Opinião

O ataque à fruição e criação cultural

Uma crónica de Miguel Dias.

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Historicamente o país sempre apresentou um saldo da balança comercial negativo. Essa tendência tinha começado a ser invertida na segunda década deste século, muito devido à crise económica que nos assolou, tendo o ano passado voltado à sua “normalidade”. Mas parece que existe uma área em que somos auto-suficientes e que poderia de alguma forma ajudar a equilibrar o saldo da balança comercial caso apostemos na sua exportação. Falo de recursos humanos.

Num passado recente, o país assistiu à fuga dos cérebros para economias mais prósperas e onde foram reconhecidas e valorizadas as suas valências. A classe de trabalhadores de enfermagem foi particularmente atingida. Estes trabalhadores pareciam não encontrar enquadramento numa economia degradada e enfezada que os condenava à precariedade eterna. A realidade veio depois provar que o país não tinha pessoal de enfermagem a mais. E isso foi constatado mesmo antes desta pandemia nos ter assolado.

No entanto, desde há um ano, verificámos que existem funções específicas em que estamos claramente em superavit. Falo, como é óbvio, de epidemiologistas e de juízes, que enchem os espaços de opinião e as caixas de comentários da redes sociais em exercícios de um “achismo conspirativo” onde dificilmente se encontra lógica, mas que resistem ao desmantelamento fundamentado com a famosa máxima “esta é a minha verdade”, achando-se no direito de a divulgar da forma como melhor entenderem escudados na liberdade de expressão.

Mais recentemente deparámo-nos com uma nova função em que estamos bem apetrechados – os críticos de arte. Estes pululam pelas redes sociais, onde encontram terreno fértil para plantar as suas considerações simplistas e pragmáticas, nas quais é comparado o incomparável e terraplanada qualquer ideia de necessidade ou prazer na fruição cultural por parte do povo, assistindo deleitavelmente ao germinar de teorias com a consistência duma gelatina. O concelho de Montijo tem sido particularmente pródigo neste particular.

O anúncio de colocação de esculturas no espaço público do concelho tem sido alvo de ataques e cerradas críticas na intervenção cidadã, que hoje em dia ganha dimensão nas redes sociais. É natural que uns possam estar contra e outros a favor destas iniciativas. E também o debate sairá enriquecido se essas posições forem devidamente fundamentadas, colocando a questão do gosto pessoal em segundo plano, pois o sentido estético de cada um e do que nos apraz à vista nem sempre é condizente com as exigências técnicas e complexidade que o objecto artístico pode encerrar. Mas não me parece sensato ou sério que se coloquem nos pratos da mesma balança a gestão do espaço público ou a manutenção de infraestruturas essenciais para a população de um lado e a fruição cultural e criação artística do outro. Quero com isto dizer que ninguém põe em causa, muito menos os artistas, a necessidade de limpeza e higiene urbana ou das obras urgentes nas escolas. A equiparação de temáticas em paralelos sem nexo aparente, ou com ligações frágeis, servem apenas para incendiar um debate que se faz de forma mais apaixonada do que racional, seguindo as normas do populismo, que aparenta estar na moda, surfando a onda da constante indignação.

Mas a prática de secundarização ou protelamento de situações primordiais por parte da gestão camarária montijense não é, nem nunca foi, derivada duma primazia dada à área cultural. A realidade é que muito antes de serem anunciadas estas esculturas os problemas já subsistiam. Sou totalmente insuspeito para falar nesta matéria, pois quem me conhece ou acompanha as singelas reflexões que vou partilhando, sabe que sou crítico da condução errática e reactiva dos destinos do município e, principalmente, da conduta do presidente de câmara. As falhas recorrentes no quotidiano concelhio são ainda mais graves num município que faz gala de divulgar a sua perfeita saúde financeira. Perante este quadro, só uma clara incompetência da Câmara Municipal pode justificar o défice na gestão corrente que lhe é exigida. Passe isso por limpar uma rua ou fazer obras numa escola. Mas a fruição e criação cultural, prevista no artigo 78.º da Constituição da República Portuguesa, prevê que compete ao Estado, em colaboração com os agentes culturais, assegurar o seu acesso universal.

Uma sociedade que não aposta na área cultural e que não dignifica os seus artistas, identificando estes como párias ou de viver à custa dos contribuintes é uma sociedade pouco evoluída e que não valoriza o pensamento livre, crítico e abrangente da cidadania, logo uma sociedade em que o conceito democrático não foi totalmente assimilado.

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