ordem do sr. Presidente, estamos proibidos de abastecer as viaturas, até ordem em contrário”, acrescenta. A esse propósito, Domingos Reis contou-nos que já pagou do seu bolso 92 euros para abastecer um dos carros e ainda não os recebeu.

“Ele (o Presidente) despediu os bombeiros porque financeiramente a associação está mal. Mas despediu a matéria-prima”, diz por fim, Manuel Peito. Estes voluntários queixam-se ainda de não poderem fazer parte das equipas de combate aos fogos florestais, apesar de o comandante ter disponibilizado meios para tal logo em 2019.

O presidente do Conselho Executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses. António Nunes afirmou ao JN, que a Liga só poderá ter aqui um papel de mediadora e, apenas se for solicitada para tal, formalmente, pelos sócios ou pelos órgãos sociais. O responsável acrescentou que a instituição “nunca tomou uma posição sobre esta matéria”, porque, garante, esse pedido não chegou a ser feito. Questionado sobre se há mais casos como este no país, lembrou o recente fecho do quartel dos Bombeiros Voluntários de Crestuma, em Gaia, embora as circunstâncias não sejam iguais.

Em declarações à agência Lusa, Iva Bessa contou que a direcção que tomou posse há três anos “mandou fechar os portões do quartel e fechar a central, permanecer assim até às 8h, e está a transferir as chamadas de emergência para um civil”.

A bombeira, uma de um total de 13 voluntários, descreveu uma situação que tem vindo a arrastar-se no tempo, fez críticas à direcção da corporação, disse que os voluntários estão “de pés e mãos atados” e que o “socorro ao povo portuense ficava comprometido”. “Exigimos a demissão desta direcção que está a afundar uma instituição fundada há 147 anos”, acrescentou, lamentando que os bombeiros voluntários estejam “inibidos de fazer a emergência e de poder dar o seu contributo à comunidade”.

Presidente manda abater duas viaturas que “estavam boas para o serviço”, denuncia membro da direção

O membro da direcção dos Bombeiros Voluntários do Porto José Robalinho denunciou à Lusa que o presidente daquela corporação, Gustavo Barroco, mandou abater duas viaturas oferecidas que “estavam boas para o serviço”. “Dois carros que nos foram oferecidos por outras corporações de bombeiros e que estavam bons para o serviço foram mandados abater pelo presidente da direção para tentar fazer dinheiro”, disse.

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Afirmando “não ter sido consultado” sobre nenhuma das decisões, José Robalinho recorda-se que a primeira viatura, então oferecida pelos Bombeiros de Campo de Ourique, foi abatida há mais de um ano “e rendeu pouco mais de mil euros”.

“A segunda foi há cerca de duas semanas. Era um Volvo, tinha 30 mil quilómetros e estava estacionado nos Bombeiros Portuenses depois de nos ter sido oferecido pelo Batalhão de Bombeiros Sapadores do Porto, para ser transformado num autotanque”, contou o dirigente, afastado das reuniões da direção desde 2021.

Questionado pela Lusa se tinha conhecimento das dívidas da associação revelou que em Setembro de 2020 pediu para fazer essa consulta, mas as “únicas contas que mostraram eram de débitos à associação e totalizavam 187 mil euros”. “Fui perguntar aos devedores e mostraram-me que não era verdade. Se me pergunta onde está esse dinheiro, respondo que não sei, como nunca soube se associação devia dinheiro a alguém, porque nunca me mostraram”, acrescentou José Robalinho.

A Lusa contactou o presidente da direção da Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Porto, Gustavo Pereira Barroco, mas até ao momento não obteve resposta.


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