A direita ressurgirá

Esta semana, um artigo de opinião de Pedro Guerreiro Cavaco.

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Esta semana, um artigo de opinião de Pedro Guerreiro Cavaco.

Poupem-nos todos os que se esforçam, em vão, no sentido de fazer crer que a direita está em declínio. Não está. Mas seria autismo não perceber que o actual enquadramento político não lhe é favorável.

As pretéritas eleições europeias desenharam um quadro político rosa, com uma vitória expectável de António Costa (esqueçam Pedro Marques…) em toda a linha, mas não esmagadora como quiseram fazer transparecer. Antes pelo contrário.

Recuemos no tempo e lembremos António José Seguro que deixou a liderança do Partido Socialista em 2014, em consequência de um mau resultado eleitoral, em sede de eleições, também elas, europeias.

Em 2014 o mau resultado eleitoral difere deste grande resultado eleitoral em apenas 1,98%. Leu bem. António José Seguro, atingiu nas eleições de 25 de Maio de 2014 o resultado de 31,4%​. Já o PS de António Costa teve nestas eleições 33,38%.

A política é extraordinária. O que antes foi mau é agora bom. O que se estranha é a absoluta incoerência socialista que, ainda que dominando o país, teve francamente um resultado poucochinho e, ao invés de 2014, não foi pedida agora a cabeça do seu líder. O contexto difere, é verdade. Mas os números, esses, não enganam.

Se o resultado do PS não foi extraordinário, pior foi o do PSD. Na verdade, o PSD teve o pior resultado de sempre em eleições.

O PSD de Rio quis entrar pelo centro, desperdiçando o capital que tinha, na busca de um eleitorado que, assumamos, não é o seu. Esse eleitorado de centro que Rio quis para si vota PS e, atendendo às circunstâncias e vicissitudes – recordo, por mero exemplo, o tiro nos pés que foi a (não) aprovação do diploma aos professores, dando o dito pelo não dito e tendo Costa sobressaído e beneficiado desse episódio caricato como governante coerente e de boas contas –  ditou que o propósito de Rio corresse mal, porque o dito eleitorado não migrou nem migrará tão cedo (se migrar) o seu voto do PS para o PSD.

A descrença e o desconforto destes meses em que os sociais democratas viram uma apatia sem precedentes na oposição, fazendo Cristas assumir com arrogância e publicamente ser ela e o CDS a verdadeira oposição ao PS, não caiu bem nos militantes e simpatizantes do Partido Social Democrata. Não menos verdade, a guerra surda entre a direcção do partido e o grupo parlamentar não ajudou nada à situação. Saibamos, pois, perceber que razões geraram este inopinado resultado eleitoral. O cúmulo de situações resultou no desastre eleitoral.

Neste encostar ao centro, a estratégia do líder social democrata passaria por gerar consensos com António Costa. Mas também aqui fracassa Rui Rio, porque Costa já lhe tirou o tapete. Não só a Rio, como a Jerónimo e Catarina. Costa prefere o PAN e está convencido que André Silva terá companhia após as legislativas de Outubro. É bom lembrar que o PAN, inteligentemente, soube aproveitar a legislatura actual para estreitar laços à esquerda, por via das votações concordantes, que lhe convieram em absoluto. Recordo a este propósito o reforço dos direitos das pessoas LGBTI, a eutanásia ou a igualdade de género. Teremos em breve o final feliz desejado de um partido que, não sendo de esquerda nem direita, nem ecologista (desenganem-se os mais incautos, o PAN não é um partido ambientalista, nunca o foi, ainda que agora lhes dê imenso jeito, a poucos meses de Outubro, a par dos demais partidos, parecê-lo), não tendo uma doutrina, mas somente uma Declaração de Princípios, sobe sustentadamente no número de votos e, atrevo-me, nas intenções de voto para Outubro. Faço-lhes a justiça, numa semana em que foram muito visados, pelos 160.000 votos obtidos, de lhes reconhecer a juventude e entusiasmo, sendo nesse aspecto, um exemplo de ar renovado na política. E reconheço essa diferença, inclusive, a nível local.

O PCP foi o contaste do Bloco. Perdeu em toda a linha. E assim, ao contrário do que inicialmente vaticinei, num outro artigo, não considero hoje que o PCP tenha sido penalizado por ter participado na geringonça. Bem pode Jerónimo dizer que sim, que essa foi a causa, até porque esse discurso lhe é favorável e com ele procura atenuar a verdadeira causa, que quer esconder.

O real problema do PCP é outro, é geracional. É um problema de fundo. Repare-se que o PCP perde sucessivamente eleitorado e os antigos (antigos, reforço!) bastiões estão já perdidos. Nem a Vila Morena é mais comunista. Nem a Cuba alentejana. O PCP perdeu, em comparação das duas últimas eleições europeias, metade dos votos. Repito, metade dos votos. Votaram CDU nestas eleições apenas e somente 228.000 portugueses. O PAN, por exemplo, teve 160.000 votos. E o Bloco passou a terceira força.

No distrito de Setúbal, a CDU foi a segunda força, atrás do PS, com menos 17,67%(!!). Repare-se agora no Seixal, terra minha. Neste concelho o PS venceu com mais 18,93% que a CDU. E se olharmos individualmente todas as freguesias, a CDU saiu delas derrotado. Em Fernão Ferro ficou mesmo atrás do PSD que me merece, por via disso, o meu caloroso aplauso.

O bom resultado do Bloco deve-se muito a Marisa que, gostemos ou não, colhe simpatias. Se Marisa convence, já Nuno Melo não. Nem Melo nem Cristas cuja estratégia de ataque à esquerda e à direita lhe saiu mal. Mas, ainda assim, tivesse Assunção tido Mesquita Nunes (que deixou a vice-presidência do partido em Março para ser administrador não executivo na GALP), em vez de Melo e o resultado seria, seguramente, outro. Sem embargo, quero escrevê-lo, o mau resultado do CDS foi mesmo um banho de humildade para a líder centrista que, poucas horas depois, como todos ouvimos, alterou o discurso e, estou certo, a estratégia.

Relativamente à direita, com a qual me identifico, deixo umas linhas. Rui Rio redefiniu, ele próprio, o PSD como partido do centrão, voltando costas ao passado mais recente que concedeu ao partido bons resultados eleitorais e a governação do país. Mas o PSD, desculpai, não é de centro. No limite, centro-direita. Ora, ainda que haja necessidade de redefinir o PSD, tal não passará, seguramente, por redefini-lo consoante as lideranças. Terá de ser algo autónomo.

O actual PSD padece de autismo político. Rio já declarou que o resultado em Outubro pode ser pior, mas nem essa (real) consciência o afectou. A este propósito, uma sondagem recente do DN, JN e TSF deram a distância de 18 pontos face ao PS nas próximas legislativas. O PSD perdeu eleitorado nos centros urbanos e nas grandes áreas metropolitanas e Rio não retirou consequências. Posto que teremos Rio nas autárquicas, com prévias escolhas ao Parlamento, que imagino repleto de rioístas e depois, se os resultados continuarem maus, ou piores que maus, vaticino novas directas provocadas pela instabilidade. É isto que vai acontecer pese embora Rio pretenda manter-se até Março de 2020 e, consta, pretenda alterar os estatutos do partido em congresso pós-eleitoral. Veremos. E para tudo isto, assume ele próprio a expectativa de que o “novo grupo parlamentar” lhe irá conferir, e ao PSD, o peso que não teve até aqui desde que eleito.

Então, que solução para o futuro do PSD? Direi que o partido não poderá andar ao sabor das sucessivas lideranças, deambulando ora à direita, ora mais à esquerda, ora ao centro. Redefina-se ideologicamente o PSD que, até aqui, com sucesso, tem sabido agregar em si vários sectores, várias tendências. Todavia, parece-me apropriado, neste momento, assumir não fazer o que muitos escrevem (sabe-se lá com que intenção…), a refundação do partido, mas sim redefinir ideologicamente o mesmo.

Por outro lado, concedam-se lugar aos novos. Escrevi-o acima sobre o PAN. O PSD tem vários quadros com enorme capacidade e não pode ficar refém, com todo o respeito, de protagonistas que já protagonizaram, mas que não protagonizam mais.

Em termos mediatos, que solução? Pedro Santana Lopes sugeriu antes e após as europeias a “aliança das direitas” para as legislativas (PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Aliança). Atendendo aos resultados das europeias, a meu ver, esta aliança não seria benéfica para o PSD e CDS, mas somente para os outros dois partidos que assim, com probabilidade, elegeriam alguém.

Neste momento, seria trágico fazê-lo. O PSD deve seguir o seu rumo, assim o tenha. Não o tendo, permitam-lhe que o encontre. Não o permitindo imediata, permitirão mediatamente.

Ainda assim, afirmo, a direita não está em declínio. Veja-se, a este propósito, o surgir do Movimento 5.7, pelo deputado Miguel Morgado, e pelo relevo que assumiu.

A direita passe para uma fase má, mas está viva e ocupará o seu espaço, a seu tempo. Para tal, terão de ser criadas condições, erradicar o bafio existente, dar solução transitiva, jovem, pujante e ideológica a quem possa fazer mais, a quem possa dar um novo élan político, a quem possa galvanizar este espaço.

Não se celebre efusivamente à esquerda. É que o show-off é uma excelente estratégia, mas tem vida curta. O desinvestimento na saúde, nos transportes, na educação, na justiça, nos serviços de atendimento públicos básicos e, em complemento, uma carga fiscal medonha, em homenagem obsessiva ao défice, criou um inferno real e actual aos portugueses.

A esquerda é assim, está inventada. Não fazem nunca o bolo crescer. O bolo fica como está e é dividido. É isso, entre outros, o que nos diferencia.

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