Opinião

Rústicas marcas

- publicidade -

Nunca o vi circular, nunca ouvi o seu motor a dar provas de que funciona normalmente e nunca vi o respetivo condutor que bem feliz deve ficar quando o motor não dá provas de desfalecimento.

Apesar de tudo isto, é evidente que o carro anda, posto que o lugar onde estaciona se vai alterando. A sua idade, pelos vistos, ainda não lhe dá o privilégio de optar pelo único sítio onde descansam as suas ignoradas vontades. Máquina subjugada ao Homem. O que não é subjugado pelo Homem é o Tempo. Antes pelo contrário.

O tempo exerce no Homem as marcas da vida que decorre e que se vai escorrendo. Esperemos que escorra devagar. O tal carro não pode esperar nada. As marcas ser-lhe-ão certamente também oferecidas pelo Tempo.

O seu exterior sofrerá com as inexoráveis condições da natureza (calor, chuva, granizo, neve), o seu interior vai padecendo de mais atenção, ao seu redor os outros vão parecendo mais jovens, o seu condutor inevitavelmente mais velho, a condução mais lenta e a utilização será menos frequente. No entanto, se for bem tratado pelo detentor, poderá até viver mais que este.

“Inveja. Quase furor. Ternura?” escreveu (de modo sagaz) Carlos de Oliveira num outro contexto, porém, a frase adequa-se ao cenário aqui apresentado e por isso (talvez de forma excessivamente audaciosa) incluo aqui uma citação sua.

O carro, em príncipio, viverá. Está bem conservado. Será como o tradicional velho da nossa rua que se mantém aperaltado perante aqueles mais jovens que o vêem achando-o já em vias da senilidade sem o conhecerem.

É como se, apesar de saber o que os mais jovens pensam dele, soubesse também que quando estes se tornarem os novos velhos que substituirão os antigos, a fraca memória que têm daquele velho aperaltado lhes venha à cabeça dizendo: -Afinal ele não estava assim tão mal. Dizem isto porque agora se parecem com ele

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Permita anúncios

Detetámos que utiliza um bloqueador de anúncios.
Apoie o jornalismo sério e considere desativá-lo para o nosso site.
Saiba como desactivar: carregue aqui