Opinião

“Quando morre um amigo, morre uma parte de nós!”

Uma crónica de Diogo Reis

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Nem todas as pessoas conseguem ser amigas, leais, companheiras. Nem todos conseguimos ser como irmãos.

Quando a vida nos brinda com alguém que é especial, querido, um verdadeiro amigo, temos por norma tendência de ficar de pé atrás. De ficar na dúvida se será leal. Somos por natureza descrentes e desconfiados. Por vezes, fruto das patadas que a vida nos dá. Outras vezes porque nem nos permitimos a amar. Sim, quando se gosta de um amigo verdadeiramente, amamo-lo.

Há um ano perdi aquele que sempre será o meu melhor amigo, o meu irmão. O irmão que escolhi!

Quando conheci este ser de luz especial, tínhamos tudo para não nos darmos. Ele era introvertido, eu mais extrovertido. Ele era mais pacato, eu mais sociável. Ele era reservado, eu mais comunicativo. Diria naquele encontro de amigos comuns que não seria possível ficarmos amigos. Estava enganado. Enganei-me redondamente. Ali, conheci um amigo, um irmão. Que o foi até aquele fatídico dia. Mas que na verdade sê-lo-á toda a vida.

O ano passado, a 4 de Dezembro, este amigo depois de jantar, saiu em missão fruto do seu trabalho. Tinha havido em Lisboa a derrocada de um edifico que desalojava alguns jovens que o habitavam. Surpreendido com esta notícia, abandonou tudo e foi a correr. Tentar socorre-los. Foi dar-lhes comida, roupa, guarida. Foi dar-lhes aconchego. Um lar. Foi confortá-los. Na verdade foi dar-lhes amor.

No regresso a casa, inicio de madrugada, um carro em fuga embate contra o carro dele parado no semáforo. Acabou naquele momento a sua missão física na terra. Não voltou mais para a família e para os amigos. Ali, não morreu apenas um humano. Morreu um filho, um irmão, um tio, um amigo. Um grande amigo. Para mim, morreu mais que tudo isto, morreu um companheiro de vida, um leal amigo, um irmão. O que eu tinha escolhido.

Na manhã seguinte, a 5, quando me ligaram a contar, não quis acreditar. Era impossível. Como é que Deus fazia uma coisa daquelas a um jovem em inicio de vida. Como?

Começaram as perguntas, as minhas dúvidas. O meu descontentamento com Deus, sendo eu católico, fez-se presente. A dor, a revolta, a mágoa. Uma dor que ainda hoje trago dentro de mim. E que sei que nunca passará. Dizem que o tempo cura, mas não. O tempo não cura, nem ajuda a esquecer. Apenas suaviza. Mas há as datas, as fotografias, as lembranças, as memórias. O tempo não cura e também não é verdade que na morte tudo acaba. Pelo menos não o é para mim. Pois em mim todos os dias está vivo este amigo, este irmão. Todos os dias falo com ele, rezo-lhe, peço ajuda. E sinto que está sempre presente. Eu sinto-o. Dirão muitos que é fruto da imaginação, que é a saudade. Não sei o que é e na verdade também não penso nisso. Porque isso é o que na verdade me faz todos os dias seguir a vida como se ele esteja aqui.

Ontem evocámos a memória dele no dia que fez um ano que o levaram de nós. Pela noite, estava a deitar-me quando me telefonam e dizem já sabes? Eu parei. Não sabia. Mas sendo dia o dia que era, tive medo. O meu coração começou a bater forte. Gelei. De repente, dizem-me partiu um anjo. Uma menina de 21 anos. A filha do Tony Carreira.

Não sabia que dizer, não tinha palavras.

Enchi-me agora de vontade e coragem e resolvi escrever este texto. Escrevo-o porque entendo que devo isto ao Tony Carreira. Ele não sabe, aliás, pouco mais que a minha família próxima saberá que sou um admirador das músicas do Tony Carreira. Não faço parte dos grupos de fãs, nem sou um dos que o acompanha para todo o lado. Mas sempre que dá um concerto em Lisboa e que me é possível eu lá estou. Seja sozinho ou acompanhado. Há uns anos até consegui levar uma professora do ensino secundário e a sua filha a um concerto dele. E porque vou eu aos concertos dele perguntará o leitor? A resposta é simples. É que o Tony Carreira escreve e canta sobre amor. Sobre como devemos amar sempre quem nos rodeia.

Hoje escrevo este texto por duas razões. A primeira é para naturalmente solidarizar-me com a dor desta família. Dos pais, dos irmãos, da família e de todos os amigos. A segunda é para agradecer ao Tony Carreira. Ao longo da vida, nos momentos mais duros e difíceis que vivi, refugiei-me. Mas ao contrário da maioria das pessoas que se refugia no silêncio, eu refugiei-me sempre muito nas suas músicas que aprendi a gostar desde pequeno. Fruto das origens maternas que são do Norte e com raízes também a França. Mas pela doçura, pelo carinho, a ternura, o amor com que sempre nos presenteou em cada música e na forma como as interpreta. O Tony Carreira não canta apenas músicas. O Tony vive as músicas. Sente-as e faz-nos mergulhar num horizonte que nos elava a um estádio de amor profundo.

Em alguns concertos, o Tony Carreira cantou com o seu melhor amigo, o seu irmão como tantas vezes o ouvi apelidar, Ricardo Landum. E a forma como vivia aquele momento, a ternura com que cantavam, fez-me sempre sentir que é possível amar um amigo, amar um irmão.

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Foi com as músicas do Tony Carreira que aprendi a amar os amigos e sim, a amizade é um dom!

Obrigado, Ric.

Obrigado, Tony.


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