Opinião

O Lobo não é mau, mas também não é burro!

Uma crónica de Vera Esperança.

- publicidade -

Uma calúnia! O lobo não é nem nunca foi mau. Um animal de hábitos mais noturnos que diurnos, que uiva à noite em dias sem vento, um carnívoro que teme o ser humano. E com razão, pobre bicho. É perseguido com ferocidade desde a idade média, graças à utilização da sua imagem como símbolo satânico. Imagem tão enraizada que ainda hoje há anciãos que acreditam na sua ruindade e mau presságio. Objeto das histórias tradicionais infantis mais cruéis e de outras mais graúdas, em que o lobisomem faz qualquer um encolher-se no sofá.

Sem esquecer o lobo africano da Etiópia, a terra natal do lobo sempre foi o Hemisfério Norte, sendo talvez por isso hoje avistado de forma muito fragmentada na Europa, América do Norte e América Central. 

Mas o que quero falar-lhe hoje é do lobo ibérico, essa subespécie que faz parte da espécie do lobo cinzento e que está hoje em perigo, sendo estritamente protegida em Portugal, mas que continua a ser alvo de perseguição em Espanha.

A diminuição populacional deste animal diminuiu substancialmente desde os anos 30, década em que o lobo ibérico podia ser visto em quase todo o território nacional. Depois foi escasseando e refugiando-se no norte, região onde atualmente ainda se mantem. Na verdade, apenas 20% da nossa área geográfica é ocupada pelo lobo-ibérico, que vai circulando entre o norte de Espanha e de Portugal, o que prejudica o trabalho de recuperação e monitorização da espécie por parte dos biólogos.

Acresce que se a caça ao lobo é proibida em Portugal, nada obsta a que o maior canídeo selvagem por nós protegido seja abatido no norte de Espanha assim que as suas patas o levem além fronteiras. Embora a lei da caça varie conforme as regiões espanholas em que se aplica, no norte de Espanha é permitido o abate do lobo, sempre que aumenta a sua fome, o que põe em perigo o gado doméstico.

Mas uma notícia recente traz nova esperança – aqui no país vizinho, o lobo-ibérico vai passar a ser incluído na lista de espécies selvagens em regime de proteção especial, deixando os produtores agropecuários infelizes e até um pouco chorões. A Comissão Estatal espanhola para o Património Natural e a Biodiversidade acredita que se deu o primeiro passo para a proibição da caça ao lobo e eu… eu também!

Mas afinal, o que está em perigo: o lobo, o gado doméstico ou o produtor agropecuário? O lobo, enquanto representante de uma natureza selvagem e indomável, ou os animais domésticos e quem os domestica, enquanto representantes da ingerência humana no meio ambiente?

O lobo, como silvestre que é, tem como instinto de sobrevivência a procura de alimento. Na verdade, só ataca o gado doméstico, porque o ser humano afastou ou contribuiu para a diminuição das suas presas naturais, também elas selvagens, como é o caso do javali, do veado e do corço. Se, ao invés, há nas proximidades do seu habitat uma produção anti-natural de animais, dezenas ou centenas de animais presos objeto da mais vil exploração, por que razão há-de ir o lobo procurar alimento noutro sítio? E a ir, encontrá-lo-ia?

Pá, isto é a mesma coisa que ir ao hipermercado em vez de ir à mercearia da esquina. O lobo não é mau, mas também não é burro! Mas, acima de tudo, não tem outra hipótese! Chega a fazer missões suicidas, aproximando-se de tal forma do ser humano que acaba morto. Tudo, porque precisa de se alimentar. Vão condená-lo? Quem se atreve?

O animal não tem escolha, caramba! Portanto o que é preciso é trabalhar para se alcançar uma coexistência entre ser humano e animal selvagem, que pode (e a meu ver, deve!) passar a médio prazo por uma cessação da atividade agro-pecuária e pela reintrodução de espécies selvagens que em muito diminuíram por causa da caça.

Bem, até lá, pode visitar o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, um santuário que recebe lobos que não podem ser libertados na natureza. Portanto, compre o seu artesanato, apadrinhe um lobo ou faça um donativo. Quando terminar o confinamento visite este espaço e conheça in loco um lobo ibérico e sua forma de vida.

Seja qual for a opção escolhida, estará sempre a ajudar quem precisa.

http://www.grupolobo.pt/sobre-o-grupo-lobo/quem-somos

- publicidade -

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”. 

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Permita anúncios

Detetámos que utiliza um bloqueador de anúncios.
Apoie o jornalismo sério e considere desativá-lo para o nosso site.
Saiba como desactivar: carregue aqui