Opinião

O TRANSE

Uma crónica de Nuno Gonçalves

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Nunca como hoje foi tão fácil gritar ao mundo as nossas ideias, anseios e sonhos. Esta é à partida a conclusão a tirar da democratização do acesso ao digital e dentro deste às chamadas redes sociais.

Puro engano. Nunca como hoje foi tão difícil fazer ouvir a nossa voz. 

Por um lado porque as chamadas redes sociais prometem-nos o mundo mas na verdade poem-nos quase a falar sozinhos ou para meia dúzia de pessoas. A culpa é do famoso algoritmo que não permite devaneios, por outro lado porque a cacofonia de informação, desinformação e contra-informação é de tal forma avassaladora que qualquer ideia que não apele aos sentidos básicos das pessoas se perde no ruido de fundo.

A somar a esta realidade, nunca como hoje foi tão difícil extrair informação confiável da sopa de “notícias” e opiniões que proliferam.

Com o jornalismo tradicional dominado e contaminado por esta lógica, em vez de informação o que temos são guinchos, vómitos e urros mais ou menos intensos, procurando captar a atenção da horda e conduzir a sua percepção através do apelo aos seus instintos básicos.

Exemplo disto mesmo são as audiências dos “reality shows” , dos programas sobre futilidades, sobre futebol e  o massacre diário com que nos brindam todos os meios de comunicação formais e informais, tradicionais ou digitais sobre os supostos números de infectados. Eles não querem, informar, querem fazer-se ouvir. E para isso servem qualquer agenda, menos a agenda do esclarecimento e da cidadania.

A COVID 19 é uma doença grave, mas não é a gripe espanhola, não é a gripe asiática. No entanto, no quadro de percepção que está criado nos cidadãos é o mesmo senão pior.

E assim se justifica tudo ou quase tudo.

A falta de cuidados de saúde, com o cancelamento ou o adiamento sem data, de inúmeras consultas, exames e cirurgias, ou ainda o desaparecimento da rede de cuidados primários, vulgo centros de saúde, transformados em verdadeiros “bunkers”,  impenetráveis para todos os que os demandam com ou sem COVID, 

O descalabro nas escolas, totalmente impreparadas para fazer face a este caos, onde abundam interpretações que vão do permissivo ao autoritário sobre as chamadas regras COVID, que provocam o desespero dos pais e traumas nas crianças.

O caos na justiça onde a grande maioria dos tribunais não tem as mínimas condições para o exercício dessa função primordial de qualquer sociedade civilizada, com julgamentos transformados em  tele-escola ou em espectáculos de variedades, como o caso do julgamento de Leiria é o exemplo mais recente, com gravíssimo prejuízo do interesse publico. E entretanto os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos vão sendo alegremente espezinhados pelo estado.

No meio disto tudo a classe politica mal esconde a sua euforia: vêm aí os milhões de Bruxelas, que, nem de propósito, começa por “B”, convocando a memória histórica do famigerado ouro do Brasil e mostrando que em oito século não aprendemos mesmo nada. Temos tido sorte.

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