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«Viriato está no nosso ADN»

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Nação porque reincarnaste,
Povo porque resuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.

In Mensagem

Luís Albuquerque é o realizador da mais recente longa-metragem de produção portuguesa, que recua cerca de 2 mil anos para contar a história do lusitano que esteve na origem do que somos hoje em Portugal, e com quem o Diário do Distrito esteve à conversa para conhecer o processo de filmagem, os entraves e até os momentos caricatos.

O que o levou a realizar este filme?

Depois de ter realizado dois dramas, duas comédias, um musical, cinco longas-metragens, achei que estava na hora de colocar a fasquia um pouco mais elevada e realizar um filme de época.

Viriato sempre foi o meu herói de infância e como há 2140 anos que não se fazia nada sobre ele, achei que era altura, aplicando os conhecimentos que fui adquirindo na realização, e que deram o impulso para aceitar este desafio e fazer algo que faltava em Portugal, que é falar sobre este herói com quem nasce a Lusitânia. Viriato está no nosso ADN, e foi com essa raça que nascemos e toda essa história merecia ser contada.

FOTO: DR

A frase que consta do cartaz do filme é elucidativa do que é a nossa essência: «Aquilo que os deuses ditarem para o nosso povo hoje, é a raça com que fundaremos o amanhã».

Como português, custa-me que a figura de Viriato tenha sido retirada do programa escolar, porque ainda sou do tempo que ele surgia nos manuais de História. E depois só ouvimos falar em Lusitanos quando joga a selecção nacional.

Apesar de ser uma obra de ficção, é baseada sobre o que sabemos da vida de Viriato, mantendo algumas das frases que lhe são imputadas e aos romanos, como ‘Não pagamos a traidores’ ou que ‘os lusitanos não se governam nem se deixam governar’.

Como foi realizar este filme, deu-lhe prazer ou preocupações?

Não foi fácil, mas foi um prazer agridoce. Por um lado, doce porque conheci actores e elementos da equipa técnica, como o Yuri Ribeiro, que contribuiu imenso para a realização e credibilidade do filme.

E não há nada tão desafiante como, depois de idealizarmos um filme de época como este, conseguirmos levar todo o projecto até ao fim.

Tivemos algo muito importante e que serviu de catarse para todo o projecto, que foi um contrato com a Lusomundo /NOS Audiovisuais quando tínhamos apenas 30% do filme feito, que nos deu o garante e a confirmação de que estávamos no bom caminho.

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O lado ‘amargo’ é porque ainda não consigo compreender como é que as entidades que apoiam este tipo de arte, não o fizeram neste caso, e estou a falar do ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual. Teria sido mais fácil, poderíamos ter contado com uma equipa maior e com outros decors, que embora não alterassem a essência do filme porque respeitámos sempre o argumento, poderia melhorar alguns aspectos.

Em relação aos actores, digo frontalmente que o Alexandre Oliveira é o melhor actor do momento do cinema português. O carisma que ele impôs nas cenas do filme, e a sua entrega enquanto personagem principal, é ímpar.

Que motivos levaram à recusa de apoio por parte do ICA?

Essa é a pergunta que se impõe.

Há aquela frase de que o ICA apoia sempre os mesmos e os virtuosos que cá estão há muito tempo, e isso é uma realidade. E depois os outsiders como eu, os mais pequenos, enfrentamos sempre estas dificuldades.

Na minha opinião pessoal é que, e isto está instituído em Portugal, dá-se dinheiro, mas o dinheiro não existe para se dar. Este deve ser entregue, mas exigindo algo em troca.

FOTO: DR

Pode atribuir-se 600 mil euros a um realizador, mas exigir que o filme cative 50 mil espectadores e se tal não acontecer, significa que o apoio não foi bem empregue e deve exigir-se a devolução de parte desse dinheiro.

Mas o que temos é um facilitismo, em que se dá muito dinheiro mas não se exigem contrapartidas, e isso incorre num problema de falta de qualidade.

E é o próprio ICA que o afirma com dados, porque entre o primeiro semestre de 2018 e o semestre homólogo de 2017, tivemos menos 1 milhão e 600 mil pessoas nas salas a ver cinema português, o que devia levar o ICA a reflectir se a forma como são distribuídos os apoios está correcta.

No entanto, o cinema português está a ter um ressurgimento, e exemplo disso é o filme «Variações», que já ultrapassou os 250 mil espectadores, e «A Herdade», e nessa sucessão de filmes, quero muito acreditar que estará também «Viriato».

Mas «Viriato» teve o interesse da maior distribuidora nacional ainda durante as filmagens, o que significa que o seu filme tem interesse para as salas de cinema.

Fomos contactados pela distribuidora porque fomos ‘vender’ o filme numa plataforma que se designa «Encontros do Cinema Português», promovidos pelo ICA e pela Lusomundo. E depois isso é paradoxal, porque por um lado temos o ICA a dizer que este filme não interessa, e por outro temos a grande cadeia de cinemas a mostrar interesse, a ver o potencial e a considerar que este é o tipo de filme que falta em Portugal, um épico sobre um lusitano.

Mais tarde concorremos ao ICA para um apoio no valor de 75 mil euros para a finalização, e também não o conseguimos.

Mas quanto mais situações negativas vou encontrando, mais sinto que estou no bom caminho, embora continue a não perceber o posicionamento do ICA neste caso, porque tudo indica de que «Viriato» é um bom filme e daí o interesse da Lusomundo, que vai levar à sua exibição em vários cinemas comerciais, da Lusomundo, Cinemas City, CinePlace e El Corte Inglês em todas as cidades do país.

A falta de apoios foi o único entrave ao filme?

Não, aconteceram outras coisas menos positivas. Não se compreende, por exemplo, como é que a Câmara Municipal de Viseu, considerada a cidade de Viriato, e com quem tivemos reuniões com o vereador da Cultura, Jorge Sobrado, se tenha comprometido com um apoio de 37.500 mil euros, numa primeira fase, e depois baixaram para 20 mil euros, e até hoje, um ano passado, não tivemos mais nenhuma resposta da autarquia.

Como é que um vereador da cultura não tem a sensibilidade de vislumbrar que esta é uma boa oportunidade para colocar Viseu no mapa cinematográfico e promover o herói que eles têm estado a vender. Preferem fazer eventos de tasquinhas para os munícipes ficarem todos contentes e dizerem que fazem algo.

Contactámos outras autarquias como Gouveia, de quem ainda aguardo uma resposta.

Mas houve outras autarquias, como a de Seia e de S. Pedro do Sul que prontamente se prestaram a apoiar o filme.

A questão agora é dirigida a Yuri Ribeiro, natural da Moita e que interpreta a personagem de Germânico. Quais são as expectativas em relação ao filme?

Esperamos que as pessoas vão ao cinema ver não apenas o filme, mas também se possam através dele, encontrar-se com a cultura e com a História, algo para o que Portugal está de costas voltadas, porque existe uma não-cultura nesse campo.

E isso também está reflectido no cinema português, que é rico mas que praticamente não tem nada feito em termos da História nacional, excepto o filme de Manoel de Oliveira, «Non, ou a Vã Gloria de Mandar», e no qual ocorre apenas um pequeno trecho dessa História.

Fazem-se filmes de temas contemporâneos e reais, mas concretamente sobre assuntos da história de Portugal, não foi feito nada. Neste momento nós somos a ponta da espada, ou os pioneiros dos filmes épicos, embora não tenha sido isento de ‘sangue, suor e lágrimas’, apesar de ser algo em que acreditámos e continuamos a acreditar.

No entanto, não depende de nós a adesão do público aos cinemas, mas depende de nós mostrar a qualidade deste trabalho.

Uma coisa que me toca pela negativa são os chamados ‘guerreiros do teclado’, e os rigores históricos que procuram, sendo que já nos acusaram de algumas supostas falhas. Há muitos ‘treinadores de bancada’, prontos para criticarem, mas que não se chegam à frente para fazer nada.

Por isso reafirmo que esta é uma obra de ficção, baseada numa figura histórica que se tornou um herói. Se existirem documentos além daqueles que analisámos para criar o argumento, que no-los apresentem.

O filme foi feito com uma base histórica, mas é uma história de ficção, com amor e guerra, com base numa figura que se insurgiu contra o domínio do Império Romano.

Se estivéssemos preocupados com o rigor histórico, o filme não iria para os canais comerciais, mas sim para o Canal História como documentário.

 Também ficou preocupado com a falta de apoios institucionais?

Não consigo compreender como é que há autarquias que apoiam as ‘feiras medievais’, que mais não são do que mercados municipais, com 20 ou 30 mil euros, e depois se recusam apoiar produções cinematográficas em que se fala da verdadeira História.

Felizmente ainda temos algumas autarquias e entidades que se preocupam com a cultura, mas tenho para mim que não existe falta de dinheiro, está é mal distribuído.

Tiveram algum momento caricato que queira partilhar?

A mais caricata terá sido a cena de luta entre Germânico e Viriato, com mais de 50 mil mosquitos completamente a encher-nos de picadas… foi gravada perto do mar, na Figueira da Foz, num pinhal em que todos os mosquitos dali e arredores foram convidados.

A cena do discurso de Viriato às tropas marcou-nos a todos, porque o Alexandre encarnou perfeitamente a alma lusitana e eu depois de o ouvir estava disposto a segui-lo até ao fim do mundo.

Imaginem o que é um campo em que não se ouve vivalma, em que a 50 metros está uma linha de romanos, e ele a incentivar para ‘malharmos à boa maneira lusitana’.

 Qual foi o ‘seu momento’ Luís Albuquerque?

Tivemos muitos momentos caricatos. Por exemplo gravar em condições horríveis, porque grande parte do filme foi gravado durante o Inverno de 2018, e gravar com lama pelos joelhos não é fácil.

Iniciámos as filmagens em Fevereiro com um temporal horrível, e estas começavam às 8h00, e o Alexandre Oliveira quando chegava, a primeira coisa que fazia era despir-se e rebolar na lama para estar pronto para a gravação.

Também quando o conheci perguntei-lhe se ele pensava cortar as barbas, ao que me respondeu que ‘estas barbas nunca sairão daqui’, e convidei-o depois para o papel.

Houve uma situação numa cena de batalha em que um cavalo caiu por uma ribanceira, felizmente não se magoou nem o cavaleiro, mas foi um susto.

 E um momento que o marcasse?

Há uma altura em que Viriato reúne as tropas e faz um discurso aos lusitanos que foi especial. Tínhamos no set de filmagens a equipa de râguebi do Académica de Coimbra e quando o Alexandre Oliveira acabou de proferir o discurso, a primeira coisa que a equipa disse foi ‘onde é que estão os romanos, que a malta dá já cabo deles!!’.

Quanto tempo demorou a rodagem e que locais foram escolhidos?

O processo durou dois anos e meio. Estivemos dois anos à espera de respostas e levámos seis meses a fazer o filme. Este é o pais que temos.

Naturalmente que durante os dois anos, fomos contactando pessoas, vendo os locais, tentando adiantar o processo para realizarmos depois as gravações para um filme com a duração de 94 minutos.

Um dos locais de gravação foi em Seia, ao lado dos montes Hermínios, onde Viriato combateu.

Depois deste, pensa realizar algum outro filme épico?

Estou a aguardar para ver qual será a receptividade dos espectadores a este filme.

Quero receber as críticas, às quais estou perfeitamente aberto, e a partir daí vou avaliar. No entanto, gostava que as críticas fossem direccionadas para o filme em si, e não se as espadas eram mais curvas ou se a roupa era mais castanha ou mais verde.

Que expectativas tem para o filme?

Como realizador, com tantos filmes realizados, acredito que tenho aqui um bom filme e se assim não fosse, não creio que a distribuidora tivesse apostado em nós.

Uma pessoa que vai a uma sala de cinema, que se prontifica a comprar um bilhete, está a comprar uma emoção. Se for uma comédia quer rir, um drama quer chorar, ou um musical quer dançar. E é essa essência que eu quero que os espectadores vejam em «Viriato».

Desejo que o filme seja um sucesso e que tenha o reconhecimento devido, pela extraordinária equipa técnica e pelos actores e figurantes que ali entraram e que estes tenham a sorte de conseguir novos papéis. Gostaria também que o cinema português se faça ouvir como já aconteceu no passado, e que este filme seja o ‘primeiro das nossas vidas’.

E o Yuri Ribeiro?

Quero que as pessoas olhem para este filme e para o passado e reflictam naquilo que poucos fizeram para muitos.

Termino com as palavras à maneira romana: Cheguei, Vi e Venci.

«Viriato»

O filme «Viriato» estreou a 10 de outubro, em Coimbra, e foi rodado nas regiões de Seia, Viseu, São Pedro do Sul e Paços de Ferreira. Conta com cerca de 250 actores (entre figurantes e elenco) e teve um orçamento de menos de 400 mil euros.

Com argumento de Ana Carolina Pascoal, fotografia de João Traveira e de Luís Pereira, banda sonora original de Luís Sousa, o elenco é composto por Alexandre Oliveira, Margarida Sousa, Mário Bertô, João Damasceno, Mário da Costa, Jaime Monsanto, Miguel Babo, Vânia Fernandes, Yuri Ribeiro, João Oliveira, Pedro Rodrigues, Paula Queirós, Ana Bárbara Queirós, Tiago Santos, António Albuquerque e João Paiva.

Sem apoio financeiro do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), contou com o apoio da Viv´Arte (Laboratório Nacional de Recriação Histórica), da Federación de Tropas y Legiones de Cartagena, da Timelapse-Media, da Câmara Municipal de Seia e da Câmara de S. Pedro do Sul.

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