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O ‘Diabo’ entrou no Centro Hospitalar de Setúbal

O Centro Hospitalar de Setúbal, mais conhecido por Hospital São Bernardo, já conheceu dias melhores, quem o diz são utentes que esperam longas horas no atendimento, mais propriamente na Sala Aberta, depois de passarem pela triagem e de lhes ser diagnosticada a prioridade através do sistema de Manchester.

Neste, o doente vai chegando e depois de preencher toda a documentação necessária, é chamado para a sala de triagem, ali é avaliado por um profissional de saúde e enviado para a tal Sala Aberta, com a pulseira da cor que indica o grau de prioridade de atendimento.

Tivemos conhecimento de um caso de uma idosa que entrou na triagem pelas 13h30 e em cinco minutos foi diagnosticada a prioridade média alta (pulseira amarela), levada na maca dos bombeiros para a Sala Aberta, foi transferida para uma das poucas camas hospitalares ali existentes, mas viria a aguardar várias horas até ser atendida pelos médicos do serviço de urgência.

Segundo alguns relatos que nos chegaram, os bombeiros têm indicação de não deixar nenhuma maca no Centro Hospitalar de Setúbal, devido ao atraso na sua devolução. Segundo uma fonte próxima do CHS, adiantou ao Diário do Distrito antigamente os bombeiros chegavam e deixavam as macas, passadas algumas horas as mesmas estavam disponíveis, agora isso não acontece, existem corporações que tem aqui ambulâncias paradas entre três a quatro horas. Isto está um caos para todo o setor”, lamenta.

Um dos dirigentes de uma corporação de bombeiros diz que “naquele hospital está um caos em tudo, temos tido várias ambulâncias ali paradas algumas horas, até que nos possam devolver as nossas macas. Não vamos deixar os doentes no chão como deve de calcular”.

O CHS tem tido alguns picos nos atendimentos, existem momentos em que as urgências são encerradas por ordem da administração, pois a sua capacidade já foi há muito esgotada, havendo mesmo desvio de doentes para o Hospital Garcia D’ Orta, em Almada, outra unidade que está a rebentar pelas ‘costuras’ na margem sul do Tejo.

O Diário do Distrito sabe que nos últimos tempos existem doentes que são encaminhados para o Hospital do Litoral Alentejano, Santiago do Cacém, a mais de 160 quilómetros da capital do distrito.

Funcionários a dar as últimas

Outro grande problema do CHS é a falta de funcionários, enfermeiros, médicos e assistentes operacionais, nas urgências daquela unidade os turnos são variados, mas a falta de pessoal impossibilita que o serviço de saúde seja prestado dentro da normalidade.

Ana G. é um desses casos, a doente entrou com um familiar na zona da triagem pelas 15h35, a prioridade no sistema Manchester ditou que teria prioridade média alta (pulseira amarela), esteve mais de 5 horas na Sala Aberta para ser atendida.

O que se passa nesta unidade é de loucos, pois os serviços não dão despacho aos utentes que lá entram, eu estive mais de 5 horas à espera que a minha mãe fosse atendida pela equipa médica. Compreendo que seja difícil o trabalho dos médicos na primeira linha de atendimento, mas também é difícil para nós acompanhantes e familiares e para o próprio doente”, desabafos de uma de muitas acompanhantes de dezenas de doentes que passam diariamente pela unidade de urgência do CHS.

O pessoal de enfermagem e assistentes operacionais é outro setor que está em rutura.

Um profissional que não quis ser identificado com medo de represálias, adiantou ao nosso jornal que “nós compreendemos o desespero de muitos utentes, mas nós aqui estamos a fazer o que podemos, somos poucos, bem sabemos, mas sem matéria prima não conseguimos obter aquele resultado que queremos ou nos propusemos a fazer, que é o salvar vidas”, e ao dizer estas palavras, conseguimos ver o ar de cansaço no olhar desse profissional.

Já na parte de internamentos temos um cenário idêntico, pessoal de baixa médica, serviços atolados de doentes, quartos cheios e pouco pessoal nos diversos pisos do CHS.

O Diário do Distrito sabe que quase todo o pessoal operacional tem horas extras, que já entraram num banco de horas, mas que não foram ainda reembolsadas.

Questionámos a administração do CHS sobre esta matéria, mas até ao fecho da edição não obtivemos resposta sobre um assunto que parece ser tabu para a administração.

Estacionamento pago para pagar dívida à SUCH

No próximo dia 5 de dezembro, visitantes e funcionários vão manifestar-se em frente ao CHS para mostrar o desagrado no pagamento dos parques de estacionamento. O nosso jornal fez as contas e ao fim do dia o visitante pode vir a pagar cerca de 10 euros pelo estacionamento, que muitas das vezes nem existe.

Isto porque o parque não tem um sistema de monitorização dos lugares vagos, à semelhança do que acontece no parque de estacionamento do Hospital Garcia de Orta, em que apenas é permitida a entrada nos parques quando há lugares, e logo à entrada o utente sabe se estes estão ou não completos.

Tivemos oportunidade de visitar um desses parques e o estacionamento também não é dos melhores, pois numa das zonas existem lancis danificados por causa das raízes de uma árvore de grande porte.

Por outro lado, os utentes continuam a deixar os seus veículos sem terem, muitas das vezes, consideração pelos outros automobilistas, e ocupando todos os espaços disponíveis, mesmo que não se destinem ao estacionamento.

Segundo uma fonte próxima do CHS, a administração decidiu instalar os parquímetros nos estacionamentos, devido a uma dívida que aquela unidade tem para com a empresa SUCH.

Esta será uma das soluções encontradas pela administração para obter verbas para o pagamento dessa dívida à empresa que presta serviços de manutenção em unidades hospitalares.

Solicitámos mais esclarecimentos sobre o assunto, ao que a administração nos respondeu via email que: «Com o intuito de melhorar a circulação e modernizar a gestão de tráfego rodoviário dentro do perímetro do Hospital de São Bernardo, foi implementado um Novo Sistema de Gestão de Parqueamento», começando a ser pago no passado dia 15 de novembro do decorrente ano.

Para administração é normal este tipo de procedimento, salientando que «À semelhança do que já acontece na maioria dos hospitais públicos a gestão do parqueamento de viaturas no HSB será efetuada pelo SUCH – Serviço de Utilização Comum dos Hospitais, entidade do Ministério da Saúde parceira de diversos hospitais públicos nesta área».

Esta situação leva também a protestos dos moradores das áreas limítrofes do CHS devido à ocupação dos seus lugares de estacionamento no exterior, pelos utentes que não pretendem pagar.

Foi ainda feita uma petição com o apoio de médicos, enfermeiros e assistentes operacionais contra o estacionamento pago, que refere que os funcionários do CHS vão pagar entre 12 a 15 euros mensais para que possam estacionar para trabalhar, e que os administradores e diretores estão isentos de qualquer pagamento de estacionamentos.

Trânsito complica-se dentro do perímetro hospitalar

Um dos grandes problemas com as novas regras de trânsito foi a implementação das saídas das viaturas pelo lado nascente, havendo dias em que o caos é grande entupindo o acesso às ambulâncias que saem das urgências. A semana passada foi um momento de grande caos, pois as manobras de um pesado na Rua Egas Moniz, levou o caos ao tráfego rodoviário que saía daquela unidade.

Tivemos conhecimento de que a Viatura Médica de Emergência Rápida (VMER) quando sai em urgência, terá que sair pelo portão de acesso à morgue do hospital, mas nos momentos em que o transporte de corpos está a ser realizado, a VMER terá que recuar para dentro das instalações.

A alteração de trânsito foi feita, mas sem qualquer consulta a especialistas da área de intervenção de tráfego.

A semana ficou ainda marcada com as declarações de um deputado do PSD no Parlamento quando disse que “Deixaram o Diabo à solta e agora o SNS está transformado num autêntico inferno”, pois o CHS parece ter sido possuído por um desses diabos e contra o qual não existe exorcismo para curar a doença daquela que é a mais importante unidade hospitalar do distrito de Setúbal.

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