Opinião

O valor da tua ferramenta

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Morreu a 26 de Dezembro de 2020 Wilson Filipe. O nome talvez não diga nada ao caro leitor, mas ao ver o vídeo que acompanha a noticia da sua morte no Observador, depressa perceberá quem é.

Wilson foi o líder da ocupação da herdade da Torre Bela em 1975, tendo participado num documentário acerca da ocupação da herdade, do qual se retirou este excerto. O vídeo é elucidativo daquilo em que Portugal se poderia ter tornado se, naquela altura, os extremistas de esquerda tivessem tomado o poder. Sob o lema “a terra a quem a trabalha” e “se a classe operária tudo produz, a ela tudo pertence”, o valor da propriedade privada passou a ser relativizado. A páginas tantas, neste pequeno excerto, o homem que não queria entregar a ferramenta à cooperativa diz: “daqui a pouco também aquilo que visto e calço é da cooperativa” ao que Wilson Filipe responde: “isso mesmo”.

Em 1975 os portugueses perceberam o perigo que corriam, o Processo Revolucionário em Curso, ameaçava transformar o sonho da liberdade conquistado um ano antes num pesadelo ainda pior que o anterior, Vasco Gonçalves primeiro-ministro nomeado entre Julho de 1974 e Agosto de 1975 procedeu à nacionalização da banca, dos seguros e de vários grupos económicos, iniciou também as expropriações de herdades no Alentejo, num processo que ficou conhecido como Reforma Agrária. Naquela altura o Partido Socialista tinha um líder, Mário Soares liderou um dos maiores comícios socialistas junto à Fonte Luminosa a 19 Junho de 1975 e exigiu a saída de Vasco Gonçalves e a convocação de eleições. A normalidade democrática seria reposta a 25 de Novembro de 1975, com o fim do PREC e o início do respeito pelo Estado de Direito e a defesa do valor da propriedade privada.

Longe vai o PREC e o ano de 1975, entretanto Portugal entrou na então Comunidade Económica Europeia, o país modernizou-se, o nível de vida melhorou. Aqueles que saíram à rua em 1975 e se juntaram na Fonte Luminosa exigindo liberdade e respeito por aquilo que lhes pertencia e era fruto do seu trabalho talvez estivessem longe de imaginar que em 2021 o seu exemplo seria tão importante. A 3 de Outubro de 2020, Marcelo Rebelo de Sousa promulgou um diploma que permite expropriações mais rápidas e discricionárias, que se deve prolongar enquanto dure o Programa de Estabilização Económica e Social.

Este decreto-lei abriu caminho àquilo que agora ocorre no empreendimento ZMAR, o abuso do Estado na sua relação com os proprietários dos imóveis, chegamos agora ao ponto em que o advogado só conseguiu entrar no empreendimento porque telefonou ao seu Bastonário, e este por sua vez intercedeu junto do Presidente da República. A pergunta que deve ser feita é esta, e se estes proprietários não tivessem condições de pagar um advogado? Até que ponto estaremos disponíveis para relativizar desta forma leviana o valor da propriedade privada?

A direita liberal tem a obrigação de se levantar perante mais este abuso perpetrado por um governo sequestrado pela extrema-esquerda, a direita liberal tem a obrigação de defender um dos seus valores mais sagrados, a defesa da propriedade privada. Se em 1975 os nosso pais e avós tiveram a coragem de se juntar na Fonte Luminosa em defesa da liberdade, temos a obrigação de seguir-lhes o exemplo. A defesa da liberdade não se faz nas redes sociais da moda, mas na rua, e neste caso em Odemira.


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