Opinião

Qual é a prostituta da diferença?

É verdade, cá estou eu outra vez a dar voz às dores alheias que também são minhas. Mais deles, infelizmente. Deles, dos bichaninhos, claro. São sempre os bichaninhos

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Hoje vou falar-lhe sobre um assunto que parece ser desportivo, tal como o outro que lhe falei que fazia crescer o buço às valentonas.

Pois que em plena pandemia há um movimento que pede que a caça e a pesca lúdica continuem a ser permitidas nos concelhos considerados de risco, porque, dizem estes sabedores, se sentem mais protegidos no campo. Acreditam ainda estes seres humanos que esta atividade deve integrar o leque das exceções do estado de emergência, porque constituem (…) a alma, o sal da vida de milhares de portugueses que as praticam, para ganhar força para aguentar a semana seguinte de trabalho, ocupar os seus tempos livres, em claro benefício pessoal, físico e psicológico. (…)

Ora, o que para uns serve para ocupar tempos lives que os rejuvenescem, para outros é fatal. A caça seria um tema deveras interessante (eu sei, eu sei), mas vou ficar-me pela pesca, esta nobre prática que faz bem ao corpo e à mente, em particular daqueles que pouco ou nada têm que fazer e que por isso se dedicam à matança de animais inocentes para se sentirem bem durante a sua jorna.

A bem da verdade, também desde já afirmo, há alguns destes grandes atletas aficionados que ainda têm algum pudor, pois durante a sua jornada e após a pescaria devolvem os assustados animais ao seu natural habitat, enquanto outros optam valentemente por os deixar sufocar.

Mas, não. Não pense que os peixinhos que são devolvidos à água vão viver felizes para sempre. Vários estudos já vieram a público denunciando que o uso de linhas finas em articulação com anzóis de reduzida dimensão aumenta a taxa de mortalidade destes animais até 5%. Portanto, a denominada pesca sem morte que alguns proclamam conduz, de facto, a curto ou médio prazo à morte de alguns destes animais que acabam por engolir o anzol ou que com ele ficam cravado nas guelras ou ainda por causa do stress que lhes é imputado.

E tal como existem largadas de touros, eis que lhe apresento as largadas de trutas. Ai que vai para aí uma grande pescaria! E com rounds, imagine-se! Há até quem fale em cabazes de trutas! Uma fartura! E são tantos, estes famosos atletas, que até têm de se revezar ou, utilizando o termo amplamente desportivo, entrar num esquema de rotatividade de pesqueiros. Uns corajosos! Isto não é para qualquer um, a bem dizer.

Para além deste magnifico desporto, que é um mimo, temos também aquele milhão de pescadores que todos os anos renova a licença de pesca para que em água doce ou no mar salgado possam exercitar os seus instintos predadores. Não admira por isso que o mar seja salgado, com origem nas “lágrimas” de tantos animais.

São milhares os euros que movimentam este negócio com cerca de 300 estabelecimentos de portas abertas para potenciar a venda de material piscatório especializado – sim, porque existem as mais variadas diferenças entre pesca em água doce e a pesca em água salgada, assim como das espécies que se pretendem matar.

Foi em 2007, que o Estado impôs a obrigatoriedade de emissão de licença para quem pesca no mar, exigência já há muito exigida para os pescadores de água doce. E é tão fácil matar neste país – basta ir a uma caixa multibanco e pagar o montante devido. Isto é quase como pecar, receber a penitência do padre e pecar novamente. Em suma, paga-se ao Estado para se poder matar – basta ir ao multibanco emitir uma licença nacional, regional ou concelhia e pagar, tudo no mesmo ato. Isto não há cá burocracias para aquilo que é realmente importante para o país.

Voltando às largadas de trutas, esse desporto que deveria assumir o estatuto olímpico… sabe de onde elas vêm, certo? Pois, claro, de tanques, da chamada aquacultura que tanto sofrimento provoca nos animais, estando já provado que a biologia e o bem-estar dos peixes não se coadunam com a sua densa vivência em tanques perante a ausência do enriquecimento ambiental necessário. E é aqui que se vira o bico ao prego… por que as más ações devem ser punidas, ainda que se cumpram penitências. É que o stress a que estes animais são sujeitos provoca uma libertação de hormonas que influenciam o sabor e a textura da sua carne. Acresce que as águas sobrelotadas e sujas onde muitas vezes vivem podem ser fonte de doenças. Tomem lá! Não interessa para nada a qualidade, desde que o alimento não esteja podre.

De facto, não deixa de ser estranho que exista uma visão tão dispare entre a carne e o peixe, entre aquilo que se tolera para uns e que se começa cada vez mais a não se tolerar (e bem!) para outros. Ficam aqui dois exemplos:

1 – Ah, e tal, sou muito fixe, porque já não como carne, só peixe.

2 – Pá, ’bora aquele restaurante que tem peixinho ainda a saltar. Mas se preferires podes escolher uma das lagostas. Os tipos têm um aquário enorme!

Há peixes criados em regime de aquacultura que são rotulados vivos com um grampeador por exigência dos comerciantes que querem o peixe fresquinho. Há animais que agonizam mais de uma hora após a sua captura, sendo sujeitos a maus tratos. Os peixes, meu amigo, também são seres sencientes, também sentem dor e emoções, respondem a estímulos, têm consciência deles próprios, vivem socialmente, têm memória.

E assim termino deixando-lhe uma reflexão profunda: já ouviu falar daquela cena dos mercados vivos na China, certo? Aquela, em que são cozinhados animais vivos, como cães e o caraças…. Qual é a prostituta da diferença?

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”.

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