Opinião

O FIM DE UMA ERA

Uma crónica de Nuno Gonçalves

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Perante a catástrofe que se vive num dos sectores mais dinâmicos da economia nacional, o turismo, muitas são as vozes que se levantam exigindo ao estado que subsidie a necessária paragem das empresas do sector – transportes, hotelaria e restauração – como forma de salvar postos de trabalho.

Só que esta solução(?) não resolve problema nenhum. Com excepção talvez dos especuladores imobiliários que vivem à sombra deste sector. Para encontrar a melhor resposta para um problema é preciso ter a coragem de encarar as causas do mesmo. 

Comecemos por fazer a pergunta que quase ninguém ousa fazer, pelo menos publicamente: – porque é o turismo tão afectado pela calamidade que vivemos? E a resposta, por muito dura que nos possa soar, é que vivendo o turismo do movimento das pessoas, foi e é justamente esse movimento de pessoas o responsável pela disseminação pandémica do vírus que agora nos força a parar.

É portanto uma evidência que o turismo de massas (de lazer e de negócios), assente no movimento esdrúxulo e descontrolado de pessoas à volta do mundo, não é, no curto e no médio prazo, sustentável. Podemos até voltar ao passado, mas não tardará a que a próxima pandemia deite novamente ao chão este sector.

É por isso crucial reconhecer que o turismo de massas, como actividade económica, nos moldes em que tem funcionado, está condenado e com ele os sectores conexos, como a aviação, esta última com a agravante de ser extremamente poluente.

Isso significa deixarmos de viajar e de conhecer outros países, outras culturas? Claro que não. Significa apenas que devemos privilegiar um turismo de maior qualidade e sustentabilidade em detrimento da massificação. Menos viagens, melhores viagens, menos dormidas, melhores dormidas, menos restauração melhor restauração, mais diversidade de oferta e menos concentração de pessoas, mais respeito pelo ambiente. Em suma, redimensionar e requalificar.

E o que fazer aos milhares de empregos e negócios que vivem do turismo de massas? É preciso reconverte-los. E para isso o estado deve ter uma estratégia e dinheiro disponível, identificando oportunidades sustentáveis e mobilizadoras e subsidiando o empreendedorismo que mantenha ou acrescente postos de trabalho.

Só assim poderemos salvar empregos e criar riqueza renascendo mais fortes das cinzas em que nos encontramos e menos propensos a ver repetido o cenário dantesco que vivemos.

Subsidiar já, sim porque as pessoas não podem morrer de fome, mas com estratégia e objectivos de mudança.

Se nos limitarmos a subsidiar a paragem apenas iremos encher os bolsos de alguns patrões, alimentar o negócio dos especuladores imobiliários e condenar milhares, que de pessoas, que vivem do seu trabalho, ao desemprego e à miséria como se viu com as recentes medidas de layoff.

Perante uma crise sem precedentes é preciso agir com uma inteligência e clarividência sem precedentes e perceber que ela, a crise, é uma consequência do modo insustentável como vivemos.

Esta pandemia é uma doença das sociedades e das economias assentes no consumo, mas também pode ser uma oportunidade para a cura. Insistir na mesma fórmula é saltar da frigideira para o lume e arriscar o presente e o futuro.

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