Opinião

Não sei por onde vou! – Pelo Direito a discordar e a opinar (sem ser ofendida)

Uma crónica de Isabel de Almeida

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O contexto em que hoje nos movemos, em especial face ao início de mais um Estado de Emergência Nacional entre os dias nove e vinte e três de Novembro deste fatídico ano, a forma como é feita a selecção e comunicação de medidas de combate à pandemia em Portugal e o modo como estas medidas são acolhidas pelos Portugueses, bem expressa e visível aos olhos de muitos pelas redes sociais, que são agora verdadeiras assembleias do povo (goste-se ou não, a vida na rede é cada vez mais incontornável) demonstra bem que, no essencial continuamos a ser aquele pais de brandos costumes na parte que, maioritariamente, consideramos que temos o dever de obedecer cegamente e sem direito a discordar ou contestar mesmo as decisões mais disparatadas e que atingem directamente os nosso Direitos mais essenciais e que até à pandemia tínhamos por inquestionáveis e impossíveis de qualquer retrocesso.

Fiz um esforço para encontrar mais um tema positivo para convosco leitores partilhar, mas confesso-me impotente esta semana para colocar os “óculos cor de rosa”, pois estaria a anular a minha identidade. Assumidamente, sou contra sistema sempre que este colide com os meus valores, com os princípios em que acredito, e com o meu sentido de justiça, equilíbrio e equidade.

Talvez ser jurista não seja indiferente a esta minha postura habitual, talvez ser uma adepta incondicional e filosofia e história e prosa e poesia não sejam pormenores despiciendos para justificar a minha necessidade de pensar, analisar criticamente e pela minha própria visão a realidade com que sou confrontada, mas como humana que sou nem sempre consigo colocar um filtro no meu cérebro e adoptar por mecanismo de defesa a negação e o fingir que está tudo bem, que concordo, que acredito nas instituições, nos números, nas decisões e no potencial de benefício das mesmas que possa justificar perder Direitos.

Face às medidas em vigor nos famosos 121 municípios de maior risco de contágio, tendo eu a infelicidade de viver num deles e logo em meio rural, perante o recolher obrigatório nas tardes de fim de semana não posso calar-me acenar a cabeça e dizer que sim senhor, que já tarda, que as pessoas têm de ser sensatas e nem criticar (disseram-me isto hoje em pleno Facebook e no meu perfil) e que faz todo o sentido e que é melhor estar preso a casa do que a um ventilador (argumento muito recorrente para quando não existem outros argumentos mais objectivos) – meus senhores, o melhor o ideal é não estar preso nem a uma coisa nem a outra!

Sei que existem muitas variáveis em jogo, que não há milagres, que nada é perfeito e que o governo não tem uma varinha mágica capaz de resolver o problema num ápice. Aceito que me apresentem contra argumentos lógicos, e aceito debater de forma educada e civilizada respeitando a opinião de cada um (todos somos diferentes) agora não posso evitar pensar criticamente no tema , nem posso aceitar que me digam aceita, cala-te e não te atrevas a criticar, porque criticar e pensar ainda são dois direitos que não foram suspensos nem limitados em Estado de Emergência.

Considero estar em construção uma verdadeira “ditadura sanitária” seja ela consciente ou inconsciente, é também inegável que o que faz mal a tantos beneficia outros financeiramente (imaginem as receitas do retalho em grandes superfícies, dos produtores de equipamentos individuais de protecção – já agora devia tudo ser maioritariamente de produção nacional, ao menos isso) mas arrogo-me o direito de pensar de opinar e de apontar soluções (não assumo que sejam as certas e não são formulas mágicas mas derivam da minha experiencia, do meu olhar sobre as coisas e são resultado da minha reflexão pessoal e inalienável).

Ora vejamos, recolher obrigatório aos fins de semana de tarde vai potenciar vários prejuízos, a meu ver: primeiro vai concentrar em duas manhãs as pessoas que se dividiam pelas comprar em grandes superfícies durante todo o fim de semana e tal ajuntamento vai propiciar o contágio que se pretendia evitar se fosse respeitada a individualidade de cada pessoa; os pequenos negócios vão entrar em insolvência (a restauração já debilitada que fez um enorme esforço para se adaptar no inicio da pandemia com recurso ao Takeaway vai em muitos casos encerrar portas, pois há locais, em especial em zonas rurais ou do interior, que o fim de semana é o período onde vendem mais e assim ficam sem chão). Todo o comércio tradicional e familiar fica em sério risco de sucumbir à crise numa morte mais do que anunciada. O desemprego aumentará, já há quem não tenha como sustentar cabalmente as suas famílias e aqui vem o golpe final. As pessoas que querem contornar as normas vão continuar a conseguir e se calhar porque têm de se esconder vão fazer pior ainda (estou a imaginar às sextas feiras os grupos de jovens a migrar para a casa de um deles onde pernoitam durante todo o fim de semana, no estilo habitual de convívio dos mais jovens, mas que terá certamente excepções).

Seria importante ter uma válvula de escape mental, depressão, ansiedade e medo não fomentam bons trabalhadores, nem bons patrões, bem bons alunos, nem bons professores.

E reduzir transportes a quem precisa de se deslocar para o trabalho não me parece justo nem equilibrado. As pessoas que trabalham por turnos e dependam de transportes como vão deslocar-se se estes estiverem suprimidos em horários nocturnos?

Alternativas possíveis: colocar os alunos do terceiro ciclo em diante em ensino online (não é perfeito mas creio que aqui também a saúde de sobrepõe à educação), dar aos pais e encarregados de educação o direito de escolha sobre o ensino dos filhos (estar em casa em ensino doméstico ou perder um ano será assim tão dramático face ao contexto?). Fomentar os transportes públicos para que sejam garantidas medidas de etiqueta sanitária (colocar alunos em casa ia reduzir a lotação dos transportes) e nem adianta relembrar o Senhor Ministro da economia, porque é inegável que é perigoso andar de transportes públicos em Portugal. Racionalizar o funcionamento do pequeno comércio sem optar pelo mais fácil, a restrição de horários (o Takeaway mostrou-se seguro e eficaz e resultou numa primeira fase).

Não tenho uma fórmula mágica, mas também porque cumpri e me sacrifiquei não quero estar presa e condicionada sem justificação, pois a saúde mental também tem de ser cuidada e não ajuda nada termos assistido a dualidade de critérios de permissão e proibição (aliás, parece que há um comício entre este estado de emergência e o próximo, aquele que certamente nos vai prender no Natal, e o ainda há Natal em muitas famílias).

Peçam-me tudo, menos para ficar calada, passiva, apática a aceitar tudo o decidido sem pensar só porque temos de ser meninos bem comportados, ou então somos perigosos negacionistas, irresponsáveis, loucos, assassinos, fascistas, extrema esquerda (tudo mimos com que são brindados os que discordam do establishement ).

Para fazer pensar partilho um dos meus poemas preferidos, com o qual sempre me identifiquei. Arrisco com este artigo voltar a ser ofendida e humilhada mas que sobre a poesia, que sempre tem mais liberdade do que a minha prosa:

de José Régio:

Cântico Negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom se eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis: “vem por aqui”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis machados, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

— Sei que não vou por aí.”

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