Opinião

Nesta mesa jaz um ser que outrora foi vivo

Uma crónica de Vera Esperança

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Não é só em Portugal que existe o hábito de se por um peru em cima da mesa da consoada.

Milhões destas aves são mortas em todo o mundo com pouco mais de 2 meses de vida. Dois meses… quando, em média, podiam viver uma década. Por cá, são abatidos 5 milhões de perus, número substancialmente incrementado na época natalícia.

Antes de serem abatidos, passam fome para que se proceda ao esvaziamento gástrico. Depois, são engaiolados, comprimidos em gaiolas, onde viajam em camiões até ao matadouro.

Estou a falar-lhe de aves que vivem em família e que são extremamente sociáveis: aves cujas mães ensinam inocentemente as suas crias a defenderem-se de ameaças várias e a alimentarem-se sozinhas. Mas por maior que seja a força de uma mãe, como pode uma ave vencer a batalha da vida, quando sobrevive rodeada de seres humanos que numa visão puramente utilitarista das suas vidas, insistem em lhes por um termo miserável e degradante?

Ao invés, quando criadas em regime intensivo, a sobrepopulação é tão elevada, que os bicos destes animais são cortados com um lâmina quente para se evitarem atos de canibalismo e de extrema violência. As aves ensandecem!

A industrialização destas aves mantém-nas num confinamento permanente à razão de 0,3m2. A alimentação que lhes é fornecida tem por objetivo único a maior e mais rápida engorda, até não mais conseguirem suportar o peso do próprio corpo. Talvez por isso não existam poleiros nestas explorações intensivas…

Também aos perus, tal como muitos outros animais, é negada a reprodução natural – existe uma criação seletiva por inseminação artificial para que os peitos destes animais assumam tamanhos gigantescos. Para isso, estas aves consomem antibióticos e hormonas de crescimento, bem como rações em jeito de canibalismo, já que contêm restos e subprodutos de outras aves. Desta sobrevivência de uma miséria atroz, advêm doenças respiratórias, cardíacas e outras maleitas.

A carne que consume, acredite, não é saudável.

Já no matadouro, os perus de peso exacerbado são presos pelas patas (metatarsos) numa linha de transporte rotativa, ao estilo de um tapete rolante. De cabeça para baixo e cheios de medo, passam por tinas com água eletrificada para, dizem, serem atordoados com o objectivo de minimizar a dor. Minimizar… os que o são, porque há outros que ao debaterem-se em completo desespero, acabam por escapar à primeira fase da morte. E outros ainda conseguem sobreviver à segunda fase onde são sangrados com um acutilante corte na artéria carótida e nas veias jugulares. Os mais resistentes chegam vivos à terceira etapa, porque o mercado está à espera deles e não há tempo para sangrarem por completo. Mas nesta ultima fase, já não há qualquer possibilidade de continuarem vivos: são imersos em tanques de água em ebulição a 52.ºC para facilitar a remoção das penas. Por fim, vem a evisceração.

Que linda história de natal.

Nesta quadra natalícia, quando vir um destes perus em cima da sua mesa, lembre-se do que lhe fizeram, lembre-se do sofrimento que representam, lembre-se que ali jaz um ser outrora vivo, que tinha interesse em se alimentar, defender-se, ser livre e constituir família. Lembre-se da agoniante vida a que foi sujeito e da bárbara morte a que foi sujeito e recuse-se a compactuar com este negócio, com esta violência.

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”.

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