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“Não é o género que conta mas sim a vontade e o empenho de cada um”

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Entrevista à piloto portuguesa Elisabete Jacinto, natural do Montijo e também a primeira mulher a vencer o Africa Eco Race.

A Elisabete era professora. O que a levou a deixar a profissão e agarrar-se ao desporto?

O desporto surgiu na minha vida como um hobby. Comecei pelos passeios, depois passei a fazer corridas de moto e, a certa altura, veio o desafio do Dakar. Tentei uma vez e correu mal. Tentei uma segunda e voltou a correr mal. Aí percebi que tinha de me dedicar em pleno na preparação da prova. Por essa razão, fiz a opção de pedir uma Licença Sem Vencimento na escola e passei a dedicar-me a tento inteiro ao desporto. Notei então uma grande diferença nos resultados, percebi que conseguia pensar em todos os detalhes e preparar-me melhor.

Depois de ter conseguido ter sucesso no Dakar ainda voltei à escola mas, entretanto, comecei a fazer corridas de camião e as duas actividades eram incompatíveis. O camião exigia muito de mim pois passei a ter também de fazer a gestão da equipa e do trabalho da oficina. A exigência em termos de tempo era de tal modo grande que optei por voltar a abandonar a escola e encarar o meu projecto desportivo de uma forma muito séria.

 

Começou na categoria das motos, passou pelos carros e acabou na dos camiões. Onde se sentiu mais confortável?

Ponho as motos e os camiões em primeiro plano… mas acho que cada um teve a sua época. Adorei fazer corridas de moto, mas a exigência física era enorme e a probabilidade de queda era constante. Conduzir bem um camião dá um gozo enorme. Não temos o problema da limitação física, do frio, da fome mas temos outros problemas igualmente grandes… eu diria, à dimensão do camião. Mas com este raciocínio chego à conclusão de que, se a pergunta é onde me senti mais confortável, a resposta é: foi com o camião. Adoro conduzir o camião nas pistas do Deserto!

 

“O meu ponto máximo foi, sem dúvida, a última corrida que fiz, o Africa Eco Race em Janeiro de 2019”

 

Sabemos que é impossível, mas qual foi a corrida em que mais perto esteve de atingir a perfeição?

É um facto que fui fazendo progressos como piloto, fui sempre melhorando… o meu ponto máximo foi, sem dúvida, a última corrida que fiz, o Africa Eco Race em Janeiro de 2019. … mas mesmo aí, percebi que ainda estava longe da perfeição, ainda tinha umas coisinhas a aperfeiçoar!

 

O que representou para si ser a primeira mulher a vencer o Africa Eco Race?

Representou muitas coisas, uma conquista enorme sobre mim própria que, para além de tudo me permitiu provar que não é o género que conta mas sim a vontade o empenho de cada um. Representou a vitória de uma equipa pequena mas muito dedicada e empenhada que trabalhou sempre muito e com poucos meios. Uma grande conquista em termos de gestão de equipa que não é uma tarefa nada fácil. Significou também uma aposta ganha em termos de marketing feita pelos meus patrocinadores e isto, em Portugal, vale muito.

 

Falhou a competição em 2020, o que aconteceu?

Tinha tudo preparado para participar com uma nova estrutura e um novo patrocinador mas, no último momento, percebemos que esse patrocinador ainda não estava preparado. Então o projecto ficou adiado.

 

“Se tivesse nascido homem e tivesse tido o mesmo projeto de vida, tudo teria sido mais fácil”

 

Já se sentiu prejudicada no desporto por ser mulher?

Claro que sim. Enfrentamos constantemente uma mentalidade (comum a homens e mulheres e que é fruto da nossa educação) a qual é marcada por estereótipos de género. Se tivesse nascido homem e tivesse tido o mesmo projeto de vida, tudo teria sido mais fácil, teria tido reconhecimento mais cedo e uma maior projeção. Assim, tive sempre que lidar com o descrédito. Foi preciso ser a primeira a cortar a meta do maior rali do mundo para que as pessoas dessem conta de que, afinal, a Elisabete é um bom piloto. Lá diz o ditado: “Mais vale tarde do que nunca!”

 

O futebol é talvez o desporto onde existe a maior discrepância de ordenados entre homens e mulheres. O que acha sobre isso?

Em primeiro lugar acho que o futebol masculino está sobrevalorizado.  Vivemos numa sociedade que não valoriza o desporto. Valoriza apenas o futebol. O desporto é um bem, um beneficio enorme para a formação e educação dos jovens. Com o desporto adquirem-se competências de uma forma espontânea que nos são úteis para toda a vida. Um jovem que pratica desporto de uma forma empenhada é sempre um melhor profissional quando adulto. Mas, infelizmente, os nossos decisores não têm a noção do real valor do desporto. Para além disso, os meios de comunicação não fazem uma boa divulgação das várias modalidades e não ajudam as pessoas a conhece-las e entende-las. E, claro, não podemos gostar do que não conhecemos. Os nossos campeões são completamente desprezados e acabam por abandonar as suas modalidades cedo por falta de meios.

 

 “Porque não se dá o mesmo destaque a homens e mulheres nos meios de comunicação social?”

 

Em segundo lugar o futebol prova-nos o quanto a nossa sociedade está longe de atingir a igualdade de género… em todas as áreas. Há mulheres que gostam de afirmar que há uma perfeita igualdade de género, que as mulheres só não fazem se não quiserem. A verdade é os obstáculos estão cruelmente escondidos nas subtilezas. Neste caso, aventuro-me a opinar que as mulheres no futebol ganham muito menos porque não enchem estádios. Então e se os meios de comunicação lhes derem o mesmo destaque que dão aos homens? Provavelmente os estádios encher-se-iam e os clubes teriam receitas em duplicado! A questão é: então porque não se divulga o futebol feminino?  O que nos impede de dar o mesmo destaque a homens e mulheres nos meios de comunicação social?

 

Quais são os projetos para o futuro? Pretende continuar na modalidade?

Continuar ou não a participar em corridas depende de ter ou não uma marca que se interesse pelo meu projecto. Confesso que gostava muito de continuar. Aprendi muito e acho que é um desperdício não se tirar partido de tudo o que aprendi ao longo destes anos. Sou a única mulher a nível mundial que o fez até agora… e isso tem o seu valor. Para além das corridas ainda não estou muito segura do rumo que quero seguir. Neste momento tenho em mãos um projecto de Banda Desenhada que já está a chegar à sua fase de conclusão e estou a fazer uma Pós Graduação na área da Psicologia.

 

“Trabalhei estes anos todos pelo meu desafio, para conseguir fazer o que ninguém acreditaria que seria capaz”

 

Como se sentiu ao receber a Medalha de ouro do concelho do Montijo?

Significou o reconhecimento da minha gente. É um facto que trabalhei estes anos todos pelo meu desafio, para conseguir fazer o que ninguém acreditaria que seria capaz. Consegui-lo, para mim foi suficiente. Contudo, com este tipo de distinção recebemos também a mensagem de que as pessoas estão do nosso lado, que nos apoiam, e isso é muito bom. Não horas difíceis estes gestos, guardados na nossa memória fazem a diferença e permite-nos ir buscar força quando pensamos que já não a temos.

 

Mudaria alguma coisa do que fez ao longo da sua carreira?

Enquanto piloto de moto não tive a percepção de que poderia fazer uma carreira desportiva. Se tivesse tido essa noção teria investido na minha carreia mais cedo e teria feito melhor. Dou-lhe um exemplo, só tive um preparador fisico na preparação dos dois últimos Ralis Dakar que fiz de moto. Até aí, andava a treinar sozinha nos ginásios e claro, por muito que me esforçasse, não tinha conhecimentos para fazer bem e a minha preparação física não era a melhor.

Para além deste aspecto, todos os erros que cometi resultaram do facto de ter de gerir uma verba demasiado curta para as minhas ambições.

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