Olha que coisa mais linda!

Nasceu no meu canteiro. Um pombo. Na verdade, seriam dois, não fosse um dos ovos ter-se partido. A mãe pomba despareceu sem deixar rasto ou aviso. De noite, a tremelicar, peguei na pequena ave que abria o bico. Há falta de melhor, dei-lhe miolo de pão quase desfeito em água morna. Chama-se Piu e é um amigo para a vida. Não há cá essa coisa de os pombos serem pragas – estas aves, banidas pelos citadinos, são extremamente inteligentes e capazes dos atos mais audazes.

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Não acredita? Veja o falecido Sr. Afonso da Lomba, ilustre carteiro da Pampilhosa da Serra que tinha sempre companhia. Os pombos que alimentava seguiam-no fielmente e em 1995, quando faleceu, continuaram com ele. Pousados na sua campa, até não restar mais nenhum dos alimentados. E a Dr.ª Elza? Também os conheceu bem – vivia sozinha perto do Areeiro em Lisboa. Volta e meia era chamada à Câmara de Lisboa acusada de alimentar pombos. Podem continuar a deixar as coimas no correio que os meus herdeiros pagam, respondia invariavelmente. E aproveitava para ensinar as suas tenras estagiárias: têm muito a aprender com eles, não são egoístas como o ser humano, dizia depois de alimentar o primeiro pombo que foi de imediato avisar outros e esses outros, outros e estes outros, outros tantos.

E o meu marido, que em criança alimentou um pombo bebé na Amadora? A ave fazia visitas diárias à família humana e brincava com a Lassie, a cadela que a abocanhava e despenteava. No inverno, era juntas que dormiam. Não, não são uma praga são companheiros e amigos no sentido mais desprendido, sem maquiavelismo.

A verdade é que os pombos fazem parte a identidade cultural de grandes metrópoles e de diversos outros locais, seguramente, não sendo a sua captura e consequente eutanásia prática admissível. Os pombos são animais sinantrópicos, vivem numa situação de comensalismo e por via disso instalam-se em ambientes humanizados para deles poderem beneficiar. Se há muitos, dediquem-se à implementação de pombais contracetivos que é para isso que foram inventados. Não os aniquilem, não impeçam crianças de correr atrás deles, não venham punir aqueles que, sendo mais idosos, os convolaram em seus companheiros e que os alimentam ao final da tarde numa qualquer praça deste país.

E não, meu caro, não – quando cuidados, não são os transmissores das piores doenças, não são o seu pior mensageiro, pelo que devemos todos lutar pela proteção destas aves, devendo exigir perante o órgão autárquico de cada lugar, a tomada de uma posição firme, justa, razoável, com a implementação de pombais contracetivos.

Os pombos reconhecem pessoas e são bem-sucedidos em tarefas complexas – lembre-se do pombo-correio, capaz de entregar correspondência a uma distância de 100 km. O pombo tem uma bússola biológica que lhe permite regressar a casa e como voa em grupo comunica com os seus pares para encontrar a melhor rota para cumprimento do seu objetivo. Têm os seus hábitos, a sua cultura, a sua aprendizagem, a sua família, a sua geração.

A progenitora do pombo que nasceu no meu canteiro já cá não está… mas estou cá eu!

@DR

Venham punir-me com coimas, que os meus herdeiros não vão pagar, enquanto um dia ficarei por certo a repousar eternamente acompanhada de fiéis amigos.

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”.

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