Receio e esperança pautam reabertura de restaurantes após estado de emergência 

O Diário do Distrito foi conhecer como alguns dos restaurantes estão a preparar-se para esta reabertura na zona histórica, e por isso mais atractiva em termos turísticos, na cidade do Seixal.

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Após o encerramento a que os estabelecimentos de restauração estiveram obrigados, devido à pandemia de covid-19, a maior parte prepara a abertura a partir do dia 18 de Maio, sob novas normas, divulgadas pela AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal através do ‘Guia de Boas Práticas’, elaborado com a parceria da DGS.

O Diário do Distrito foi conhecer como alguns dos restaurantes estão a preparar-se para esta reabertura na zona histórica, e por isso mais atractiva em termos turísticos, na cidade do Seixal.

«Proprietários garantem segurança, clientes têm de cumprir as normas»

A ‘Adega 33’ está localizada na emblemática colectividade Timbre Seixalense, e a proprietária Andreia Santos decidiu encerrar durante o estado de emergência. “O nosso serviço é à base dos grelhados e não fazia sentido sacrificar a alma do restaurante”, embora admita que pode vir a implementar esse serviço após a reabertura “até como forma de compensar algumas perdas, e até com mais pratos disponíveis. Mas se a reabertura não correr bem não irei manter o take away, porque este deve ser uma extensão do restaurante e não o contrário.”

Andreia Santos optou por não abrir a 18 de Maio, “mas quero abrir antes do final do mês para ter tempo de implementar as regras, apesar de que muitas delas já eram norma no restaurante, como o uso de material de proteção nas cozinhas, a desinfeção das mesas, superfícies, louças e talhares, só que usávamos um produto biológico e agora teremos de usar um produto mais «agressivo», os funcionários terão de usar máscaras, o que pode vir a ser incómodo. Iremos gastar muito mais em material de proteção, e vou tentar o apoio do Governo, embora ainda esteja à espera do pagamento do lay off…”.

Sobre o conjunto de medidas exigidas considera que “algumas são perfeitamente exequíveis, e até já eram prática corrente em muitos restaurantes, mas outras até podem ser ilegais. Como é que posso comprovar que num grupo de dez pessoas, todos vivem na mesma morada? Nada na lei me permite exigir a identificação da morada fiscal de cada cliente.

Também será difícil a alguns restaurantes conseguirem os dois metros entre mesas, e nesse caso terão de ponderar a exequibilidade versus a rentabilidade. No nosso caso, temos uma sala bastante grande e conseguimos reorganiza-la, embora isso signifique alguma perda de lugares, mas como também temos esplanada, irá servir um pouco como ‘contrapeso’.”

Outras medidas de segurança passam por “incluir o sistema de digital key com a ementa a ser enviada para o telemóvel do cliente, mas vamos sempre ter de manter uma ementa física, devidamente plastificada para Ser higienizada, para os clientes que não usam essas tecnologias.

Por decisão nossa, iremos ainda um pouco mais longe, e vamos optar por toalhas descartáveis, talhares acondicionados em saquetas, a higienização das mãos à entrada, de forma a darmos aos nossos clientes a sensação de total segurança.”

É o reconquistar da confiança dos clientes que deixa esta empresária apreensiva. “Se em termos financeiros podemos ter uma quebra na ordem dos 50 por cento, a quebra de confiança pode levar a perdas até 70 por cento.”

Andreia Santos tem consciência de que este não será um processo fácil “porque implica uma mudança de mentalidade no cliente que passa por repartir as idas aos restaurantes, em vez de se concentrarem apenas aos fins-de-semana, a marcação dessa idas, o não poderem ficar uma hora à porta em fila de espera e habituar-se que não podem ficar a conversar depois das refeições ou a fazer tempo para a abertura dos bares, até porque temos de encerrar às 23h00, de forma a dar oportunidade a todos de usufruírem do acto de comer fora.

E temo que da parte dos clientes possa existir alguma dificuldade em entender estas novas regras. A obrigatoriedade tem de ser bilateral: da parte dos proprietários garantir a máxima segurança, e da parte dos clientes cumprir todas as normas.”

«Vamos ter ainda de percorrer um deserto até chegar ao oásis»

De uma antiga taberna icónica no núcleo antigo do Seixal nasceu ‘O Bispo’, um espaço de restauração com algumas características especiais, em linha com o percurso musical do proprietário, Vítor Sarmento.

“Estivemos dois meses encerrados porque servir apenas take away não se justificava, embora ainda aguarde da parte do Estado o pagamento do lay off que apresentei. E por causa disso, terei de abrir até 8 dias depois da data agora imposta pelo Governo (18 de Maio).

Agora vamos preparar-nos para reabrir no dia 22 de Maio, embora tudo isto me deixe preocupado, porque receio que não venhamos a recuperar a taxa de ocupação de antes. Tudo isto é ainda muito incerto. A minha esperança está na esplanada, uma vez que estamos junto ao rio e continua a ser um local muito apetecível.”

Não sendo um espaço muito grande, a sala terá de receber algumas alterações, segundo o proprietário. “Temos de reorganizar tudo, passar para um menu mais reduzido e diminuir drasticamente o número de lugares em quase em um terço.

Não vamos permitir aos clientes reordenar as cadeiras, como muitas vezes fazem quando veem em grupo, e essa é outra questão: claro que não posso separar as pessoas, se por exemplo vier um grupo de quatro trabalhadores da mesma empresa e que até partilharam o transporte. O mesmo com as famílias ou grupos, como é que posso comprovar que vivem todos juntos?”.

No que respeita às medidas de segurança, “já tínhamos lavatórios fora das casas-de-banho e torneiras eléctricas, bem como toalhas de papel, iremos colocar agora os desinfectantes de mãos à entrada, e as mesas só serão colocadas quando o cliente chegar.

Tínhamos também um serviço de entradas, que eram colocadas na mesa, mas agora terão de ser pedidas pelo cliente, e a ementa será simplificada e disponibilizada em micas, para podermos higienizar logo. E iremos continuar com as marcações em dias de maior afluência, como já fazíamos. Da nossa parte tentaremos cumprir o melhor possível, e por isso o meu pessoal vai receber indicações sobre como lidar com tudo isto.”

Uma das características de ‘O Bispo’, são as sessões musicais com convidados em várias noites “que agora não vão ter lugar, porque teremos de encerrar às 23h00. Não quer dizer que não se toque alguma coisa, mas não posso estar a pagar o cachet a um artista apenas por uns minutos.”

Outra aposta que pondera “é incluir o take away, para virem levantar ou usando as plataformas disponíveis para entrega em casa, embora isso vá encarecer um pouco o prato.

Vítor Sarmento não está “muito positivo sobre a retoma do turismo, porque embora muitos dos nossos clientes viessem de Lisboa e de Almada, e até do concelho, acho que ainda teremos muito trabalho para reconquistar a confiança dos clientes.

Mas não sei se as pessoas estão preparadas mentalmente para se deslocarem aos restaurantes e usufruir deles como antigamente.

Vamos ter ainda de percorrer um deserto até chegar ao oásis, e prevejo algum desespero neste sector, bem como uma grande quebra de rendimento.”

«O país não podia ficar para sempre parado»

É impossível para quem entra na cidade do Seixal não deparar com um cacilheiro ancorado junto ao jardim. Neste funciona o ‘Lisboa à Vista’ que encerrou a 14 de Março e prepara a reabertura para o dia 20 de Maio, segundo explicou Paulo Torres.

“Optámos por encerrar antes de ser decretado o estado de emergência, por obrigação social de proteção dos nossos clientes e do staff. E também porque tivemos noção que as pessoas estavam com receio, uma vez que assim que foi conhecido o primeiro caso e em apenas dois dias, foram anuladas quase 400 refeições. Entendi por isso que não valia a pena arriscar.”

Não o preocupam as medidas que agora serão impostas, “porque o ‘Lisboa à Vista’ é um dos restaurantes que obteve o selo ‘Safe&Clean’ atribuído pelo Turismo Portugal, por ter implementado uma quantidade de pressupostos.

Em Portugal apenas 20 por cento dos restaurantes obtiveram este selo e isso transmite a total confiança aos nossos clientes.”

Apesar disso, Paulo Torres está consciente de que o negócio não irá retomar da mesma forma. “Sabemos que não vamos ter o mesmo número de clientes, até que estes voltem a ganhar a confiança em sair e que sempre tiveram na restauração.”

Em relação ao espaço, “temos sorte porque não estamos limitados por quatro paredes, uma vez que embora seja um restaurante, não deixa de ser uma embarcação. E isso permite que cada cliente fique junto a uma janela, o que também será uma vantagem competitiva, tendo em conta que não vai ser possível ter ar condicionado a funcionar, e assim garantimos a circulação de ar fresco.

Além disso contamos com 3 pisos e por isso podemos distribuir as pessoas cumprindo com os espaços de segurança. Mesmo assim teremos limitações físicas, porque temos 88 lugares, que com as regras passam para 40 lugares, mas se receber casais ou apenas pessoas individuais, esse número de lugares reduz para 20.

E neste quadro, mantemos as despesas a 100 por cento, mas com uma redução de lucros.”

Apesar deste “desafio”, Paulo Torres considera que a reabertura é importante. “O país não podia ficar para sempre parado, porque não sabemos uma data precisa para uma vacina. Todos os anteriores passos foram importantes, agora estamos no 3.º momento, o do desconfinamento, que nos permitirá avançar para o 4.º momento, o de poder tirar partido novamente de tudo.”

Este empresário não esquece também “aqueles que estiveram na segunda linha da frente do combate à pandemia, e por isso vamos homenagear os bombeiros e socorristas do concelho no dia 18 de Maio, motivo porque não abrimos ao público logo nesse dia.

É uma sentida e singela homenagem, em que vamos oferecer almoço e jantar aos operacionais das corporações do Seixal e de Amora, bem como aos elementos da Cruz Vermelha.”

«São os clientes que têm de se responsabilizar pela sua segurança»

O ‘Pote de Mel’ está já fora do circuito turístico do Seixal, mas foi escolhido por ser um snack bar que funcionou durante o estado de emergência com take away, além da ‘ideia’ do proprietário sobre a divisão do espaço.

“Tenho feito alguma comida para fora, para os clientes habituais, alguns deles idosos, que estavam habituados a vir cá todos os dias. Mas não é uma área que me interesse muito porque sai muito caro. O meu negócio é mesmo o de café” explicou Guilherme Araújo.

Agora prepara o espaço para continuar “a servir os meus clientes habituais, é para eles que cá estou.”

E uma das ‘novidades’ que salta à vista são as divisórias em acrílico colocadas sobre as mesas.

“Isto foi uma ideia minha e mesmo que isto passe, vou manter. Só vão ser retiradas se tiver aqui três pessoas para almoçar que venham juntas. Não sou eu que os vou mandar sentar separados, se até vieram todos juntos. E o mesmo se vierem, por exemplo, dois casais para almoçarem juntos… vou separar as pessoas?

São os clientes que têm de se responsabilizar pela sua segurança. Eu tenho a minha máscara e viseira, e as outras condições de higiene.”

Outros aspectos que prepara para receber os clientes passa por “colocar a ementa num quadro à porta, o cliente escolhe, não tocam nas máquinas de tabaco ou outras, e assim reduz-se os contactos.

À hora de almoço ninguém vem para a zona do balcão, que durante o resto do dia, vai estar divido e só podem aqui estar três pessoas de cada vez, os restantes sentam-se nas mesas ou para a rua.”

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