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Octávio Machado: “Os bombeiros têm sido esmagados, não só na sua capacidade, mas na sua moral”

Octávio Machado falou sobre a "discriminação" que os bombeiros tem sofrido, deixando ainda duras críticas ao Governo.

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Octávio Machado faz parte dos Bombeiros de Palmela há 27 anos. Atualmente é presidente da associação e deu uma entrevista ao Diário do Distrito, onde falou sobre a “discriminação” que os bombeiros tem sofrido, deixando ainda duras críticas ao Governo.

Leia a primeira parte da entrevista:

Estamos na fase crítica para a ocorrência de incêndios. Que previsão é que faz de mais um verão que se espera muito quente?

Estou preocupado porque há pouco tempo, alguém de reconhecida competência nesta área, traz-nos a informação de que Pedrógão Grande pode voltar a repetir-se e estão criadas as condições para a que isso aconteça.

Li também que castelo Branco, Guarda e Bragança estão com situações exclusivas similares àquelas que aconteciam em Pedrógão. Isto deixa-me estupefacto porque todos nós temos sidos “premiados” com a estratégia traçada pelas responsabilidades governamentais no sentido de apostar na vigilância, na prevenção e diminuir o investimento no combate.

“A estratégia é apostar na vigilância e prevenção e diminuir o investimento no combate”

É grave, muito grave e revela a falência completa deste extraordinário investimento que foi feito. Mas no combate é ao contrário: desde 2005 que não existe uma renovação do equipamento. É uma situação desastrosa e elucidativa do quadro a que chegaram as responsabilidades, como sempre, do Governo.

Há três pilares essenciais. Primeiro: Há quantos anos se fala no ordenamento do território? Há uma irresponsabilidade enorme nesta área. Num país responsável, os políticos eram todos julgados.

Segundo: A vigilância. De quem é a responsabilidade? Não é certamente dos bombeiros. Terceiro: A Prevenção. De quem é a responsabilidade? Do Governo. Estes três pilares falharam estrondosamente em Pedrógão e pelos vistos existem condições para que possa acontecer o mesmo em vários pontos do país.

“Todas ou quase todas as viaturas do Distrito de Setúbal têm mais de 20/25 anos”

As associações de bombeiros sentem a falta de condições de resposta. Todas ou quase todas as viaturas do Distrito de Setúbal têm mais de 20/25 anos. Está em causa a segurança dos bombeiros, a capacidade de resposta face a avarias. O que podemos fazer? Pouco ou nada. A discriminação com que os bombeiros têm sido tratados é escandalosa. Atualmente fala-se muito em profissionalismo, mas só os bombeiros é que não podem ser profissionais, em termos de pagamento, no combate aos incêndios florestais.

A remuneração também é um reconhecimento. Temos a escandalosa situação que para completar o ECIN (Equipa de Combate a Incêndios), os bombeiros profissionais passam a voluntários. Se passam a voluntários, perdem o estatuto profissional e o seguro de trabalho que existe deixa de ter validade. Passa a ter validade o seguro das Câmaras Municipais que cobrem menos riscos. Não é escandaloso? São as únicas forças que não são pagas como profissionais. Os canarinhos, as forças especiais de bombeiros são pagas como profissionais, os sapadores florestais também. E os voluntários não. Porquê?

Todas essas forças têm subsídio de alimentação e há uma força dos bombeiros que é a GRUATA (Grupo de Reforço de Ataque Ampliado), que vai para o exterior e a alimentação é paga, tal como a dos ECINS. E os bombeiros que estão em prontidão nos quartéis, que pertencem ao dispositivo, não lhes é pago o almoço porquê?

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“Os Bombeiros de Palmela receberam há uma semana as despesas dos fogos florestais de 2020. O Governo é caloteiro”

Os bombeiros não estão em prontidão no quartel? Se calhar é uma prontidão que não é exigida a outros. Pagam-lhes miseravelmente e não têm almoço nem jantar. Isto é brincadeira e a brincadeira já durou muitos anos e tem de acabar.

Os fogos florestais representam 6% da atividade dos bombeiros. As associações não recebem 1 euro. Têm de assumir as responsabilidades de pagamento antecipado de alimentação, combustível, reparação de viaturas. Os Bombeiros de Palmela receberam há uma semana as despesas dos fogos florestais de 2020. Já estamos na segunda metade de 2021. O Governo é caloteiro.

O comandante nacional da proteção civil diz que vão estar, nesta fase do verão, no terreno mais de 12 mil operacionais. É suficiente?

Ele disse quem era? Diga quem é. Discrimine as forças. O comandante é militar, e os militares cuidam das suas tropas. Ele que cuide das tropas dele e que responda porque é que não são pagas refeições, e porque é que as associações têm de suportar os custos. Porque é que a autoridade não pede os orçamentos das viaturas que se avariam, manda arranjar e paga?

“As associações passam por muitas dificuldades financeiras e ainda vão ficar como caloteiras perante as oficinas e perante os fornecedores de combustível”

As associações passam por muitas dificuldades financeiras e ainda vão ficar como caloteiras perante as oficinas e perante os fornecedores de combustível. Nós é que somos os caloteiros?

Nós trabalhamos para a ANEPC (Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil). Eles comandam-nos e utilizam-nos como barrigas de aluguer. O comandante nacional é militar, está como comandante nacional da proteção civil. Os militares não deixam ninguém para trás, mas os bombeiros voluntários estão a ficar para trás.

A culpa é dele? Não. Mas ele é comandante. Exija o cumprimento.

Acha que faltam voluntários?

Sim. A maneira como o Governo tem olhado para os bombeiros levou à fragilização das Associações de Bombeiros. Há uma desmotivação que é real causada pelo desprezo do Governo pelos bombeiros desde 2005. Desde que o Sr. António Costa anunciou a reforma da Proteção Civil, os bombeiros têm sido esmagados, não só na sua capacidade, mas na sua moral, que é pior.

A rede SIRESP tem sido alvo de grande investimento nos últimos anos depois do falhanço em Pedrógão Grande. Confia neste sistema?

Tudo o que têm sido opções de milhões do Governo dá problemas. Já todos percebemos as falhas que o SIRESP tem e o investimento continua. A responsabilidade é do Governo. Chegou a hora de dar o nome às coisas. O Sr. António Costa é o principal responsável de toda a degradação dos bombeiros portugueses, que depois intitulam como a maior força da proteção civil. Mas qual é o investimento deles nessa força, comparado com o investimento que é feito noutras forças?

Alguma outra força está no terreno 24 horas? É para isso que querem que sejamos voluntários, para comer mal, dormir mal? Mas infelizmente há bombeiros que gostam disto. De serem os heróis, os mártires. E queixam-se, mas estão sempre disponíveis porque fala mais alto a vontade de proteger a população.

“A Proteção Civil tirou capacidade às associações para poder responder àquilo que são os seus compromissos”

Quando foi criada a força especial de bombeiros, foram buscar os bombeiros onde? Às associações. Todos eles. O que é que a ANEPC pagou por esse investimento das associações? Zero. Enfraqueceu as associações, que só piorou com a pandemia. Tirou capacidade às associações para poder responder àquilo que são os seus compromissos.

Atribuo as culpas ao António Costa desde que foi Ministro da Administração Interna em 2005 e iniciou uma reforma que faliu os bombeiros. A reforma foi a resposta aos incêndios de 2003. O Pinhal de Leiria ardeu, Monchique também. Houve um ano que ardeu tudo.

Foi um dos que se manifestou com o facto do Comandante dos Bombeiros de Pedrógão Grande ser acusado. Porquê?

Custa-me ver um comandante dos bombeiros no banco dos réus. Quem lá devia estar era outra pessoa. Eram os políticos, não é comandante. Não podia nem devia estar ali sentado. O que é que lhe foi dado pelos políticos para desempenhar as suas funções?

“Quem devia estar no banco dos réus eram os políticos, não é o comandante”

Será que o ordenamento do território foi feito? Será que a vigilância e prevenção existiu? Quem devia lá estar são os que falharam nestes pontos. Falhou tudo e depois vão atribuir as responsabilidades ao combate, que é o último pilar. E o que dão ao combate? Uma frota velha, carros com 20 ou 25 anos, voluntários a receberem dois euros e pouco. É isso que dão.

Há quem ande no terreno por amor. Vão lá. Onde estão os responsáveis?


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