Opinião

Viver Online! Que custos e que benefícios?

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Há já um ano que muitos profissionais de vários sectores (essencialmente alguns serviços e também na área da educação) passam online a maior parte do seu período de trabalho e a verdade é que muitas empresas ponderam já aderir continuamente ao teletrabalho, mesmo futuramente, pese embora a esperança de abrandamento da pandemia (que sinceramente não me parece estar à vista). Este novo fenómeno traz repercussões de vária ordem na vida dos trabalhadores e , apresentando vantagens e desvantagens, certo é que pode ser complicado gerir este formato de exercício das funções laborais porquanto de algum modo este acaba por invadir aquele que é o espaço por excelência da nossa vida familiar.

São inegáveis as vantagens do teletrabalho, apenas exemplificando algumas delas: permite poupar tempo e custos nas deslocações entre casa e trabalho; é muito mais seguro em tempo de pandemia pois reduz drasticamente o risco de exposição ao vírus, na medida em que potencia o confinamento; permite uma alimentação mais saudável e racional pois é preparada e confeccionada em casa, reduzindo também custos com refeições que fossem tomadas fora; torna possível uma melhor gestão de tempo desde que haja disciplina rigorosa e que sejam cumpridas à risca as rotinas diárias como se houvesse deslocação para o espaço físico de trabalho.

Todavia, existem desvantagens a considerar: há um risco gravoso de ingerência do trabalho na rotina familiar, nem sempre tarefa fácil conseguir que os demais membros de um agregado familiar entendam que é necessário que quem esteja em teletrabalho cumpra sem restrições o horário de trabalho pré-fixado e que já existia antes da pandemia, e podem suceder situações que, podendo ser caricatas em muitos casos, serão prejudiciais ao desempenho e à avaliação da prestação de trabalho (por exemplo, durante reuniões em videoconferência ocorrerem interrupções pela entrada de familiares no ângulo da câmara de vídeo, sons da vida quotidiana familiar, alguma música que não seja bem-vinda durante uma reunião só porque o filho adolescente no quarto ao lado da sala liga a aparelhagem sem dar conta do embaraço que o pai ou a mãe possam ter de enfrentar; crianças que entram no espaço de teletrabalho e que reclamam atenção durante o horário de trabalho. E quanto aos mais pequenos admite-se que não será nada fácil acompanhar aulas à distância enquanto os pais estão em teletrabalho, uma boa caricatura será a que represente graficamente toda a família sentada em frente ao ecrã de um computador (e não será nada inusitado nos tempos que correm).

Mas pensemos agora nas consequências que esta nova tendência possa vir a acarretar, em especial no que diz respeito ao desenvolvimento das crianças e jovens e também no que diz respeito ao equilíbrio psicológico e bem-estar de toda a família.

Aqui falarei por experiência própria,  trabalhar essencialmente online leva a que as rotinas se sucedam no que parece ser um ciclo ininterrupto de tempo e frequentemente damos por nós a perder a noção da sucessão dos dias no calendário semanal. Tornamo-nos avessos a contactos presenciais, podendo mesmo ocorrer uma resistência inconsciente à socialização mesmo que esta seja imprescindível e minimamente segura, sendo tomadas todas as cautelas. Damos por nós a já nem conseguir recordar facilmente como era tudo antes da pandemia, antes de estarmos presos e em suspenso na nossa existência comum e quotidiana. Receio bem que não escaparemos ilesos a uma certa tendência para uma postura anti-social e já se começa a notar uma desumanização crescente devido também a esta necessidade e nova tendência que se vai generalizando.

É especialmente preocupante pensar nos mais novos e nos condicionamentos que esta vivência online pode vir a representar em termos de processo de desenvolvimento destes enquanto indivíduos. Estamos forçados a prescindir o mais possível do  contacto físico, dos afectos, do contacto com a natureza e da dinâmica de interacções espontâneas com os outros seres humanos.

Só o futuro dirá qual a extensão dos danos colaterais que tudo isto trará na nossa saúde mental e creio mesmo que as crianças que agora nascem em plena pandemia podem vir a ficar dotadas de novos esquemas mentais adaptativos a este novo contexto que em tudo serão diferentes da actual geração, desde logo no modo como se relacionarão com os seus pares. Se fecharmos os olhos e pensarmos nesta temática chega a ser assustador pensar que estamos como que a transformarmo-nos numa espécie de autómatos pré-programados com horários e normas estritas e parametrizadas de conduta, assim perdemos o sentido crítico, a humanidade, a essência do que é um ser humano como sempre o concebemos enquanto ser social por natureza.

Algum génio maligno pegou em nós e colocou-nos num cenário de uma qualquer distopia futurista, mas o que assusta é que isto é mesmo a nossa realidade.

Uma questão: já deu por si a respirar ar puro na janela ou na varanda, ou mesmo no seu jardim ou quintal e a retemperar energias? Se não o fez é sinal de alarme, corrija o erro de se isolar o mais rapidamente que lhe seja possível, não podemos aceitar apenas viver online. Cuide de si e dos seus pela vossa saúde mental.

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