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Perdas na Cultura ultrapassam os 70% no ano da pandemia

Cultura soma perdas superiores a 70% em relação a 2019.

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A paralisação da Cultura começou na segunda semana de março, depressa se estendeu a todas as áreas e, nove meses passados, entre “plano de desconfinamento” e estados de emergência, soma perdas superiores a 70% em relação a 2019.

O número é avançado por agentes do setor, no cenário imposto pela pandemia da covid-19, e é comum a diferentes áreas, dos editores e livreiros às artes de palco, das bilheteiras de cinema e dos museus, aos promotores de festivais, deixando prever uma quebra na ordem dos 4,8 mil milhões de euros, em termos de volume de negócios, tomando por referência os números divulgados esta semana, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), para a Cultura, em 2019.

No ano passado, segundo o INE, o setor mobilizou cerca de 132.200 trabalhadores e atingiu um volume de negócios de 6,9 mil milhões de euros, o que representou 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB), situado nos 209 mil milhões de euros, em 2019.

Este ano, com o colapso causado pela pandemia, os apoios públicos levaram a um reforço cruzado de cerca de 70 milhões de euros da Cultura, no orçamento suplementar, aprovado em julho.

Em março, quando os casos de covid-19, em Portugal, chegavam à casa dos milhares, e o país fechava em confinamento, um inquérito do Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE) verificava que a perda de trabalho afetava 98 em cada cem profissionais do setor.

Em cerca de duas semanas, tinham sido cancelados mais de 27 mil espetáculos e, por cada um, a GDA – Gestão de Direitos dos Artistas, estimava que a perda total de rendimento afetava, em média, mais de 20 pessoas (18 artistas, 1,3 profissionais de produção e 2,5 técnicos), em muitos casos os chamados “invisíveis” da Cultura, sem que as atuações ‘online’, recorrentes durante o estado de emergência, tivessem implicado proveitos.

No cinema e audiovisual, as medidas para conter a pandemia afetaram a produção e rodagem de alguns projetos, que só foram retomados a partir do verão à luz de apertadas medidas de higiene, mas a paralisação mais imediata, com impacto no consumo, foi no setor da exibição.

As mais de 500 salas começaram a encerrar em março, só reabriram gradualmente e de forma parcial a partir de junho, com uma enorme retração de consumo, mesmo com os exibidores a garantirem que é seguro estar numa sala de cinema.

Este é o ano em que os portugueses menos vezes foram ao cinema. Segundo os dados mais recentes do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), 2020 regista – até novembro – uma quebra de 74% em receitas de bilheteira e em número de espectadores, comparando com o mesmo período de 2019.

De janeiro a novembro deste ano, a exibição comercial contou com 3,6 milhões de espectadores e 19,7 milhões de euros de bilheteira, muito longe dos 14 milhões de espectadores e 75 milhões de euros do período homólogo de 2019.

Os exibidores já alertaram para o risco de mais de metade das salas de cinema poderem encerrar se não houver financiamentos com baixas taxas de juro ou uma flexibilização de rendas de aluguer, a maioria em centros comerciais.

A par das linhas de apoio transversais à Cultura, no que toca ao cinema e audiovisual foi anunciada uma flexibilização de procedimentos e um reforço de 8,5 milhões de euros nos concursos do ICA, para que o financiamento chegasse de forma mais célebre aos projetos apoiados.

Quanto aos espetáculos, começaram a ser adiados ou cancelados em março, ainda antes de decretado o encerramento das salas.

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Segundo a Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE), só entre meados de março e final de abril foram cancelados, suspensos ou adiados cerca de 27 mil espetáculos.

No dia 01 de junho, as salas foram autorizadas a reabrir, com lugares marcados e o cumprimento de regras de distanciamento social, embora no final de maio ficasse proibida a realização de “festivais e espetáculos de natureza análoga”, até 31 de dezembro.

O verão decorreu sem os festivais de música, com a Associação Portuguesa de Festivais de Música (Aporfest) a estimar uma perda de cerca de 1,6 mil milhões de euros, contra os dois mil milhões originados em 2019.

A APEFE, por seu lado, afirma que o mercado dos espetáculos registou uma quebra de 87% entre janeiro e outubro deste ano, face a 2019, admitindo que “não será difícil que esta quebra possa atingir os 90% até ao final do ano”.

Os números concordam com os de duas plataformas de venda de bilhetes para espetáculos, em Portugal, a Ticket Line e a Blue Ticket, que disseram à Lusa terem registado quebras superiores a 80%, nas suas operações, e uma perda de faturação entre 78% e 90%, nos meses marcados pela pandemia.

No teatro, sessões anuladas, alterações de horários e salas com lotação reduzida quase a um terço, têm pautado a atividade de companhias e profissionais, que se viram também confrontados com um aumento “enorme” de gastos na higienização das salas.

A vida tem sido “o cabo dos trabalhos” este ano, como disse à Lusa, em novembro, o diretor dos Artistas Unidos, Jorge Silva Melo.

“Este ano é um ano de ruína para o teatro e para toda a Cultura”, disse à Lusa o encenador Carlos Avilez, por ocasião da estreia de “Yerma”, de García Lorca, em novembro, com que assinalou os 55 anos do Teatro Experimental de Cascais, que fundou.

Os teatros comerciais, como o Maria Vitória e o Politeama, em Lisboa, suspenderam os espetáculos em novembro, com a declaração do novo estado de emergência, e fecharam as portas “de forma temporária”.

O setor livreiro sofreu uma queda abrupta, registando perdas no valor de 23,3 milhões de euros, face a 2019 (de 102,2 milhões para 78,9 milhões).

Este foi o último balanço, feito em outubro pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), mas as livrarias atravessaram períodos negros durante o primeiro estado de emergência, devido ao encerramento, e sobretudo na primeira semana de abril, quando registaram quebras, nas vendas, de 80%.

Na altura, mais de meia centena de livrarias independentes uniram-se para criar a rede de cooperação RELI — Rede de Livrarias Independentes.

Em abril, o Ministério da Cultura anunciou um programa no valor de 400 mil euros para aquisição de livros, a distribuir pelas redes de ensino de português no estrangeiro e centros culturais, mais tarde reforçado em 36 mil euros, de que vieram a beneficiar 250 editoras e livrarias, num total de 261 candidaturas. A este valor juntaram-se 200 mil euros inscritos em orçamento para compra de livros a Rede Nacional de Bibliotecas Públicas.

O apoio não foi bem recebido pela APEL, que considerou não resolver os problemas nem se aproximar das propostas que apresentara, como o alargamento da Lei do Preço Fixo, um subsídio a fundo perdido para rendas, a redução do IVA e uma linha de crédito para compromissos com fornecedores.

Em setembro, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, a Biblioteca Nacional de Portugal, a Imprensa Nacional (INMC) e a RELI juntaram-se para a criação de uma plataforma de venda ‘online’, para as livrarias independentes, dentro do ‘site’ da INMC.

A crise levou ao fecho da editora Livros Cotovia, em novembro, e a histórica Livraria Barata, em Lisboa, que admitira o encerramento, estabeleceu uma parceria com a Fnac – “Livraria Barata powered by Fnac -, a consolidar até janeiro, com a reestruturação de instalações.

Nos museus nacionais, as perdas sobem também aos 80%.

Encerrados de 14 de março a 18 de maio, os 25 museus e monumentos tutelados pela Direção-Geral do Património Cultural apresentaram uma queda de 70% de visitantes, no primeiro semestre, segundo dados revelados em setembro.

De maio a novembro deste ano, porém, as visitas a museus e monumentos nacionais renderam um total de 1,7 milhões de euros – com o Mosteiro dos Jerónimos a contribuir com quase um terço do total -, segundo o relatório levado pelo Governo ao parlamento, em novembro, sobre o impacto da pandemia.

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