Orquestra afinada em mau e longo concerto

Esta semana um artigo de Pedro Guerreiro Cavaco, advogado, acerca da actual situação económica e política do país.

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Esta semana um artigo de Pedro Guerreiro Cavaco, advogado, acerca da actual situação económica e política do país.

Passava de carro junto ao Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, e tinha sintonizada a Rádio Observador. Debatia-se na Assembleia da República e comentava-se em estúdio o Estado da Nação.

Face à minha localização, imaginei que, tivesse eu aterrado em Lisboa e ligado o rádio teria ficado com a noção de estar no melhor país da Europa; no melhor país da europa para se viver, com melhor qualidade de vida, com melhores índices de emprego e salários e com o melhor serviço público.

Da boca dos deputados e membros do governo socialistas, que passearam em gala na Assembleia, tudo foram rosas. Mas, o mais aguardado encore, como em qualquer concerto que se preze, estava consignado a Mário Centeno. Ele, como os demais que o antecederam no recital, olhando a pauta, tocaram em sintonia, num discurso sobre os méritos de um governo de contas certas, do défice zero, emprego, turismo, entre outros atributos de um país em pleno crescimento.

Qualquer pessoa acabada de “cair” em Lisboa ficaria em suspenso com esta gritante eloquência de feitos a colocar esta governação nos anais da história.

Sucede que, citando Marcelo Rebelo de Sousa, não há bela sem senão. Não há, de facto.

Direi que só os mais crentes e simultaneamente incautos – perdoarão a frontalidade –  acreditam nos tons emanados por esta hábil pauta socialista.

É que esta ladainha esconde a realidade. O Partido Socialista com o aval das esquerdas radicais transformou o país num país cobrador de impostos como nunca antes fora. De que nos vale alegar que os salários aumentaram, se os impostos também tiveram igual caminho? De que nos vale aferir a folha salarial com mais uns euros ao fim do mês se os mesmos serão torrados em impostos para o Estado?

Nesta óptica, mais valerá ser-se socialista e poucochinho e dizer, com Carlos Carvalhas, que com a poupança do custo dos passes já se poderá fazer um passeiozinho ao fim de semana. É a receita para a alegria generalizada de uns quantos que são e querem fazer dos outros eternos pequeninos.

Por falar em salários, os portugueses recebem mal, direi mesmo miseravelmente, em comparação com os demais países da Europa. E tanto assim é que no rendimento por habitante, entre 2000 e 2018, Portugal foi ultrapassado pela Estónia, Lituânia, Eslováquia, Eslovénia, República Checa e Malta, em termos de rendimento por habitante, face à média europeia.

Vou repetir.  Portugal foi ultrapassado pela Estónia, Lituânia, Eslováquia, Eslovénia, República Checa e Malta.

Quiçá seja agora mais fácil perceber as profundas deficiências e lacunas de um país rosa governado em profundo show-off.

É fácil um Ministro das Finanças, aproveitando a conjuntura económica, a política do BCE e as baixas taxas de desemprego, falar em défice zero e contas certas quando, simultaneamente, o país definha. Por exemplo, nos serviços públicos onde, nesta era esquerdista, se verificou um enorme desinvestimento. Claro está que depois os portugueses se queixam – com enorme razão – que, para tirar um simples cartão de cidadão, terão de pernoitar, qual país terceiro mundista, às portas dos serviços públicos. Não sem antes, todavia, serem criticados pela senhora secretária de Estado da Justiça, note-se.

Retratando este cenário realista e não ficcional como o debate em causa, será o mesmo que um pai de família auferir o seu ordenado, não pagar dívidas, não encher o frigorífico e, por fim, verificar o saldo da sua (má) gestão ficando orgulhoso dos seus números e ignorando as consequências negativas, quer as visíveis, quer as que o serão apenas no futuro.

Assim estamos nós ao som da música socialista, já não de Vangelis.

A música é boa e a festa está óptima. Os convidados, esses, são apenas os próprios músicos e seus familiares, com vista a não destoar da realidade.

Mas, a par, o que dizer da justiça, da saúde, da educação, da habitação, entre outros?

De nada valerá manter as notas em Fá prolongado, na parte em que a musicalidade recita a culpa é do Passos ad aeternum. Melhor será aferir as notas reais e dizer, frontalmente, que a culpa do status quo a que este país chegou é do governo socialista e das esquerdas radicais que o legitimaram.

Se este é o caminho para mais quatro anos, na ficção aqui gerada, será melhor inverter a marcha, desligar o rádio e apanhar o avião para fora.

 

P.S.: Não posso deixar de perceber o momento político do meu partido e antever a enorme fragilidade com que se apresenta a eleições, por atitudes revanchistas que, a meu ver, dificultarão a campanha. A esta data as sondagens dizem que o PSD está com 23% das intenções de voto e o PS perto da maioria absoluta, com 38%, e com possibilidade de pescar à linha, em acordos com PAN, BE e PCP.  A confirmarem-se estes maus resultados será tempo (se já não o foi antes) de arrepiar caminho e dar lugar aos novos, aproveitando o mote actual, para que o PSD rejuvenesça e se torne o partido pujante que foi. #makePSDgreatagain.

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