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Bairro do 2.º Torrão levanta discussão entre Inês de Medeiros e Joana Mortágua

O realojamento de cerca de sessenta agregados familiares no Bairro do 2.º Torrão, na Trafaria, foi um dos temas principais na reunião do executivo da Câmara Municipal de Almada desta tarde.

O assunto foi levantado pela vereadora do Bloco Esquerda, Joana Mortágua, que acusou a Câmara Municipal de ‘falta de humanidade’ no processo, apontando que os principais problemas no processo de realojamento “foram apresentados pela comunicação social, e pela Amnistia Internacional que indicou a falta de transparência no processo, e de famílias que foram informadas com ordem de saída, mas sem informação sobre para onde seriam realojadas”.

Joana Mortágua relembrou que “o dia 30 de Setembro foi dado como limite para a saída dos moradores, mas o que assistimos nesse dia não dignifica nem a Câmara nem os órgãos públicos na defesa dos direitos humanos universais”.

A crítica surgiu na sequência do adiamento da autarquia do início da demolição, “mas nesse dia os moradores não tinham ainda sido notificadas de que teriam mais uma semana, e que o município iria realojar algumas famílias em alojamentos turísticos”.

A vereadora referiu também que “muitos dos eleitos do município falaram com pessoas tinham toda a sua vida embalada, à espera da ordem de demolição, mas sem saberem nem para onde iam, nem quando. Pergunto se isto é uma forma humana de se lidar com um processo de realojamento, deixar as famílias a achar que a sua casa será demolida naquele próprio dia, e sem saberem para onde irão.”

A vereadora questionou também do porquê de não terem sido integradas no protocolo ‘Porta de Entrada’ pessoas que tinham sido notificadas para sair das suas casas, “e se deixou que ficassem até à última da hora sem solução”, dando como exemplo “pessoas que foram realojadas em hotéis pela Segurança Social até hoje, outras até domingo, sem saberem para onde vão depois disso. Como é que se vive a ser despejado de semana a semana?”.

Também a vereadora da CDU, Maria das Dores Meira, solicitou um relatório sobre o ponto de situação do realojamento das famílias.

‘Há pessoas que foram a correr para o 2.º Torrão para serem incluídas na resposta social’

O vereador na Câmara Municipal de Almada Nuno Matias, eleito pelo PSD, acusou esta tarde o facto de existirem “pessoas que foram a correr para o Bairro do 2.º Torrão, para serem incluídas na resposta social de realojamento”.

Durante a discussão dos eleitos na reunião camarária desta tarde, Nuno Matias relembrou a falta de dignidade “da existência de bairros como este há décadas”, e a necessidade de “dar respostas sociais a muitos dos moradores. No entanto, há algo que temos de ter presente: que a realidade não é toda igual, e no que falei com várias pessoas no local, deu para entender que algumas chegaram ao Bairro a correr para ver se eram incluídas no processo de realojamento.

Não é preciso estar lá 24 horas para ouvir alguém dizer que chegou agora ao Bairro, é uma realidade social, que temos de perceber que existe.”

O vereador solicitou ainda que “não se faça política com aquilo que pode estar em causa, que é a segurança das pessoas”, numa resposta à intervenção anterior da vereadora do BE.

Apesar da constatação, o vereador social-democrata não deixou de tecer críticas ao processo “que não foi isento de erros, e cujo processo de realojamento podia ter sido mais rápido, mas seja que autarquia ou governo for, não controlamos se conseguimos casas para todos.

E embora nem tudo esteja solucionado, temos de perceber também o contexto de emergência em que tudo isto decorre”.

Nuno Matias frisou também “a necessidade de uma resposta estrutural no resto do bairro, no Bairro das Terras da Costa e para isso é preciso ter uma estratégia, para evitar estas situações no futuro”.

‘Já tenho alguma dificuldade em perceber qual é o ideal de sociedade do BE’

A presidente Inês de Medeiros respondeu à vereadora bloquista que “o que dignifica a Câmara é o facto de a operação ainda estar a decorrer e todos já falarem no tempo passado, como se já tivesse começado no dia 30 e terminado”, destacando o facto de “esta ser uma operação dolorosa e que causa angústia às pessoas”.

A autarca deixou um “profundo agradecimento aos moradores do 2.º Torrão, pela forma como têm lidado com tudo, e têm vindo falar com a Câmara e com os serviços da Segurança Social, de forma compreensiva, até porque todos percebem que o que esta na base de tudo é uma questão de segurança”.

Outro agradecimento foi para “os incansáveis serviços da Câmara Municipal, que têm estado todos no terreno, e às forças de segurança que, com grande tacto e sensibilidade, têm evitado qualquer tipo de incidente de maior. Isso sim é que dignifica todos, a forma como a operação está a decorrer.”

Noutro registo, Inês de Medeiros foi incisiva contra “as pessoas que nada têm a ver com o Bairro e que se enfiaram em casas de pessoas que saíram e ficaram barricadas em casa de terceiros, e isso fica na consciência pessoal e política de cada um”.

E criticou também o facto de a vereadora bloquista “de encarar o seu mandato pela comunicação social, em vez de ser um elemento de informação à comunicação social, o que diz muito da sua forma de encarar Almada e o que valoriza mais. O seu único credo é a comunicação social, e em vez de desmentir algum engano, insiste na criação de mais angústia, mas realmente se não houver gente angustiada, onde é que a vereadora vai pregar o seu credo?”.

Acerca da possível providência cautelar que teria sido entregue por algumas famílias, segundo a vereadora do BE, Inês de Medeiros respondeu que “ouvimos um zunzum, mas não recebi ainda nada. Assim que formos notificados pelo Tribunal, iremos agir.”

Já em resposta aos prazos, Inês de Medeiros indicou que “as pessoas têm direitos inalienáveis, e isso é também aplicável aos processos de realojamento”.  

Continuando nas críticas, a presidente afirmou ainda que “eu já tenho alguma dificuldade em perceber qual é o ideal de sociedade do BE, sempre tive porque nunca percebi muito bem, mas sempre notei que esta questão de as pessoas terem direitos, mesmo quando são pobres, não é muito do agrado do BE, que prefere um paternalismo ‘estranho’.

As pessoas não receberam ordens de despejo da Câmara Municipal porque não é a senhoria. Aquele terreno nem sequer é da Câmara Municipal. Sim as pessoas tinham até dia 30 para sair, e a autarquia montou, a partir de dia 1 de Outubro, a operação faseada de demolição.

Imagino a sua frustração, quando no dia 30 as pessoas se apresentaram de forma calma e ordeira, em vez dos gritos e choros que alguns esperavam.”

A discussão continuou, quando Joana Mortágua afirmou que “a senhora presidente disse coisas que não correspondem à verdade”, ao que Inês de Medeiros acusou a vereadora de “manter uma rotina permanente de chamar ‘mentiroso’ aos outros, quando devia ser rigorosa”.


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