Opinião

Operação “Rentrée” – a missão possível?

Agosto está mesmo a terminar e a grande maioria dos Portugueses prepara-se para a célebre rentrée, expressão francófona que assinala o regresso da nova estação, com o fim das férias e a retoma da rotina laboral e o regresso às aulas e actividades formativas.

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Há sempre uma certa sensação agridoce, pessoalmente sempre me dividi, nesta altura do ano, entre alguma nostalgia por terminar uma fase de  maior disponibilidade (este ano não coincide, pois não consegui tirar férias nem é algo que se avizinhe no meu horizonte nos próximos tempos) e pela natural motivação de colocar em prática novas abordagens na área profissional e iniciar novos projectos.

Confesso que a criança que há em mim não se sente capaz de resistir aos apelos de marketing dos materiais de escrita do regresso às aulas, há sempre um bom grau de magia e encanto num caderno novo, num bloco de apontamentos com aquela capa simplesmente fabulosa, numa nova colecção de canetas ou num estojo muito giro ( e indecentemente fútil e acriançado) que está a sorrir para nós na prateleira de uma grande superfície comercial.

Este ano, pela situação de pandemia, quebra-se a magia e perdemos o prazer da escolha de materiais escolares para o regresso às aulas e/ou aos escritórios, centros de estudos ou de formação pela apreensão que toda esta crise de saúde pública claramente suscita quer entre os adultos quer mesmo entre os mais novos.

As máscaras tornaram-se um acessório adicional a escolher para a nova época, existem nos mais variados modelos e materiais, certificadas ou não certificadas, mas vieram, infelizmente para ficar e fazem parte integrante do recheio de qualquer mala, mochila ou pasta de trabalho, a par com o imprescindível frasco de álcool gel.

Confesso que um dos meus sinceros receios perante a antevisão de medidas mais apertadas em termos de situação de contingência anunciada para o próximo dia 15 de Setembro é a possibilidade de uso obrigatório de máscara em todos os locais públicos inclusive na rua, mesmo em campo aberto. Se esta medida vier a revelar-se imperativa tenho três opções e sinceramente não sei dizer qual a que escolho no momento em que escreve estas linhas: adopto uma atitude de isolamento crescente numa linha de quase paranoia muito próxima do que fiz durante o Estado de Emergência e que deu mau resultado em termos psicológicos (não me parece viável nem praticável, já que tenho de trabalhar e não me é permitido hibernar nem fazer um retiro espiritual para o meio da floresta); cumpro à risca a determinação e levo uma existência ainda mais miserável, em termos de medo, ansiedade e mau-estar generalizado em termos de saúde física e mental, pois reajo mal ao uso prolongado de máscara e acredito que não seja propriamente benéfica uma vez que tenho problemas respiratórios que costumam agravar-se nesta época do ano que se aproxima; arrisco a fiscalização e sanções que as autoridades entendam aplicar (mas neste caso não sem reivindicar os meus direitos enquanto cidadã num Estado de Direito democrático).

Na minha opinião, impor a máscara em todos os espaços incluindo na rua, na via pública, isto no pressuposto de que continuamos apenas no contexto de situação de contingência (e não em Estado de Emergência) parece-se excessivo, inconstitucional (até porque deve ser casuística a análise a fazer quanto a cada cidadão, na medida em que temos diferenças individuais em termos de saúde, por exemplo, que devem ser respeitadas) abusivo e ostensivamente limitador dos Direitos Individuais e do Direito à saúde, até porque o uso de máscara fora dos ambientes hospitalares e por tempo muito dilatado carece de provas científicas quanto à sua pertinência, adequação e eficácia na prevenção da COVID-19.

É uma decisão que teremos de contar tomar muito provavelmente num futuro próximo.

E o regresso às aulas? Vem surgindo nas minhas reflexões um tema recorrente, como vão as crianças adaptar-se ao uso obrigatório de máscara durante as aulas? Será esta medida eficaz? Ou é apenas a medida possível para tentar compensar o facto de não existirem recursos para desdobrar turmas, e os espaços das escolas é sabido que não esticam por força da magia de Harry Potter?

Não menos pertinente e deveras preocupante, quiçá ainda mais do que o convívio na escola em si, caso seja conseguido o sistema “de bolha” onde as turmas só convivem entre si para mais facilmente controlar qualquer incidência de infecção: não seria pertinente repensar os sistemas de transporte escolar? Não poderia esta incumbência ser devidamente articulada entre as autarquias e a sociedade civil a bem das nossas crianças e jovens? À Conversa com uma amiga e mãe de dois alunos (um do 2º Ciclo e outro a iniciar o ensino secundário) concluímos que era importante assumirmos que existem diferenças entre os meios de que dispõem os alunos e pais. Como tal, assuma-se claramente e sem pudores  o seguinte: nem todos os alunos vivem a dois passos das escolas que frequentam; nem todos os alunos têm acesso a viatura privada (há quem não tenha carta de condução ou que, tendo carta, não tenha veículo automóvel privado); o uso de transportes públicos (em especial com a frequência massiva associada aos períodos de aulas) é reconhecidamente um potenciador de risco de contágio e não serão os operadores privados de transportes a suportar os custos inerentes às necessidades de acréscimo de veículos de transporte colectivo para fazer transportar os nossos alunos.

Possíveis soluções a ponderar: e como bem sugeriu a minha amiga Liliana (o seu a seu dono) os pais organizam uma escala de transporte privada agrupando tanto quanto possível os jovens por famílias e colegas de turma e os pais que não têm veículo comparticipam nas despesas com combustível. Fica também a sugestão de contratar em grupo (com custos reduzidos e diluídos o mais possível) transporte colectivo apto a transportar crianças e jovens (vulgo táxis para crianças).

Outra solução onde teremos de apelar à ajuda das autarquias e outras forças vivas da sociedade política e civil: repensar os transportes escolares e promover uma mini rede de transportes que promova a distribuição dos alunos pelas aulas com transportes próprios das autarquias ou adstritos em exclusivo a este serviço de verdadeira utilidade pública.

Deixo uma nota final à comunidade (e a mim própria) o problema está instalado, vamos ter de aprender a (con)viver com ele, portanto importa começarmos a construir soluções graduais para cada questão.

Quanto às máscaras, veremos o que nos reserva o futuro, mas estou atenta ao movimento “Médicos pela verdade” e na verdade sinto-me constrangida nas minhas liberdades individuais e com muitas dúvidas para as quais não sei a respeita certa ou científica (embora saiba a resposta institucional e institucionalizada e a disparidade de critérios decisórios) vale a pena considerar todas as abordagens das mesmas questões para que possamos tomar decisões em consciência!

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