«Os elogios, entendo como motivação. As críticas, como aprendizagem»

Um abrigo para cães de rua transformou a vida de João Batista, e criou uma verdadeira rede de solidariedade.

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Há um ano atrás, João Batista declinou a foto para acompanhar o artigo, mas desta vez aceitou tirar a foto muito perto do local onde instalou o primeiro abrigo pelo qual ficou conhecido.
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Há cerca de um ano atrás chamaram a atenção ao Diário do Distrito para um abrigo para animais colocado nas Paivas, Amora, e construído por um imigrante brasileiro, onde alguns cães idosos e abandonados se recolhiam.

Despertada a curiosidade, até porque seria um tema interessante para o nosso «Cantinho da Bicharada», fomos ao encontro de João Batista, oriundo de Minas Gerais e há vinte anos em Portugal, a quem ficámos a conhecer um pouco melhor numa entrevista e que na altura lançou um desafio: “Qualquer associação que necessite, pode contactar-me e eu construo um abrigo.»

O desafio foi aceite. E de que maneira.

“Quando a Ana Paula Gouveia fez a postagem sobre esse primeiro abrigo, aquilo foi um ‘fim do mundo’ para mim, porque não desejava tanta ‘emoção’ em redor do meu trabalho”. E quase de imediato começou a receber pedidos para abrigos.

“O primeiro que fiz como ‘voluntário’ seguiu para Coimbra, com a ajuda de Samuel Marques, que sem me conhecer, se ofereceu quando pedi um transporte. E depois disso comecei a divulgar o meu trabalho, porque de outra forma seria inútil. Senão o divulgasse, como é que alguém no norte do país podia chegar até mim? Só o divulgo para que as pessoas que precisam saibam onde os podem obter.”

Os pedidos não param e “de há um ano para cá já entreguei 60 abrigos para gatos, para associações e privados de norte a sul de Portugal, e tenho mais meia dúzia construídos, que aguardam o transporte.”

Assume-se como ‘voluntário’ da causa animal, “e essa foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Faço tudo de coração, já me ofereceram dinheiro, quiseram saber quanto levava por um abrigo, mas no dia que aceitar dinheiro, deixo de ser voluntário.

De cada vez que entrego um abrigo, sinto como se estivesse a receber uma medalha só pelas conversas que tenho com as pessoas para quem os faço, e tenho aprendido muito com elas, “por vezes muito mais novas que eu, mas dão-me verdadeiras lições de vida e de moral”.

Afirma que “hoje durmo o sono dos justos, e neste ano que passou a minha vida pessoal deu uma volta de 180.º graus. Não tinha casa própria, agora tenho; trabalhei num emprego 16 anos sem direitos e agora estou num outro, a receber mais e com todos os direitos, também na área da construção. Hoje todas as minhas três filhas têm emprego nas áreas que escolheram, uma é contabilista, outra fez faculdade para educadora de infância e a que vive em Londres tem agora um negócio seu. E isto provou-me algo que sempre disse ‘que o Universo conspira a nosso favor quando temos um coração puro’.”

E do trabalho nasce a experiência e se “no início levava um dia e meio para fazer um abrigo, agora faço quatro abrigos num dia, porque também aqui a minha vida mudou, tive muitas pessoas que me ajudaram, com materiais e espaços para trabalhar, e agora tenho uma oficina montada no abrigo da D. Bárbara.”

Solidariedade gera solidariedade

Um dos gostos de João Batista são as suas ferramentas. “Sou fanático por elas. E as pessoas que acompanham o meu trabalho têm feito questão de mas oferecer, levando à minha porta ou ligando a dizer que têm esta ou aquela máquina, madeiras, pregos, etc, o que me permite trabalhar mais depressa e também não ter de comprar material para os abrigos.”

Nestas dádivas tem histórias que vale a pena partilhar. “No outro dia estava na obra e havia uma caixa de pregos usados, que fui pedir. A pessoa perguntou-me para que queria aquilo, expliquei-lhe que era para abrigos, e mostrei-lhe as fotos no telemóvel. Perguntou-me então o que faria com aqueles pregos, não chegavam a 200 gramas, e respondi que dava para três abrigos. Pegou no meu braço e levou-me ao armazém, onde me deu uma caixa com dez quilos de pregos. «Leve e faça os abrigos, porque Portugal precisa de muitos como você!».”

Numa outra obra encontrou várias chapas em acrílico descartadas “mas boas para coberturas das casotas. Nestas coisas sou muito descarado, perguntei a quem as pedir e indicaram-me uma engenheira. Fui falar com ela, era uma jovem, e contei-lhe do projecto.

Respondeu-me que podia levar as chapas «e tudo o que encontrasse na obra que pudesse fazer-me falta.

Dizem que quando fazemos o bem, obrigamos os outros a fazê-lo também.”

Confessa que “já vi trabalhos fantásticos em muitas áreas, mas neste posso dizer que sou pioneiro. E tenho visto pessoas que estão a seguir o meu exemplo e isso deixa-me feliz”, e por isso já foi convidado “por uma senhora para ensinar um grupo de escuteiros, agora vamos agendar uma data”.

Mas embora o seu trabalho seja reconhecido, há sempre quem atrás do escudo protector de um computador, debite críticas e até algumas palavras menos decentes quando João Batista partilha os seus trabalhos. Como encara essas situações?

“Os elogios que me fazem, entendo como motivação. As críticas, como uma aprendizagem.

No nosso país existem muitas pessoas que dizem que gostam de animais, mas só ficam no conforto da sua casa, a comentar e criticar e não têm iniciativa.

Muitas pessoas até pensam que sou reformado, não sabem que trabalho de segunda a sábado, quantas horas durmo, e o tempo que tiro para fazer estes abrigos.”

Reconhecimento na causa animal

O seu trabalho é já bastante conhecido na causa animal. “No outro dia fui contactado por uma pessoa da Figueira da Foz que ouviu falar de mim num café e veio pedir-me para construir-lhe um abrigo. Pedimos uma boleia do Seixal para lá, não se conseguiu, mas lá se conseguiu transporte através de um serviço dos CTT.”

João Batista afirma que conheceu “o melhor e um pouco do pior” na causa animal “porque há pessoas que se dedicam do fundo do coração, muitas vezes sem terem as condições mínimas para elas próprias, e que ficam no anonimato, até porque não sabem usar os telemóveis e as redes sociais.

Mas também há muitas guerras entre os cuidadores. No meu ponto de vista esta causa devia unir todos. E isso leva até a que não divulgue alguns dos meus trabalhos, para evitar atritos entre as pessoas, algo que me deixa muito triste.”

Recorda algumas histórias que tem vivido. “Hoje conheço pessoalmente quem colocou aquele primeiro post no Facebook sobre o abrigo para os cães, e ela pediu-me um abrigo para uma amiga. Foi uma surpresa que fizemos à senhora e quando lho fui entregar e disse que era um pedido da Ana Paula Gouveia, a senhora desatou a chorar.”

Relembra também a história “de uma senhora que me disse que a mãe era invisual, mas que todos os fins-de-semana ia à colónia dela para tocar no abrigo que lhe fiz, e pedia à filha para ler as histórias que publico. No Dia da Mulher postei uma frase a dizer que ‘Metade da população do mundo são mulheres e a outa metade são filhos delas’, e a senhora chorou.”

Outra história tem mais a ver com as ‘aparências’. “Uma senhora contactou-me a pedir um abrigo. Eu pesquiso sempre um pouco «quem vem ter comigo, para perceber porque me procura, até porque quando me pedem um abrigo é porque precisam.

No perfil desta senhora vi uma foto de uma menina muito jovem e bonita e pensei que este seria um pedido ‘de brincadeira’. Uns tempos depois vi no mesmo perfil uma foto de uma senhora numa cadeira de rodas, transportando um gato numa transportadora e perguntei-lhe quem era essa pessoa, ao que me respondeu que era ela. No dia seguinte fui levar-lhe um abrigo.”

Mas nem todas as histórias têm um carácter positivo. “Há pouco tempo uma pessoa pediu-me um abrigo e tentou tirar proveito disso. Entreguei- e dias depois vi outra pessoa a dizer que tinha o abrigo para a sua colónia. Por curiosidade fui falar com ela, quando me diz que ‘o abrigo tinha sido comprado por uma vizinha por 50 euros e que lho vendera’.

Expliquei que fora eu quem o fizera e que nunca levo dinheiro. Mas fiquei tão triste com isso que partilhei no Facebook, sem nunca dizer o nome da pessoa, que leu o post e me ligou dizendo que me ia devolver o dinheiro. Expliquei que não era a mim que tinha de o entregar, mas sim à outra senhora, mas ela quis entregar-mo para eu o devolver e aceitei. Só que no dia que era para vir, não teve coragem e mandou a filha. E eu fui devolver o dinheiro à outra senhora.”

Também muitas são as pessoas que lhe oferecem alimentos para os animais “e que depois posso distribuir por quem precisa, sobretudo pela D. Bárbara, para os animais que ela tem, todos eles doentes, idosos e abandonados. Ando sempre com dois sacos de ração no carro, para quem me peça. E nunca levei 100 gramas de ração para o meu gato.”

Desafios para o futuro

Neste momento fez uma pausa, devido à situação do coronavírus 19, “só que contra a minha vontade, porque tenho abrigos pedidos e outros para entregar e as pessoas estão à espera. Mas tenho uma neta pequenina e tenho de tomar algumas precauções. Pode ser que amanhã, quando acordarmos deste pesadelo, as mentalidades de algumas pessoas tenham mudado.”

No entanto prepara já um projecto, “gostaria de construir abrigos um pouco maiores, como os que tenho visto, nas Aldeias dos Gatos da Câmara de Palmela, e por isso desafiei as Câmaras de Almada e Seixal para me darem um espaço, que em 24 horas eu construo um abrigo. Já tive pessoas que quiseram falar comigo, até o presidente da Junta de Freguesia de Odivelas está muito interessado.

Em Almada já tenho meio caminho andado, com pessoas que estão a tratar disso. E tenho muita esperança que a Câmara do Seixal aceite e me dê um lugar para criar uma aldeia de gatos, e com isso até se podem evitar guerras entre os moradores e quem cuida dos animais, porque muda logo o aspecto e as pessoas aceitam melhor os animais por perto.”

Daqui a dois anos pensa reformar-se “e nessa altura quero comprar um espaço e criar uma oficina onde poderei ensinar as pessoas que agora me procuram para lhes explicar com faço os abrigos”.

Mas João Batista tem ainda um outro sonho: “queria uma carrinha, equipada com todas as ferramentas e material necessários, uma oficina-móvel, para poder correr o país e construir abrigos onde for preciso”.

Por agora vai trabalhando na oficina improvisada, “e tenho dias que me levanto às seis da manhã e vou para lá, sem fazer muito barulho porque a D. Bárbara e o marido ainda dormem. Não me sinto cansado com isso, porque isto é um hobby, uma diversão e ocupa a mente.

Apenas aos domingos deixo um pouco, porque tenho a minha religião e vou à igreja, almoçar com a minha família e estar com os meus netos.”

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