Opinião

O COVID-19 DOS MOTORISTAS DE MATÉRIAS PERIGOSAS

Uma crónica de Bruno Fialho

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Em 2019 fui convidado pelo Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas a ajudá-los no conflito que existiu entre eles e a ATRAM, o qual fez parar o país.

Relembro que os motoristas de matérias perigosas reivindicavam, entre outras coisas, por melhores condições de trabalho; o cumprimento dos tempos de trabalho e do descanso semanal; o aumento do valor dos seguros; a exigência de exames médicos suportados pelo empregador e a formação especial com certificação ADR para movimentarem as substâncias perigosas.

Se na primeira greve a maioria dos portugueses ficou do lado de David (SNMMP), na segunda greve, com o governo do lado dos patrões e com uma certa comunicação social a denegrir a imagem dos motoristas, a maioria acabou por ficar do lado do Golias (ATRAM).

Julgo que essa mudança também se deveu às situações pelas quais muitos portugueses passaram nessa altura, alguns porque não puderam encher o depósito de gasolina para ir passear e outros porque os seus negócios foram directamente afectados pela greve dos motoristas de matérias perigosas.

Muitos portugueses podem pensar que o trabalho de um motorista é apenas ficar sentado ao volante de um veículo e ir de lugar para o outro, mas esquecem-se os dias que eles passam sem a família ou sem dormir convenientemente porque têm de chegar a horas ao local de entrega, que por vezes até pode ser noutro país, ou não se recordam daqueles que transportam as nossas famílias diariamente e têm a vida dos nossos entes mais queridos, literalmente, nas suas mãos.

Ninguém devia de poder trabalhar em condições precárias, muito menos aqueles que têm profissões de risco, mas que ainda não foram aprovadas como tal porque os sucessivos governos têm-se interessado mais em dar dinheiro aos amigos banqueiros do que dar aos portugueses o que eles necessitam.

Acontece que, hoje em dia, o Covid-19, os sucessivos erros do Governo na guerra contra a pandemia, a proibição de circulação entre concelhos sem qualquer lógica, os exageros das restrições que existem para o sector da restauração, principalmente no Natal e no Ano Novo, também pararam o país e, provavelmente, fazem os portugueses pensar que as situações que passaram durante a greve dos motoristas é semelhante ao de terem passado um dia agradável na praia.

A pandemia pode ter ajudado a que todos nos tenhamos apercebido que se pensarmos menos no nosso umbigo e mais no bem-comum, a luta por melhores condições de trabalho, seja dos motoristas ou de outros trabalhadores, talvez não tenha de ser travada nas condições em que normalmente o são, porque quando os patrões ou governo conseguem colocar a opinião pública contra quem luta ou cumpre greves, acaba por dar mais força aqueles que são uns verdadeiros Golias.

Mas se antes do Covid-19 os portugueses julgavam que a greve dos motoristas de matérias perigosas tinha afectado o seu dia-a-dia, devo de dizer que algumas coisas ainda continuam iguais para os motoristas de matérias perigosas ou até para outros motoristas, pois são muitos os que continuam a realizar um trabalho diário entre 15 e 18 horas por dia; que são abusados por empresas que os obrigam a realizar cargas e descargas, quando estas deviam de ser executadas por pessoal próprio dessas empresas; ou porque não são pagos por todas as horas de trabalho que realizam em determinado mês.

Assim, espero que de uma próxima vez em que os motoristas de matérias perigosas precisem de ter os portugueses do seu lado, porque as reivindicações deles são mais do que justas, eles não se vejam encurralados  entre patrões e um Governo que apoia as empresas que, posteriormente, são o santuário dos ex-governantes.

Pelas razões acima expostas, considero que o Covid-19 dos motoristas de matérias perigosas ou de qualquer outro trabalhador que reivindica por justas melhorias de condições de trabalho é o português que, devido ao que é passado na televisão ou escrito por jornalistas não isentos, defende aqueles que cometem os abusos laborais em detrimento dos que têm de trabalhar para sustentar a família.

Assim, gostava que um dia os portugueses entendessem que não é admissível haver trabalhadores contra os trabalhadores que lutam por dignidade ou por melhores condições de trabalho ou salários, apenas porque as greves podem causar algum transtorno no seu dia-a-dia.

No dia em que isso acontecer, a correlação de forças entre empregadores e trabalhadores será mais equitativa e as justas reivindicações de quem trabalha passarão a ser efectivamente escutadas e as greves deixarão de ser tão necessárias.

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Desejo um Feliz Natal a todos os portugueses e, em particular, aos meus amigos motoristas.

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