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O contexto meus caros, o contexto!

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Existem frases que nem o contexto lhes retira a mácula. Foi o caso das declarações da presidente da câmara municipal de Almada que numa reunião de câmara (no devido contexto) manifestou uma hipotética vontade de residir no bairro do pica-pau amarelo pois, argumentava, tinha uma vista invejável e esse é, segundo Inês de Medeiros, o privilégio do concelho.

Não sei qual o modelo que a Senhora presidente da câmara defende, mas eu assumo-me frontalmente crítico do modelo português de guetização. É um modelo falhado, que não quebra ciclos de pobreza, antes até os pode agravar. E por isso, mesmo com o devido contexto, não é um privilégio Almada ter bairros sociais com vistas invejáveis, privilégio era mesmo não existirem bairros sociais em Almada.

 Mas dado que estes ainda existem e segundo costa até têm uma bela vista, é pena que realmente esta vista magnífica não possa ser apreciada pelos residentes do bairro do pica-pau amarelo. Talvez porque Almada lhes sirva unicamente como dormitório, e passem o dia inteiro, muitas das vezes com horários desumanos, a trabalhar do outro lado do rio.

 É pena que estas pessoas não possam apreciar devidamente a paisagem porque na casa onde residem são mais as distrações com o frio que se faz sentir ou com as infiltrações que não dão tréguas do que propriamente uma paisagem magnífica que tenha um efeito anestésico sobre as intempéries.

É pena que não possam apreciar esta vista magnífica com porque a insegurança do sitio onde moram não permite a que estejam verdadeiramente tranquilos.

Porque a localização privilegiada dos bairros sociais de Almada pode-lhes conferir uma boa vista, mas não confere nem proporciona aquilo que deveria proporcionar, não proporciona em muitos dos casos uma vivência pacífica, uma habitação condigna, uma estabilidade pessoal e familiar e isso deve-se precisamente ao contexto em que estão instalados.

Se Inês de Medeiros se apressou a desculpar as suas declarações com base no contexto em que as mesmas estavam inseridas, também se deveria ter lembrado que pese embora as vista seja fantástica há um contexto que não o é! E aqui sim estamos de acordo, o contexto importa muito.

É pena que esta discussão se esgote no acessório e que mais uma vez os problema dos bairros sociais na margem sul fiquem se vão arrastando pelo tempo.

É pena ver aqueles com responsabilidades acrescidas nas questões da gestão dos bairros sociais sejam os primeiros a querer retirar dividendos políticos daqueles que já pouco têm.

É pena ver que o PCP, o PS e o BE, que tiveram e têm responsabilidades acrescidas nesta matéria, têm mais habilidade e vontade para colocar as suas máquinas de comunicação em funcionamento do que impulso dinâmico para resolver de uma vez por todas esta problemática.

É triste ver que os bairros sociais tendem a servir para vender manchetes mais do que para dar uma habitação condigna àqueles que precisam.

E por isso hoje não estão isentos de responsabilidade aqueles que se apressaram a entupir redes sociais com os excertos desta reunião pública, não estão isentos aqueles que se preocuparam em reagir o mais rapidamente em busca de frutos autárquicos no futuro.

Mas mais uma vez, o contexto importa. E o contexto daqueles que se apressaram a transformar a sua ambição por um lugar no executivo, o contexto daqueles que não fizeram uma introspecção antes de se pronunciarem é muito desfavorável.

A maioria destes, teve ou tem responsabilidades governativas ou autárquicas. A maioria destes, é cúmplice do estado da arte no que concerne aos bairros sociais na margem sul, a maioria destes não fez nem tenciona fazer nada para alterar este paradigma.

E no meio desta embrulhada de contextos quem sai esquecido? Os que têm uma vista privilegiada.

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