Rebeldes sem causa?! Quando a transgressão é regra!

Esta semana mais uma crónica de Isabel de Almeida que faz uma reflexão da sociedade civil em que vivemos atualmente

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Tempo de Leitura: 4 minutos

Todos sabemos, até por experiência própria, que a rebeldia é própria da juventude em geral e da adolescência em particular. Aliás, a própria psicologia o reconhece em diversos estudos e teorias que abarcam o curso de vida e o desenvolvimento humano, por norma separando-o em diversas fases ou estágios de desenvolvimento, sendo comum reconhecer-se na adolescência, em traços generalistas e simplificados, laivos de revolta, de insatisfação, de necessidade de se reconstruir e de separar o seu “eu” do “eu” colectivo da família mais próxima.

Existem regras, padrões regulares e repetidos de comportamentos e atitudes que são normativos (ou seja, que se enquadram dentro de médias e que podem ser encontrados em indivíduos com um processo de desenvolvimento dito normal, sendo criados num ambiente que lhes deu as ferramentas correctas para construir a sua própria individualidade de forma saudável, equilibrada, embora não imune a crises que são próprias de cada etapa da vida) e depois temos indivíduos que apresentam padrões comportamentais disruptivos (que correspondem a desvios mais ou menos graves daquilo que é entendido como normativo, regular e adequado em termos gerais para cada fase de desenvolvimento).

Naturalmente, nada é linear na mente humana, e muitas podem ser as variáveis que influenciam e determinam as opções de comportamento de cada um, e embora a ciência psicológica, depois secundada pela Psiquiatria, nos dê quadros de referência para análise de perfis individuais (permitindo identificar funcionamentos que sejam patológicos) e muito embora existam  testes psicológicos que permitem tirar algumas pistas sobre o que de  mais ou menos certo se processo no quadro mental e de pensamento e acção de cada pessoa analisada, cada caso é um caso e as generalizações são perigosas.

Tenhamos presente que o ser humano é gregário, não vive isolado, vive em sociedade, que cada família e cada história de vida transporta em si uma narrativa muito específica e pessoal, que todos os meios sociais que o indivíduo frequenta podem levar a interiorizar crenças, hábitos, atitudes e valores (ou ausência deles) muito diversos e nem sempre adequados ao que se entende por saúdavel adequado ou normativo.

Depois existem as características próprias de cada ser humano, os chamados traços de personalidade, e aqui também vêm sendo feitos ao longo dos anos diversos estudos científicos que vêm permitindo afastar ou comprovar hipóteses teóricas, é um mundo fascinante o das teorias da personalidade na Psicologia e, inevitavelmente, faz-nos pensar em nós e nos outros sob novas perspectivas de análise.

Mas numa visão multidisciplinar, como a meu ver devem ser encarados e esmiuçados certos fenómenos patentes na nossa sociedade, como a violência (entre pares, doméstica, ocasional, em fenómenos de massa ou de grupo e nas mais diversas cambiantes que esta pode assumir) a simples observação da realidade que nos circunda acaba por nos servir de sério alerta para o mundo que nos rodeia.

Não precisamos ir muito longe, nem no tempo (actual) nem no espaço (no nosso próprio país) para notarmos que os fenómenos de violência estão a começar a generalizar-se e a banalizar-se, chegando mesmo a extremos graves como o cometimento frequente de homicídios em vários contextos (aliás sobre este tema da banalização do homicídio também já dissertámos recentemente nestas crónicas).

A transgressão, própria da juventude, e da adolescência, começa a notar-se como regra de conduta. E se a violência e o desafio constante aos limites e normas sociais (que permitem manter a paz social e a vivência em harmonia na nossa sociedade que se deseja seja regra) assusta em termos gerais, suscita uma reflexão mais profunda quando, como agora temos assistido, encontramos a tendência para transgredir como algo associado aos mais jovens, mas em termos que em muito ultrapassam a rebeldia individual de fumar um cigarro às escondidas dos pais, sair à noite e ultrapassar o horário combinado com os progenitores ou faltar a uma aula para ir sair com os amigos.

Infelizmente, encontramos nos núcleos urbanos e também em meios mais rurais, grupos de jovens que, por tendência, e até actuando em grupo, fazem da transgressão de regras sociais e da ausência de valores uma norma, uma bandeira e uma parte significativa do seu ADN social que muito dos deve deixar em alerta, como cidadãos activos e pensantes.

Os conflitos de gerações fazem parte da história da humanidade, mas nunca como agora nos foi dado a assistir a fenómenos como: homicídios entre menores (ainda esta semana tivemos um exemplo em Lisboa, entre membros de um grupo que se reunia frequentemente), o uso das redes sociais como ferramenta essencial para agendar festas com participantes em elevada quantidade e sem curar das normas de prevenção da transmissão do Coronavírus – não usam máscara, não mantêm a distância social e, para cúmulo, é também nova tendência um desrespeito profundo e uma afronta directa e até musculada às forças da autoridade.

Têm surgido também evidências de forte contestação e até agressão a elementos das forças policiais que tentam, por dever de ofício e com meios bastantes reduzidos ao nível logístico e de recursos humanos, pôr fim a estas transgressões massivas e com sérios riscos para a própria saúde pública.

Somos uma sociedade que está a dar sinais de alarme quanto às gerações mais novas, os valores perdem-se, estamos a ficar desaculturados (também por influência de produtos televisivos perfeitamente deseducativos e que trazem péssimos modelos de conduta, pensemos em formatos como “Casa dos Segredos”, “Big Brother”, “Casados à primeira vista”, programas de entretenimento que são visualizados até por crianças, tantas vezes sem supervisão parental e até como forma de confiar o tempo com as crianças e jovens à sempre paciente Babby Sitter electrónica que é a televisão… ou o tablet…ou o telemóvel topo de gama).

Os jovens estão, muitos deles, à deriva, desmotivados, sem interesses que não as tecnologias  e produtos de consumo massivo com modelos sociais violentos de que são ainda exemplo alguns videojogos, estão desprovidos de ambição, sem antever sequer que profissão possam vir a ter no futuro.

A falta de cultura leva a criar indivíduos sem espírito crítico, moldáveis por modelos nefastos de comportamento, com tendência para “seguir o rebanho” como forma de ser “popular” e aceite nos grupos que encontram por exemplo nos bairros onde vivem, nas escolas que frequentam. Desconhecem história e cultura nacionais, aliás sentem verdadeira aversão por estes temas e mostram-se avessos a ler um livro (encarado por muitos como instrumento de tortura), não conseguem depois expressar-se por escrito nem verbalizar o que os incomoda, e assim embarcam em situações limite, onde transgredir é a regra para ser aceite nesta nova e estranha sociedade que surge a nossos olhos, assustadora, violenta, mortífera, insana; mas aderem de imediato a qualquer causa (embora sem entenderem a essência) que faça apelo a actos de vandalismo por exemplo tendo por alvo estátuas e outros monumentos nacionais.

Talvez o facto de a pandemia aconselhar ao confinamento possa ser um bom pretexto para que os cuidadores passem mais tempo com os seus filhos e para que todos possam descobrir meios de entretenimento familiar que possam unir gerações (porque não maratonas de filmes clássicos? Ou aquele documentário interessante sobre a II Guerra Mundial? Ou a série sobre adolescentes problemáticos e a forma como os superam?).

Até quando vamos tolerar que transgredir seja a regra? Que causas movem estes rebeldes dos novos tempos?

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