Opinião

Ovos podres

Uma crónica de Vera Esperança

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Sabe o que é uma pita? Também conhecida por galinha, esse ser de porte médio-pequeno com o corpo coberto de penas, munida de bico afiado e duas patas que esgravatam ferozmente a terra. Esse bicho que deve viver em liberdade no campo para realizar o útil trabalho de remoção de pragas que atacam as fruteiras e a horta. E que em complemento vai estrumando a terra com o melhor adubo que a natureza pode dar. O esterco de galinha é detentor de um grande teor de nutrientes, superior até ao esterco dos bovinos. Na verdade, possui quatro vezes mais nitrogénio, vinte vezes mais fósforo e o dobro do potássio, sem esquecer o enxofre, cálcio e outros micronutrientes.

As galinhas são umas trituradoras, limpam tudo e adoram farelo de trigo, milho, vegetais e fruta. Podem viver felizes durante 15 a 20 anos, enquanto põem ovos, um dos alimentos mais ricos e completos que um ser humano pode comer. A galinha gosta ainda de comer pedras pequenas e alguma areia para os ovos encascarem. Ficam mais rijos.

Por causa do tipo de alimentação e do exercício diário no espaço exterior, os ovos das galinhas que apelido de “galinhas que vivem” têm uma coloração muito amarela. Quando comparado com o de aviário, o ovo caseiro é mais saboroso e incomparavelmente mais saudável. Tem menos colesterol, sete vezes mais vitamina E e dois terços mais de vitamina A.

Ao contrário do que se pensa, estas aves são animais interessantes e dotadas de uma curiosidade extrema. São sociáveis, gostam de conviver, respeitam a sua higiene apostando em banhos de terra. E é curioso o facto de as mães galinhas cacarejam para os pintos que ainda não saíram do ovo e que estes lhes respondem da mesma maneira. E depois, mesmo já fora da casca, a galinha mãe continua extremamente preocupada com a segurança das suas crias. Uma verdadeira mãe galinha!

Que lindo texto, não é? Imagine um prado verdejante, cheio de galinhas gordinhas e felizes, repleto de árvores de fruto saudáveis e uma horta pujante. Já está a ouvir a música zen? Ok. Vamos então agora à realidade. A realidade do frango assado, dos ovos, das galinhas no forno criadas em aviários, que mais não são espaços de concentração de milhares de aves que sobrevivem nas piores condições.

Para que nasçam galinhas poedeiras milhares de ovos são incubados artificialmente com recurso a gavetas industriais. Após a eclosão dos ovos, os recém-nascidos entram numa espécie de linha de montagem para serem diferenciados pelo sexo. Se as fêmeas sobrevivem até às 72 semanas, os machos são triturados ou asfixiados – não são rentáveis. Pelo menos, não vivos, já que os seus restos são parte da composição de rações e fertilizantes.

Estas galinhas são despojadas de todos os seus interesses, vivem confinadas, não sabem sequer que têm asas, que o bico que lhes foi cortado com uma lamina quente servia para bicar as suas companheiras e pegar em restos de comida e que as suas patas deveriam estar a esgravatar a terra que lhes proporcionaria um banho de beleza. É por isso adotado por estes seres vivos, sem sequer compreenderem porquê, um comportamento de pura agressividade ao invés de um saudável convívio, são alimentados com farinha feitas de restos de animais ao invés de farelo, couves ou frutas, vivem 72 semanas ao invés de largos anos….

Uma “galinha que vive” põe até 20 ovos por ano; já uma “galinha que sobrevive” chega a pôr 300, fruto de uma reprodução controlada e manipulada geneticamente. A “galinha que vive” é feliz, está de boa saúde. A “galinha que sobrevive” rapidamente sofre de doenças como a osteoporose causada pela falta de cálcio fruto da elevada postura que culmina na quebra de ossos. Sim, vive com os seus ossos partidos e em atroz sofrimento.

Chegadas ao fim do ciclo de postura, há que descartá-las. São enviadas para o matadouro onde, sem dignidade ou qualquer apreço, são penduradas mais mortas que vivas pelas patas com ganchos numa linha de suspensão que, ao rodar, as vai obrigando a mergulhar a cabeça numa água que se encontra eletrificada, um pré-requisito para a machadada final. Mas nem todas são suspensas pelas patas – por vezes, os seus corpos já estão tão devastados que servem apenas para fertilizantes ou rações.     

Quando comprar ovos lembre-se desta realidade. Não acredite que os ovos das galinhas criadas ao ar livre, ou no solo, ou biológicos ou quaisquer outros que lhe queiram impingir respeitam a dignidade destes seres vivos. Não, não respeitam.

Por isso, seja um bom ser humano, respeite os outros.

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”.

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