Opinião

O esbardalhanço

Uma crónica de Vera Esperança

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Nada melhor que o passar do tempo para assistirmos ao fim do que nunca deveria ter existido:  as crenças medievais, a escravatura, os cristãos mortos nas arenas romanas, a coisificação dos animais…. Tudo muda, tudo evolui.

E é a isso que vamos assistindo com lágrimas nos olhos representativas de uma gigantesca felicidade ao percebermos que também a tourada está a chegar ao seu fim. Está à beira do precipício – falta apenas o empurrãozinho misericordioso que permitirá a almas assaz bondosas a possibilidade de formarem fila para participarem na última estocada. A estocada que se precisa e em que faço questão de participar vestida de cor-de rosa e coberta de lantejoulas vermelhas. 

Vou então dar-lhe a conhecer alguns acontecimentos recentes que provam que a queda livre e consequente esbardalhamento estão prestes a acontecer. 

Ora, no dia 21 de novembro realizou-se no Campo Pequeno a “Manifestação pela Cultura” promovida a APEFE – Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos. O que é que isto tem a ver com a tourada? Nada! Mas a Protoiro (quem?), ao deparar-se com a caixa postal vazia, compareceu sem ser convidada numa reunião dedicada à proteção do setor cultural. Mas porquê, Cristo, porquê? Porque é que estas alminhas ainda querem fazer crer que esta sangrenta e violenta atividade se insere no domínio cultural? A presença de membros do setor taurino foi tão, mas tão, tão indesejada pelos dignos e honrados representantes da cultura portuguesa que os seus interlocutores foram impedidos de ler o manifesto reivindicativo que tinham escrito em defesa de um setor onde claramente não pertencem. Aparecem sem convite (por favor, façam-se homenzinhos) e são postos à borda do prato, prestes a serem empurrados para o contentor mais próximo. 

Outro acontecimento que nos faz ficar em lágrimas de tanta felicidade foi a recusa por parte da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em reconhecer a tourada como património cultural imaterial da humanidade. Um pedido feito com caráter urgente pela associação espanhola International Tauromaquia Association. Ora, se por um lado a UNESCO considerou que o pedido era baseado em falsos argumentos porque a tauromaquia não está em risco de extinção em Espanha (mas lá chegará…), por outro esta prática violenta não vai ser distinguida pela UNESCO, cujos princípios se baseiam precisamente na não violência. Até já mentirinhas são veiculadas à UNESCO. Mais um bom exemplo de um setor em decadência. Uma vergonha.

Quer outra novidade quente e boa? Aqui fica: os municípios taurinos sentiram necessidade de se unir para defender a tauromaquia. Ao que chegámos…. Então esta coisa, diria mais, esta porcaria não é cultura, caramba? Unirem-se para defender e promover cultura? Mas anda tudo doido? Ah…. Espera lá… é verdade, isto não é cultura, pois não… Vamos então criar uma associação para promoção e defesa da tauromaquia, já que ninguém nos defende… Mas ainda não temos denominação. Eu sugeria, com todo o falso respeito que vos tenho e em honra dos espanhóis desesperados que referi no anterior parágrafo, que se unissem as forças ibéricas e que a associação se denominasse “Los últimos Olés”. 

 E por fim, quando esta associação, fracassada à nascença, apresentar os seus municípios associados, não poderão contar com Viana do Castelo, cuja praça de touros vai ser transformada em 2021 num complexo desportivo. Não contem também com as cidades anti taurinas portuguesas que vão germinando pelo país.

Por último, mas de todo menos importante, trago-lhe como novidade que este setor em decadência sofreu um inédito corte nos subsídios europeus agrícolas para a produção de touros utilizados com fins tauromáquicos, decisão aprovada pelo Parlamento Europeu durante as votações para a nova Política Agrícola Comum (PAC). 

Silêncio…. Está a ouvir? Eu também estou. É o assobio da queda. Veee……

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”.

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