2020 – o ano em que suspendemos a vida!

Isabel de Almeida inicia hoje a sua rubrica semanal aqui no Diário do Distrito. Esta primeira crónica aborda o estado atual em que todos nós vivemos.

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Há pouco tempo atrás o mundo celebrava entusiasticamente a chegada de mais um ano novo, no calendário Ocidental. Festas, champanhe, música, faustosos fogos-de-artifício, excessos alcoólicos em alguns casos, excessos de euforia em quase todo o planeta, porque é inata ao ser humano a ilusão, tantas vezes inconsciente, de que o novo ano é que vai ser! Trará prosperidade, sorte. Iludimo-nos a pensar que vamos aproveitar a corrente da mudança, e que vamos realizar todos os sonhos que vamos adiando a cada etapa da vida.

De há uns anos para cá assumo, pessoalmente, uma postura céptica e até pessimista quanto ao novo ano, considero a mudança de ano uma convenção social, rodeada de marketing de falsas promessas e sonhos ilusórios que potenciam o turismo internacional e local, e todas as áreas comerciais que são chamadas a acudir a esta necessidade supérflua e fútil de celebrar o desconhecido e imprevisível futuro.

Mas mesmo eu, no mais recôndito âmago do meu pessimismo, nunca iria atrever-me a pensar que 2020 transportaria Portugal, e todo o mundo em geral, para dentro de uma imensa, cruel e perigosa distopia. De repente, o mundo subverteu-se por completo, um ente invisível, insidioso e ainda assim com perfil de serial killer chegou para nos mudar por completo a existência, e nunca mais nada será igual após o Corona Vírus.

O vírus assassino ceifa vidas a um ritmo nunca visto em especial em Itália e na vizinha Espanha, aqui paredes meias com Portugal, que receia a todo o momento o total desmoronar do SNS, nitidamente não estávamos preparados para algo assim, nem as autoridades, nem os governantes, nem os cidadãos individualmente considerados, mas a grande questão é: seria mesmo possível alguém estar preparado?

O medo, a ansiedade, a angústia e a imensa frustração pela impotência que sentimos ao combater um inimigo que desconhecemos na sua plenitude são inegáveis e transversais a todos os credos, etnias e estratos sociais, com excepção de uns senhores políticos que vivem fora da realidade e que não sentiram ainda na pele um choque que os fizesse acordar para a vida: como Bolsonaro (Brasil) ou Trump (EUA) crítica extensível a um bando de irresponsáveis que foram para as praias da linha de Cascais, ou para as marginais do Norte, ou que invadiram a Ponte 25 de Abril num Portugal em pleno Estado de Emergência.

Deixámos todos de viver numa tentativa de sobreviver, mesmo os inconscientes e irresponsáveis estão a reagir psicologicamente à mudança (embora estejam a socorrer-se de um mecanismo de defesa patológico que se designa negação, em termos simples, recusam-se a aceitar a realidade, e acreditam que se mantiverem a sua conduta habitual conseguem manter a normalidade) assumindo comportamentos de risco, para si e para toda a comunidade, o que em última análise pode mesmo ser considerado criminoso.

Num ápice o mundo como o conhecíamos mudou e tudo o que nos mantém saudáveis emocionalmente foi-nos arrancado. O nosso inimigo Corona, além de tirar a vida a muitos, de forma literal, já conseguiu mudar a vida a todos nós. Priva-nos dos afectos, de socializar, de conviver com a natureza, de nos entretermos, de estar com todos aqueles de quem gostamos, priva-nos até, futuramente, de meios condignos de subsistência, pois a crise de saúde pública dá já lugar a uma crise económica à escala global provavelmente nunca antes vista, com contornos especialmente gravosos na era da globalização.

E quando voltarmos à “normalidade”? (se voltarmos) como vamos estar em termos de saúde mental? Desengane-se quem pensa que passará incólume por uma catástrofe desta dimensão (até as crianças, que aparentemente podem não ter ampla noção da gravidade do que vivemos percepcionam a tensão e a toxicidade do ambiente que as rodeia e sentem a frustração de não poderem sequer dar um simples passeio na sua bicicleta e de não estarem nas escolas com os amigos). Neste momento para nós o que é normal e politica, legal e socialmente correcto é não sermos sociais, o isolamento social tornou-se um jargão diário. Muitos idosos não entendem que o mundo mudou para pior, e como não estão familiarizados com as novas tecnologias questionam-se num mar de dúvidas e angústia sobre o que se passa, e sim, outros optam por fingir, em negação, que nada se passa de novo.

Em várias áreas de trabalho vivemos todas as horas do dia ligados ao mundo com a intermediação de um ecrã de computador. Teletrabalho, videochamada e videoconferência nunca foram termos tão familiares.

O que nos aterroriza? O medo de sermos apanhados pelo “bicho”, o medo de perder para o “bicho” as pessoas que amamos, a incerteza do futuro, nada assusta mais do que um até quando? Nestes tempos difíceis, estranhos e que nos lembram um filme catástrofe de Hollywood em que, estranhamente, todos somos actores forçados.

Estamos presos, mais presos do que nunca, oxalá num esforço conjunto possamos mesmo vencer este inimigo que nos suspendeu a vida e nos subverteu o mundo.

Odeio-te Corona Vírus|

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