Opinião

Pelo fim de uma ciência ceifeira

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Embora os debates em torno da legitimidade da experimentação animal sejam sempre numa tónica dicotómica de direitos dos animais versus saúde humana, a verdade é que mais de metade dos animais utilizados em procedimentos científicos são utilizados em experiências que em nada se relacionam com a saúde humana. Não acredita? Vamos lá ver.

Se olharmos para os dados da União Europeia, constatamos que 45% dos animais são utilizados em investigação básica ou fundamental. A investigação básica ou fundamental é a investigação realizada sem outro objetivo do que o simples obter conhecimento. O conhecimento científico é importante enquanto parte da cultura de uma sociedade, como o é a música ou a dança, mas quantos de nós aceitariam que se infligisse sofrimento a milhares de animais para aumentar a cultura de um país? Certamente bem menos do que aqueles que entre nós aceitam que se cause sofrimento aos animais para curar doenças humanas… Mas, ainda assim, acredita mesmo que a experimentação animal é a única forma de fazer avançar a medicina? O status quo diz que sim, mas a evidência científica diz que não. Em qual vai apostar?

Em 2004 a Food and Drug Administration (o equivalente americano do Infarmed) publicou um estudo que revelou que apenas 8 em cada 100 medicamentos testados em animais passaram os estudos clínicos (com humanos). Isto significa que 92% dos fármacos que foram eficazes nos testes com animais foram considerados ineficazes ou mesmo perigosos nos testes com humanos (veja-se o exemplo da substância BIA 10-2474, desenvolvida pela portuguesa BIAL que mesmo tendo sido eficaz em chimpanzés- a espécie mais próxima da humana- causou a morte a uma pessoa e danos neurológicos a outras quatro, tendo sido de imediato interrompida).

Mas nem só de fármacos vive a medicina: os animais são também usados como modelos para compreender a evolução e causa de doenças humanas. Será que é aqui que são realmente eficazes?

Nos últimos anos temos assistido a um verdadeiro boom de estudos científicos que procuram verificar empiricamente qual o contributo real da experimentação animal para a evolução da medicina. Adivinhe? Sim, é verdade, os resultados são desastrosos: os vários estudos mostram que o contributo dos modelos animais para a evolução da medicina foi pobre em áreas tão díspares como enfartes, depressão, doenças inflamatórias ou cancro.

Alguns destes estudos mostram inclusivamente que os resultados obtidos com células foram mais relevantes para a medicina que os estudos desenvolvidos com modelos animais.

É claro que pode sempre duvidar (sim, eu deixo…) e contrapor-me alegando que uma célula ou um aglomerado de células não pode mimetizar a complexidade de um organismo vivo. Bem, e não é que até tem razão? Porém um rato mutante também não pode mimetizar um paciente com cancro, nem um rato afogado simula uma pessoa deprimida! Ora aí está, vê?

Repare que há dezenas de estudos que para testar a eficácia de antidepressivos põem ratos dentro de água, procurando aferir ser estes nadam para salvar a vida ou se deixam afogar-se, para concluírem se quem tomou o anti depressivo tem propensão a lutar pela própria vida. Esta experiência dramática e desumana terminou pela comprovação da sua inutilidade.

Perante este cenário de ineficácia, alguns insistem em refinar modelos animais ou melhorar os protocolos experimentais, mas são cada vez mais os que advogam que a experimentação animal tem de acabar. E já há muito deveria ser proibida.

Em 2015 uma iniciativa de cidadãos, subscrita por mais de 1 milhão de pessoas peticionou à Comissão Europeia que legislasse no sentido de substituir totalmente o uso de modelos animais na investigação biomédica. Embora não se tenha atingido o seu propósito, a existência desta iniciativa foi um sinal de mudança de consciências.

Cada vez mais, os animais são vistos como parte integrante da humanidade e a sua defesa assume-se como o reflexo do bem que esta ainda é capaz. Junte-se a nós. Seja humano.

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”.

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