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Empresários da restauração agradecem solidariedade dos clientes

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O confinamento parcial decretado pelo Governo nos fins-de-semana de 14 e 15, e de 21 e 22 de novembro, foi particularmente difícil para os proprietários de restaurantes, uma vez que uma grande parte da receita é realizada durante os dias de descanso, altura em que se aproveita para «dar uma voltinha».

O Diário do Distrito foi conversar com empresários de alguns restaurantes que costumam estar abertos durante o sábado e domingo, para saber como foi encerrar às 13h00, sendo que muitos optaram ou ponderam não abrir, perante a facturação obtida, mas todos fizeram questão de destacar a solidariedade e apoio que têm recebido por parte dos clientes.

‘Em termos de facturação foi péssimo’

Mário Valente abriu o restaurante com a mesma designação na Torre da Marinha, Seixal, no início deste ano, com a opção de pratos e petiscos. “Tudo está muito complicado. Durante a semana o negócio é sempre mais fraco, e é nos fins-de-semana que se factura um pouco mais, o suficiente para pagar aos empregados e fornecedores.”

Em relação ao encerramento forçado, refere que “como tenho alguns clientes que costumam vir cá ao sábado e ao domingo, não foi muito mau, mas em termos de facturação foi péssimo, porque apenas vieram esses clientes, antes das 13h00, e só fizemos o mínimo dos mínimos.”

A opção de take-away, que também disponibiliza, não foi muito utilizada pelos seus clientes “apenas fizemos um pedido”.

Mário Valente, restaurante ‘Mário Valente’

Para o próximo fim-de-semana de confinamento, Mário Valente prefere ver ‘o copo meio cheio’.

“Se for igual a este já não será muito mau. Se voltarem os mesmos clientes habituais, volto a conseguir fazer os mínimos. Mas está tudo a balões de soro.

Todos sabemos que estamos em crise, temos consciência da forma como as coisas estão, que não é culpa directa de ninguém, mas desta situação pandémica. Sou uma pessoa que tem a sua maneira própria de estar na vida, e não consigo entender tudo o que se está a passar, mas tenho noção de que nem quem está directamente ligado com isso, consegue também abarcar tudo.

Desde que se pare um mês e se salvem vidas, estou de acordo com os confinamentos, porque nunca lidámos com algo assim e cabe-nos a todos tentar fazer tudo para que a situação melhore, porque  temos de pensar em quem está a lutar pela própria vida, e que um dia podemos ser nós.”

‘Somos altamente penalizados’

Outros restaurantes optaram por encerrar durante o fim-de-semana, como foi o caso de vários proprietários na zona histórica do Seixal, como «O Bispo», explorado por Vítor Sarmento.

“O nosso balanço deste fim-de-semana é muito simples, estivemos encerrados. Os fins-de-semana são os nossos dias mais fortes, sobretudo o almoço de domingo, e fomos altamente penalizados com esta medida, mas optei por encerrar porque não era possível trabalhar apenas do meio-dia às 13h00.

Durante a semana trabalhámos aos almoços e na sexta-feira, dia em que abrimos para os jantares, os clientes tiveram de sair pelas 22h30, mas notámos uma diminuição em relação a outras sextas-feiras.”

Vítor Sarmento, restaurante ‘O Bispo’

O empresário define essa redução pelo facto de “algum receio que as pessoas ainda têm. Felizmente não correu mal a semana, e tenho de agradecer às pessoas que continuam a apoiar e a vir aos restaurantes. Também gostaríamos de poder contar com algum apoio da Câmara Municipal do Seixal, à semelhança do que autarquias como a de Lisboa está a fazer, vamos ver no futuro.”

Este encerramento forçado “irá reflectir-se nas nossas contas como não pode deixar de ser, sendo que esta semana temos também de pagar o IVA trimestral” e critica também as contas que o Governo anunciou para os apoios.

“Ou não perceberam o que estão a fazer ou pensam que o sector da restauração está distraído. A medida de apoio de 20% será feita com base nas receitas de 44 fins-de-semana deste ano. Ora eu estive fechado 9 fins-de-semana, o que diminui de imediato a média o valor facturado, e também os meses pós-confinamento foram muito atípicos. Se o Governo usasse como base a facturação do período homólogo do ano passado, ainda faria sentido, assim não está correcto porque se trata de um ‘vender gato por lebre’, e espero que ainda venham a rever estas medidas.”

Para Vítor Samento, a venda por take-away não é opção nesta altura. “Não temos esse historial, e para isso teríamos de implementar um sistema de distribuição próprio ou através das plataformas que fazem encarecer o preço do prato. Espero não ter de criar uma dinâmica para esse serviço porque tenho esperança que esta situação melhore.”

‘Manifestações foram um grito de desespero’

Também Dina Oliveira optou por encerrar o ‘100 Peneiras’, na mesma zona do Seixal. “O nosso horário de funcionamento é das 12h00 às 00h00, pelo que não fazia sentido a abertura para não obter receita, até porque não estamos associados a nenhum operador de entregas e o Estado não nos permite fazer entregas ao domicílio.”

A empresária esteve presente no protesto que decorreu em Lisboa, “e embora não tenha concordado com o tipo de linguagem utilizada, compreendo que foi um ‘grito de desespero’ de pessoas que estão a ver os seus negócios morrer, quando tentaram tudo para os salvar após o primeiro confinamento, com um enorme investimento para garantir as condições de segurança e agora somos obrigados a ter as portas fechadas.

Da minha parte utilizo produtos anti-corona vírus, dividi o espaço e faço uma impermeabilização do espaço uma vez por mês, embora não seja obrigatória.”

Dina Oliveira, restaurante ‘100 Peneiras’

Perante as dificuldades Dina Oliveira considera essencial que “seja dado um apoio para podermos trabalhar com entregas ao domicílio e que os horários sejam alargados” e aos profissionais do sector deixa o apelo para que “se reflicta de forma ponderada e sobretudo nas formas como poderemos actuar para não baixar os braços e continuar a ser muito resilientes”.

Relativamente ao horário imposto pelo Governo, não está de acordo “porque não é com isso que se vai evitar o contágio. Compreendo que faço parte da causa, como todos fazemos, e passa por todos cumprirmos as regras, mas não podemos cruzar os braços, somos nós que vamos perder os negócios, porque os membros do Governo mantêm os seus ordenados, com ou sem covid19. Nós é que temos de fazer tudo para continuar a sobreviver.

Em termos económicos, esta é uma situação muito grave em todo o país, e que tem repercussões, porque se os nossos clientes não conseguem vir aos restaurantes, como poderemos continuar abertos, manter empregos e pagar a fornecedores?”.

A incerteza é outro aspecto que causa algum receio à empresária, “porque conseguimos ultrapassar o outro confinamento mas não sabemos até quando é que esta bolha vai continuar ou estourar em cima das nossas cabeças. Espero conseguir ultrapassar tudo.”

Também Dina Oliveira deixa um sentido agradecimento “aos meus clientes, que têm estado comigo e pelo apoio que me têm dado, eles sim, e não o Governo, na confiança que depositam em nós, no nosso espaço e em tudo o que fazemos. Os ordenados e as nossas despesas são pagas, não pelos proprietários, mas pelos clientes e é a eles que devemos tudo.”

‘As pessoas precisam de um rumo’

Maria Carvalho anunciou nas redes sociais o serviço de take-away do seu restaurante ‘Rota dos Petiscos – Mar e terra’, na Amora, mas o balanço que faz deste fim-de-semana é que “foi muito complicado e não justificou a abertura. Mas fi-lo sobretudo pelo respeito que temos pelos nossos clientes, que estão habituados a vir a esta casa aos fins-de-semana, até só para tomar um café ou comer algo rápido. Mas em termos de custos foram elevados e a receita foi residual.”

A empresária aponta como causas para este insucesso “o cumprimento, e muito bem, do recolhimento obrigatório e o dever cívico de recolhimento. Por outro lado, na hora em que poderiam vir buscar a comida, estavam nas suas compras habituais nos supermercados, e viu-se que estavam todos cheios. As pessoas também se habituaram a levantar mais tarde, e quem toma o pequeno-almoço às 10h30, não vem buscar almoço às 12h30.

Como não tenho licença para entrega ao domicílio nem serviço de entregas, porque nesta altura não vou entrar em mais despesas com taxas, vou repensar sobre a abertura no próximo fim-de-semana com outra metodologia, e abrir só com cafetaria ou mesmo encerrar em próximos fins-de-semana de confinamento, porque não é economicamente viável.”

Maria Carvalho também não acredita que estas medidas levem à redução dos casos de contágio, “porque isso só aconteceria se houvesse a coragem para um novo confinamento total durante um mês. Andarem a deixar-nos numa constante esperança de que «será só agora, depois melhora», neste pára-arranca, cria um enorme desgaste em todos, deixa-nos psicologicamente esgotados e é dramático em termos económicos.

As pessoas precisam de um rumo, e este não passa pelo medo e o pânico, mas sim uma decisão e uma atitude concreta, e o Governo em vez de andar a apoiar TAP e NovoBanco, apoie directamente a economia, ajudando à subsistência de todos.”

‘Clientes demonstraram enorme solidariedade’

Numa perspectiva algo diferente esteve o restaurante ‘Adega 33’, no Seixal, cujo balanço foi positivo, segundo Andrea Santos. “Somos um restaurante recente, celebrámos um ano em Abril, e este fim-de-semana estivemos, pela primeira vez, em exclusivo a trabalhar para take away e «home delevery». Posso dizer que ficámos surpreendidos pela positiva, porque embora a nossa expectativa não fosse muito alta, a procura superou, e no caso do cozido de domingo, não chegou para as encomendas.

E valeu sobretudo pela solidariedade que os nossos clientes demonstraram, que compreendem as dificuldades que enfrentamos, mas também percebem quando algo não corre tão bem.

Este fim-de-semana tive clientes a dizer-me que nem tinham pensado em ir buscar comida, mas que queriam demonstrar desta forma a sua solidariedade para comigo e para com o sector. Isto é algo que nos dá muita força.”

Apesar dos aspectos positivos Andrea Santos confirma que “houve uma quebra brutal na receita, porque os nossos dias fortes são o fim-de-semana, e a pessoa nunca consome só a refeição” e deixa também críticas “à concorrência desleal que alguns hipermercados nos fizeram, com a entrega de comida em casa fora dos horários aos quais os restaurantes estiveram sujeitos.

Não faz sentido que não seja permitida a entrega ou recolha das refeições por parte dos clientes depois das 13h00, pelo que neste aspecto o Governo teria de repensar o alargamento do horário para esse tipo de serviço. Só os estabelecimentos que aderiram ao «home delivery» puderam continuar a trabalhar, mas isso traz mais despesas porque tem a aplicação de taxas e nem todos os clientes, alguns com mais idade, conseguem aceder a essas plataformas.”

Para Andrea Santos é fundamental pensar em mudanças “tendo em conta que a situação de covid19 não será resolvida nos próximos tempos, e por isso não faz sentido fechar só porque foi decretado o confinamento. Acredito que muitos empresários encerraram porque estão com esperança que estas medidas durem apenas mais uns tempos, mas não podemos cruzar os braços, é preciso reinventar-nos, oferecer novos serviços, mudar a forma de estar no negócio, readaptar alguns conceitos. No caso da Adega 33, vamos passar a abrir também à segunda-feira, e hoje a experiência já correu bem.

Podemos até encarar tudo isto como uma aventura de aprendizagem, porque tudo está a mudar e nada voltará a ser como era. Mas acredito que vamos conseguir ultrapassar.”

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