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Opinião

O TRABALHO E A ESCRAVATURA

Uma crónica de Nuno Gonçalves.

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Hoje acordei a pensar nas diferenças entre o trabalho assalariado (por conta de outrem) e o trabalho escravo. Podia ter-me dado para pior mas é o que é.

1º Diferença – A vontade

Um trabalhador obriga-se voluntariamente a prestar o seu trabalho, físico ou intelectual.

Um escravo era obrigado a prestar o seu trabalho, sob pena de ser torturado e morto. A sua utilidade residia apenas na sua capacidade e aptidão para o trabalho.

Mas será assim? Vejamos, um trabalhador obriga-se voluntariamente? Isto é, pode não se obrigar? Mas se não se obrigar como sobrevive? De facto o trabalhador não tem verdadeiramente uma escolha, ou presta o seu trabalho ou se condena a uma existência indigna e agonizante, sendo considerado um pária por não querer trabalhar. Portanto esta aparente diferente no poder de escolha do individuo é meramente semântica.

2ª Diferença – A contrapartida

No entanto o trabalhador sempre recebe uma contrapartida em dinheiro que pode gastar livremente, ao passo que o escravo trabalhava de borla.

Mais uma vez é preciso olhar para as coisas com atenção. Um escravo recebia como contrapartida abrigo e comida. Não era muito é certo, mas era condição essencial para que sobrevivesse mais tempo e assim pudesse trabalhar mais.

Um trabalhador recebe uma contrapartida, em dinheiro, mas como o seu salário não está indexado ao valor da utilidade do seu trabalho, é muito inferior, e o trabalhador tem de suprir as suas necessidades básicas e as da sua família. Desta forma não tem alternativa senão gastar o dinheiro em comida, abrigo e mais algumas, poucas necessidades(?) básicas que os tempos modernos criaram.

Portanto, também quanto à retribuição as diferenças são apenas de nomenclatura.

3ª Diferença – A liberdade v/s medo

Ah mas quanto à liberdade já não, porque um escravo não podia ausentar-se do trabalho nem era livre para se descolar para onde bem entendesse. Podia faze-lo com autorização do seu dono ou se estivesse doente, desde que não fosse por muito tempo porque senão deixava de ter utilidade e era torturado ou simplesmente abatido.

Então e o trabalhador pode ausentar-se do seu local de trabalho sem autorização do patrão? Pode desde que esteja doente, ou tenha autorização do mesmo, caso contrário pode ser despedido, o que como acima vimos equivale no nosso tempo a condena-lo à tortura da miséria e mesmo à morte.

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Mas é ainda assim livre para se deslocar para onde quiser fora do seu horário de trabalho. Também aqui um exame mais minucioso nos surpreende. Não só porque, com a digitalização dos processos de produção, se diluíram os horários de trabalho, como também é certo que no mundo urbano em que vivemos as deslocações estão condicionadas pelo seu custo e pelo tempo. Ora, como vimos ao trabalhador comum pouco sobra para gastar em tempo e dinheiro depois de cumprir o seu horário de trabalhos e de suprir as suas necessidades básicas do seu agregado. Assim a liberdade formal de que o trabalhador dispõe fora do seu horário de trabalho é o equivalente à dos presos do Gulag, onde também não havia grades ou vedações.

4ª Diferença – Sonhar

Ah mas o trabalhador pode sonhar. O escravo também podia. E tal como ao escravo, ao trabalhador é prometida a libertação caso trabalhe muito ou atinja objectivos geralmente impossíveis. E realmente em ambos os casos a promessa acaba por se concretizar… nem que seja a libertação da morte.

Mas então somos escravos? Somos…

Mas se assim é porque não nos libertamos, porque não nos revoltamos?

Porque tal como os pássaros criados em gaiolas, somos “educados” desde o berço na doutrina de que o trabalho liberta e dignifica.

Por isso, mesmo sabendo que não é assim, preferimos a segurança do cativeiro que conhecemos à incerteza da liberdade.

Consola-me a certeza de que nenhum cativeiro é eterno e um dia virá em que o peso do jugo será tão insuportável que nada mais nos restará senão a revolta. Até lá continuaremos a alimentar os nossos donos e perseguir em vão a miragem de que se trabalharmos muito um dia seremos livres.

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