Opinião

Nobre povo de uma nação a caminho de ser valente

Uma crónica de Vera Esperança

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Oh, lá, lá…. Querem ver que o PAN vai conseguir? Levante-se da cadeira e dê uma ajudinha, oh faz favor. Sim, o PAN volta a insistir na aprovação da medida que põe fim à possibilidade de menores de idade assistirem a eventos bárbaros. E depois vem a protoiro (quem?) dizer que a medida é inconstitucional. Não são capazes de melhor argumento? O quê? É só isso? Inconstitucional? Então também é inconstitucional a existência de peliculas cinematográficas de acesso interdito a menores de 18 anos? Os filmes do Quentin Tarantino são cultura, ou não são? Não são? Ora essa…

E depois essa tal de protoiro (quem?) ainda tenta enganar os cidadãos fazendo referências à Declaração Universal dos Direitos das Crianças e à ONU, que os meninos e as meninas têm o direito a participar na vida cultural e artística e o caraças. E que tal dizerem toda a verdade? Quando as crianças são expostas a eventos violentos ficam em risco, existindo inclusivamente um alerta das Nações Unidas que vai nesse sentido, embora sem efeito vinculativo (ainda!).

A verdade é que o Comité das Nações Unidas para os direitos das crianças quer que Portugal acabe com esta macacada, ou deverei dizer, com esta tourada. Menores de 18 anos não podem ou devem assistir a eventos que podem ser traumáticos. E isto não é de agora, não senhor. Já correram anos em cima desta recomendação da ONU à qual Portugal faz ouvidos vergonhosamente moucos, pelo que estou desde já disponível para pagar uma limpeza auditiva com carácter de urgência no melhor otorrino do país. Irra! Há coisas que custam a mudar, coisas como o dinheiro que vai pingando nos bolsos de quem não o merece e à custa do sofrimento animal.

A ONU divulgou um relatório a 5 de fevereiro de 2014 onde aconselha o nobre povo a aprovar legislação que impeça crianças de participar em touradas por, e cita-se, estar preocupada com o bem-estar físico e mental das crianças envolvidas em treino de touradas, bem como o bem-estar mental e emocional das crianças enquanto espetadores que são expostas à violência das touradas. É que para sermos uma nação verdadeiramente valente temos de fazer alguma coisa, ao estilo, por exemplo, de acabar com interesses fúteis, violentos, medievais, bárbaros, despiciendos de qualquer interesse e, acima de tudo, com a protoiro (quem?). Vamos lá, se eles fossem mesmo mauzões e coisa e tal, não cortavam as pontas dos cornos ao animal antes de irem para a arena com eles, nem tão pouco investiam em lantejoulas, rendilhados e mais não sei o quê. Não tenham medo.

A protoiro (quem?) acredita que esta medida nunca vingará no parlamento, mas se vingar irá reagir com todos os instrumentos legais. Mas então, em que é que ficamos? Acredita ou não acredita? É que se abre a hipótese de reagir contra a medida, é porque acredita um bocadinho nela. Vá lá, admita, um bocadinho, não é? Vá, não seja assim. Tem de aprender a ser um bom perdedor. Ou não lhe ensinaram isso na escolinha? Ah, bom, pois, estava a aprender a cortar as pontas dos cornos e perdeu essa aula. Compreendo. Sim, compreendo, mas não aceito, ok? Que não exista qualquer dúvida que nunca estaremos de acordo.

Agora vou dar-lhe mais uma dica – sabia que nos cartazes que anunciam eventos tauromáquicos deve constar a advertência expressa que a sua assistência pode ferir a sensibilidade das pessoas mais sensíveis? E quem são os mais sensíveis, quem são? Sempre que vir um cartaz desta natureza sem a advertência que lhe referi faça queixa na Inspeção Geral das Atividades Culturais – são menos 5.000€ nos cofres – Toma lá!

E por acaso saberá também que existe um Parecer da Ordem dos Psicólogos de junho de 2016 sobre o impacto psicológico da exposição das crianças aos eventos tauromáquicos que esclarece, e transcrevo, quando as crianças assistem a uma tourada podem interpretá-la como uma forma de violência (e uma violência real, embora limitada à arena) que ocorre numa relação explicável como desigual (uma vez que é perpetrada pelos homens em animais coagidos a estarem presentes) e que tendencialmente serve apenas o prazer de uma das partes. O comportamento lido como agressivo que observam nas touradas recebe um aval social forte, podendo ser visto como apropriado e tolerável (e portanto, repetível ou perpetrável noutras circunstâncias). Traduzindo numa frase: crianças expostas a atos violentos podem vir a considerar normal a violência e ser violentas no futuro.

Mas também temos o revês da medalha – ora veja como continua o Parecer: Em termos gerais, a reacção das crianças à observação de um animal a sangrar devido a golpes infligidos pelo homem é em primeiro lugar de rejeição, desconforto e medo. Assistir a uma tourada pode também deixar as crianças mais curiosas, indiferentes, aborrecidas ou fascinadas. Muitas crianças protestarão e recusar-se-ão a continuar a ver, podem chorar. O culminar do espectáculo na morte do touro (mesmo que não seja na arena, mas do conhecimento da criança) pode perturbar ainda mais algumas crianças. Traduzindo numa frase: crianças sensíveis ficam perturbadas e traumatizadas.

Em sequência, e ainda com recurso ao Parecer, as crianças que testemunham abuso animal têm maior probabilidade de desenvolver problemas comportamentais, dificuldades académicas, comportamento delinquente e correm maior risco de abusar de substâncias.

Meu amigo, os interesses das crianças são superiores aos da fruição cultural e os direitos primários dos animais reconhecidos pelo nosso ordenamento jurídico devem prevalecer sobre os direitos culturais. Que lei natural concedeu à protoiro (quem?) legitimidade para pensar que o animal é sua propriedade?

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”.

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