Opinião

ORDEM v/s CAOS

Uma crónica de Nuno Gonçalves

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A ordem é uma ilusão criada pelo Homem para navegar no caos.

Como todas as máscaras por vezes não resiste e rasga-se, deixando entrever a verdadeira face do abismo.

Assim é com esta praga que vivemos. Todos os dias estraçalha mais um pouco da segurança das nossas convicções. Primeiro foi a ciência, depois os valores, e por último a segurança e a subsistência de todos, ou pelo menos da maioria.

Rasgada a máscara o caos é então revelado em todo o seu esplendor. Mas ao contrário de outros momentos de pânico que vivemos no passado, não temos já o refúgio da religião ou sequer do esoterismo, que foram sendo substituídos pelo materialismo orgânico que construímos e pelo egoísmo a que nos conduziu o triunfo do neoliberalismo selvagem e do comunismo, que neste capitulo apenas diferem nos meios.

Por isso estamos em pânico, não sabemos em que acreditar e corremos de um lado para o outro, oscilando entre o cepticismo insano negacionista e o pânico exagerado e mutilador, alimentados pela chusma de frases feitas e verdades inventadas, repetidas incessantemente pelas redes sociais e amplificadas por média (com raras excepções) que há muito venderam a sua ética e de qualquer forma se vêem impotentes para travar o caos.

Porém o dilema que se vive é o de parar tudo e morrer de fome ou não parar e morrer (de COVID e não só) de falta de assistência médica.

É um dilema sem solução, porque qualquer que seja a escolha haverá sempre danos insuportáveis para as sociedades de conforto materialista, em que nos tornamos, onde a cultura do individuo e da competição aniquilou a percepção do interesse colectivo e do bem comum.

Daí que, para a maioria dos governos, esta crise sanitária se tenha transformado num jogo de sobrevivência política, onde o que importa afinal é sobreviver ao caos instalado.

É neste contexto que se devem olhar as diferentes medidas que têm sido adoptadas pelos governos em Portugal e no mundo.

Por cá, depois de ter sido ensaiada uma solução fora do quadro constitucional, o governo, acossado pelas vozes que logo se levantaram em defesa do que resta da ordem arduamente conseguida, optou pela declaração do estado de emergência, impondo o recolher obrigatório à noite e aos fins-de-semana. A ideia, dizem, é travar o contágio que advém do convívio social e familiar alargado nos períodos de ócio. Ao mesmo tempo que afirmam, com uma certeza inaudita, que na escola e nos transportes públicos não há risco acrescido de contágio.

Claro que todos sabemos que não é assim. Eles e nós. Tal como todos sabemos que o recolher obrigatório não vai travar nada porque, numa analogia pertinente, se tentarmos tapar a água que sai de uma mangueira de pressão com os dedos apenas influiremos na direcção em que a mesma sai e não na quantidade de água projectada. Prosseguindo a mesma analogia, ou fechamos a torneira e morremos de sede ou deixamos sair e morremos afogados. A solução seria diminuir a pressão da água. Mas como nada sabemos sobre a causa dessa pressão tudo o que fazemos é criar no povo a ilusão de que estamos a fazer alguma coisa com sentido.

Enquanto isso e apesar disso, a percepção do caos vai tomando conta das nossas vidas gerando medo, revolta e conduzindo à adopção de comportamentos disparatados e desconexos que vão alimentando esse mesmo caos.

O bom senso e o sentido do equilíbrio são as nossas bóias de salvação. Mas para isso é preciso que nos digam a verdade e nos mobilizem a inteligência em vez de nos alimentarem o medo.

Para as gerações vindouras tenhamos a clarividência e a sabedoria de admitir que só uma cultura de cooperação permitirá ao individuo ser feliz e encontrar o seu caminho no meio do caos. A solução é tão antiga como a nossa humanidade e no ocidente pode ser resumida numa formula com mais de dois mil anos “ama o teu próximo como a ti mesmo” .

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