Opinião

Obrigado Marisa Matias

Uma crónica de João Zagalo.

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A eurodeputada Marisa Matias prestou um excelente contributo à sociedade ao partilhar o seu testemunho de ter sido diagnosticada com burnout, sem tabus, numa entrevista ao Observador. Descreve essa fase pessoal difícil desde os sintomas iniciais que sentiu, ao ser obrigada a parar de trabalhar, os efeitos secundários da medicação, até à sua recuperação.
Relata que pouco tempo depois da recuperação, necessitou de autorização médica para avançar com a sua candidatura nas últimas eleições presidenciais. Pessoalmente acho que acabou por pensar mais no seu partido que necessitava de um candidato presidencial e seria difícil apresentar alguém com capital político superior a Marisa Matias. Lembro-me dos debates que teve com Marcelo Rebelo Sousa e Ana Gomes, em que teve uma postura muito cordial, de consenso, sem entrar em confronto e sem exuberância. Politicamente, não lhe correu bem e até Ana Gomes lhe pediu para desistir em seu favor, dado a concordância e cordialidade que pautou nesse debate.
José Miguel Júdice foi um dos comentadores políticos que na altura fez essa análise, criticando a sua performance política nos debates. Contudo, no último programa do seu espaço de comentário, fez um sincero pedido de desculpas a Marisa Matias pelas críticas que lhe fez na altura, após ter conhecimento da causa que tinha contribuído para o menor fulgor político da candidata. Num ambiente nacional tão crispado politicamente, é de elogiar esta atitude.
Portugal é o quinto país no ranking da OCDE em consumo de antidepressivos por habitante. Segundo um estudo publicado este ano pelo site inglês Small Business Prices, Portugal lidera o ranking de países da União Europeia com maior risco de burnout. Numa ida a uma livraria, certamente já observou que nas prateleiras, constam vários livros de auto-ajuda em destaque. É um retrato de um país com graves problemas de saúde mental, que após ano e meio de pandemia, ainda se agravou muito mais.
Foi a primeira vez que um político português no ativo conversou abertamente sobre ter vivenciado um problema de saúde mental. Se na concepção democrática que idealizamos, os políticos são eleitos para ser os representantes do povo, este testemunho só humanizou Marisa Matias. No fundo, não é diferente a grande parte do povo português que num determinado momento da sua vida, foi imperfeito indo abaixo psicologicamente.

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