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«Temos de estar sempre de portas abertas»

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Fernando Caria, presidente da Junta de Freguesia da União de Freguesias do Montijo e Afonsoeiro, conversou com o Diário do Distrito acerca do seu segundo mandato que se aproxima do final, dos problemas e das soluções em plena pandemia de covid19 e ainda do que espera do futuro.

Qual é o principal papel de uma Junta de Freguesia?

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Em primeiro lugar a proximidade com as pessoas, que a cada dia se torna mais importante e mais interessante. Mesmo quando os fregueses sabem que determinados problemas ou assuntos são tratados pela Câmara Municipal, procuram primeiro ajuda através da Junta, pedindo acompanhamento e somos nós quem transporta isso para quem de direito.

O papel principal de uma Junta de Freguesia é olhar as pessoas, estar perto e ouvir os problemas que nos apresentam.

Qualquer que seja o problema desse freguês, é sempre o maior problema do mundo para ele, seja um buraco ao pé da porta ou a limpeza ou falta de um jardim.

Temos de estar de portas abertas e nestes dois mandatos que já fiz, uma das condições que propusemos foi que não seriam marcadas reuniões ou teríamos dias específicos para o atendimento, e qualquer pessoa seria recebida desde que o presidente ou outro vogal da Junta estivesse aqui.

As Juntas deixaram de ser aquela entidade que apenas passava licenças?

Sem dúvida. As Juntas têm agora um papel totalmente diferente, e o trabalho que realizámos aqui demonstrou isso, desde do tempo do anterior presidente, há dois mandatos atrás.

Antes de ser autarca, fui tesoureiro nesta Junta, e na altura sentíamos que a Junta servia apenas para passar os atestados de residência e licenças, mas hoje em dia todo esse serviço ficou para segundo plano e tem desenvolvido um trabalho muito mais abrangente e actual.

Qualquer problema que possa acontecer estamos cá para resolver e, infelizmente, tivemos ocasião de o demonstrar devido à pandemia.

Dou como exemplo também o processo de vacinação anti-gripe, em que constatámos as filas que se formavam nos centros de saúde, e a Junta, em parceria com o Centro de Saúde do Montijo e Afonsoeiro, contratámos enfermeiras a nosso cargo, solicitámos a informação sobre as marcações nos Centros de Saúde e nas nossas instalações adequámos uma sala, reunimos o  material e todas as condições para tudo corresse bem, e durante dois meses vacinámos cerca de mil pessoas.

No final destes sete anos como autarca, que balanço pode fazer?

Faço um balanço muito positivo, face às dificuldades que uma Junta de Freguesia que como esta tem. Temos conseguido um grupo de trabalho que levou a bom porto este barco, embora com muita dificuldade e poucos recursos, mas cumprindo o que nos comprometemos a fazer.

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Rodeei-me de pessoas, quer no executivo quer com elementos da Assembleia de Freguesia que também têm incorporado os grupos de trabalho que temos constituído aqui, e temos feito um trabalho que considero extremamente gratificante e que tem sido reconhecido pelos nossos fregueses, até através da sua votação nas eleições autárquicas, com os resultados obtidos do primeiro para o segundo mandato.

Destacaria alguma obra realizada pela Junta durante este período?

Enquanto sede de concelho, é difícil apontarmos alguma obra relevante, tendo em conta que essas são realizadas pela Câmara Municipal, e também como temos um orçamento escasso, não podemos assumir determinadas obras.

No entanto, durante estes sete anos, e num relacionamento muito próximo com a autarquia, vamos transmitindo ao presidente e aos vereadores aquilo que verificamos e também o que os fregueses nos vão fazendo chegar, e vamos tendo também informação por parte do presidente sobre as obras que vão ter lugar.

Como exemplo, temos uma obra recente, de requalificação de um bairro e que era uma pretensão dos moradores, que a fizeram chegar até nós e que transmitimos à Câmara.

A nossa ‘menina dos olhos’ é a centenária escola do Afonsoeiro que vai ser agora reabilitada e finalmente iremos proporcionar as condições que há muito desejávamos, e criar novas valências, e cuja obra espero fique concluída ainda em 2021.

«Queremos sempre muito mais»

O que considera ainda faltar à freguesia de Montijo e Afonsoeiro?

Qualquer autarca diz sempre que falta fazer muito, porque queremos sempre muito mais. Acho que o trabalho que tem sido feito no Montijo tem sido muito positivo, infelizmente a pandemia veio ‘estragar’ muitos dos planos que tínhamos para que a freguesia pudesse crescer um pouco mais.

De qualquer das formas temos de olhar para duas vertentes: a parte económica, com a criação de emprego, que será fortalecida com um tecido empresarial forte.

Nesse sentido, quer a Junta quer a Câmara têm feito esforços suficientes para que isso continue a acontecer e tenhamos cada vez mais pessoas que procuram o concelho, quer a nível particular quer empresarial.

Um dos exemplos é a inauguração que está para breve para um novo hotel e há muitos projectos entregues na Câmara Municipal para se iniciarem.

Acredito que se não fosse a pandemia que se iniciou em 2020, nesta altura teríamos um Montijo diferente.

No entanto, há queixas devido ao aumento do preço das rendas e das casas, que pode dificultar essa procura. Também lhe chegam esse feedback?

Sabemos que há algumas queixas, mas também conversamos com muitas pessoas que vieram para cá de novo, e o que nos dizem é que houve três motivos para escolherem o Montijo: estão pertíssimo de Lisboa, sentem uma segurança incrível e depois o preço das habitações é mais baixo do que em Lisboa.

Claro que temos construtores que estão a vender casas com preços que considero exorbitantes, tenho conhecimento de apartamentos a ser vendidos por 600 mil euros, pese embora a área e qualidade bem como a localização.

Embora o acesso a Lisboa seja rápido, com a Ponte Vasco da Gama, há problemas de acessibilidades, sobretudo em horas de ponta.

Desde que estou como autarca e que a ponte foi construída há vinte anos, uma das nossa reivindicações junto de quem dirige a infraestrutura, foi solicitar um novo acesso à ponte.

Foi-nos sempre dito que era difícil, que estava em estudo, etc.

Com a hipótese do aeroporto na BA6, foi colocada essa exigência no nosso caderno de encargos, até já sabíamos onde é que seria feito o acesso, mas com esta indecisão, o projecto ficou suspenso.

No entanto, embora saibamos que faz falta mais um acesso, teremos sempre um maior afluxo de manhã e à tarde, nas horas de ponta, tal como acontece em todo o país.

Mas temos também de admitir que o Montijo tem uma enorme centralidade, que aumentou com a Ponte Vasco da Gama, e esse é um motivo da procura por parte das empresas.

Quando, e se, o aeroporto for instalado no Montijo, essa mobilidade pode vir a ter mais problemas?

Esse é um assunto algo delicado. Eu sou a favor do aeroporto no Montijo.

O aeroporto tem de vir para a margem sul e face às condições que o país está a viver, dificilmente teremos uma solução mais rápida e barata que a sua instalação na BA6.

Quando falam na construção desta infraestrutura no Campo de Tiro de Alcochete, há muita gente que fica na ilusão de que ‘é já aqui ao lado’, mas a área prevista para a sua construção é já no concelho de Benavente e a 44 km da Ponte Vasco da Gama.

Costumo dar este exemplo quase a título de brincadeira: uma pessoa que venha de Espanha para Portugal, demora menos tempo a fazer essa viagem, do que demoraria depois do aeroporto que ficaria em Benavente para Lisboa.

Sobre o aeroporto no Montijo, ele faz muita falta não apenas ao concelho, como a todos os concelhos em redor, porque será um pólo atractivo como nunca se pensou ter aqui nos anos mais próximos, promovendo a economia e o emprego.

Há o ponto de vista ambiental, mas acho que se está a exagerar nesse aspecto, porque quem aqui vive, sempre soube o que era bom e mau, e o que já se viveu no concelho.

Já foram contra a Ponte Vasco da Gama, e a verdade é que a fauna triplicou e temos agora cá aves que nunca tinham vindo para estas zonas, e curiosamente estão mais concentradas precisamente na área mais próxima de onde pretendiam construir o aeroporto em Alcochete/Benavente.

Neste caso, acho que é uma posição mais política e acho inadmissível que a lei permita que uma Câmara sozinha possa inviabilizar um projecto de interesse nacional, e com esse posicionamento prejudicar muitas outras autarquias.

Se o aeroporto não vier para esta zona todos iremos perder muito com isso, porque em vez de serem os municípios do distrito de Setúbal a beneficiar com este empreendimento, todo esse beneficio será canalizado para Benavente, Vendas Novas e Coruche. Por isso, BA6 sempre!.

A Junta também tem aceitado delegação de competências por parte da autarquia?

Mantivemos um conjunto de reuniões com a Câmara Municipal, mas quando estávamos perto de finalizar o processo, surgiu a pandemia de covid19, que estagnou essas negociações. Quando tudo terminar, voltaremos ao processo e vamos renegociar com a Câmara Municipal sobre as competências que cabem à Junta e para as quais teremos condições de concretizar.

No entanto, temos uma estrutura que não é muito grande, temos seis funcionários, todos eles administrativos, e três pessoas contratados a termo, para garantir a higiene urbana no Afonsoeiro.

Nessas negociações, é também necessário sabermos bem que competências pretendemos, e que quadro de pessoal poderemos ter para dar resposta a tudo o que estas implicam.

«Pandemia levou a um trabalho muito árduo e intenso»

Incontornável é a situação de pandemia que vivemos, como foi o funcionamento da Junta de Freguesia desde que foi decretada a pandemia?

Tivemos um trabalho muito árduo e muito intenso em conjunto com a Câmara Municipal do Montijo e com a Delegada de Saúde, que passou pelo acompanhamento a quem contraiu a doença ou testou positivo e ficou em confinamento, com entrega de refeições quentes, através de um acordo com alguns restaurantes, numa média de 50 a 60 refeições diárias, durante cerca de um mês no anterior confinamento.

Tivemos também uma linha telefónica para onde as pessoas em confinamento podiam solicitar a compra e entrega de bens do supermercado e também tivemos um acordo com médicos para as receitas médicas e recolha com posterior entrega dos medicamentos, sem que a pessoa tivesse de se deslocar ao Centro de Saúde e à farmácia.

Fizemos visitas ao domicílio a pessoas de alto risco, para tratar de documentação como provas de vida, através de uma equipa da Junta que se disponibilizou para isso.

O confinamento levou também a muitas situações de solidão e por isso tivemos uma parceria com alguns psicólogos que estavam disponíveis para atender telefonicamente pessoas mais vulneráveis, muitos deles idosos que ficaram sem o contacto diário com os familiares.

Neste âmbito também tivemos várias pessoas que se voluntariaram para ligar para os nossos séniores e conversarem com eles, afastando esse sentimento de solidão.

Infelizmente temos ainda activo este apoio constante, porque a situação de pandemia se mantém, sobretudo de apoio aos séniores e pessoas com maior risco.

Abrandámos algumas situações após o primeiro confinamento, mas todos os dias continuamos a trabalhar nestes aspectos que referi e estamos preparados para reactivar outros serviços, porque todos os nossos esforços foram canalizados para estes apoios.

A pandemia veio, certamente aumentar os pedidos de apoio social. Como foi lidar com isso?

A pandemia gerou algumas situações sociais complicadas, para as quais criámos uma série de ações, para minorizar essas dificuldades.

Antes desta situação, apoiávamos cerca de 1.400 pessoas através de 7 instituições que trabalham directamente connosco e, mais uma vez, através dos serviços sociais da Câmara Municipal, que identificam os casos. São distribuídos alimentos por essas instituições, que depois fazem a sua redistribuição pelas pessoas inscritas.

Referiu que tiveram voluntários a acompanhar os séniores. Notou algum acréscimo da solidariedade durante esta pandemia?

Sim, sem dúvida. Tivemos muitas pessoas a virem à Junta voluntariarem-se para os mais diversos aspectos que fossem necessários, desde essas conversas com quem estava mais solitário, na distribuição de alimentos, na forma de divulgarmos a informação, quer a fazerem os cartazes, quer na gestão das redes sociais.

Houve uma solidariedade muito grande, e até ao nível das associações e colectividades da freguesia, que foram recolhendo alimentos e nos entregavam ou nos contactavam para saber o que era mais necessário e que instituições estavam a precisar mais. E chegámos a comprar frigoríficos e arcas congeladoras para garantir a preservação dos alimentos recolhidos por essas colectividades.

Este foi o melhor, ou o único aspecto positivo desta pandemia, que fez surgir uma solidariedade que não estava à vista e que uniu as pessoas em torno do bem comum.

«Vou dedicar-me a um dos meus hobbies»

A poucos meses das eleições autárquicas, vai recandidatar-se como presidente da União de Freguesias do Montijo e Afonsoeiro?

Não sei. O convite terá de partir sempre do presidente da concelhia do Partido Socialista, ao qual pertenço. Depois do convite feito, cabe-me aceitar ou não.

No entanto se me fizerem esse convite, farei muito gosto e terei muita honra em aceitá-lo e concorrer assim para o meu terceiro mandato aqui na Junta de Freguesia e sujeitar-me-ei ao voto da população.

E se não vier esse convite?

Vou dedicar-me a um dos meus hobbies e que de há muitos anos a esta parte não tenho hipótese de praticar, que é a pesca (risos).

Mas não tenho qualquer projecto, serviria sobretudo para descansar um pouco. Os últimos sete anos têm sido um pouquinho duros e agora ainda mais duros se tornaram com a pandemia de covid19, mas estamos cá para responder às necessidades dos nossos fregueses.

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