Opinião

Do enviesamento democrático

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Numa altura em que o panorama político nacional é já dominado pelas eleições autárquicas, as tais que elegem os órgãos democráticos mais próximos dos cidadãos, existem situações que determinam uma grave desigualdade de tratamento e uma distração para o próximo acto eleitoral que se avizinha.

Com efeito, nos últimos tempos, multiplicam-se nos meios de comunicação entrevistas de balanço de mandato, que na maioria dos casos são feitas a edis que se recandidatam. Tal consubstancia uma acção de pré-campanha eleitoral, e propaganda gratuita, para essas pessoas e para as candidaturas que encabeçam.

Para quem se candidata em listas opositoras, o terreno ficará ainda mais inclinado, pois é bem verdade o chavão que muitas vezes se usa nas eleições locais quando o poder muda de mãos: não é a oposição que ganha; é quem governa que perde.

Ou seja, as listas dos partidos ou grupos de cidadãos que pretendam conquistar as autarquias a que se candidatam, não bastando ter de enfrentar uma máquina bem oleada e muitas vezes autênticos caciques, em que a nível municipal (ou de freguesia) e institucional tudo é controlado, ainda têm de se ver a braços com estas entrevistas, promovidas pelos órgãos de comunicação social (locais ou nacionais) e que resultam em autênticas operações de charme e de auto-promoção. Deve a imprensa ponderar muito bem o caminho que vai trilhando e a possível influência que pode ter no desfecho eleitoral.

Mas não é só nessas entrevistas que identifico alguma influência directa ou indirecta nas eleições autárquicas. No início da semana (dia 19 de Julho de 2021) saiu uma sondagem solicitada por um grupo de meios de comunicação.

Relativa a que município? Perguntará o leitor. Pois aqui é que está a questão. A sondagem é relativa às próximas legislativas! As autárquicas estão marcada para dia 26 de Setembro e um grupo de comunicação social entende ser de vital importância para os eleitores discutir a constituição do próximo parlamento. Ao que parece a imprensa não se capacita que fazer este tipo de sondagens neste momento é desajustado. Assim caberá ao poder político legislar sobre a oportunidade de divulgação destes resultados.

Deste panorama percebe-se duas coisas. Primeiro que não é dada a devida atenção ao poder local e aos autarcas, centrando a questão nos grandes municípios e nos presidentes de câmara, relegando para segundo plano todas as outras candidaturas.

Depois, numas eleições em que muitas vezes são mais importantes as pessoas (candidatas e candidatos) do que os partidos, estas sondagens podem enviesar o resultado eleitoral em diversas geografias, principalmente junto dos eleitores mais desligados da actualidade político-partidária.

À imprensa cabe comunicar os factos de forma imparcial e manter o comum cidadão informado sobre o que se vai passando no mundo ou na sua localidade. Mas não deve caber o papel de criar conteúdos ou desviar a atenção para o que agora deve ser essencial. A próxima batalha política são as autárquicas.

De norte a sul do país milhares de cidadãos se envolverão nesse esforço. É um profundo desrespeito por estes e um rude golpe numa democracia que já devia ter atingido a sua maturidade, mas que assiste, ano após ano, a uma reinvenção dos mesmos erros, seja nos agentes políticos seja nos meios de comunicação social.

 

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