Rubrica

Mitos e Estigmas sobre a Adoção

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A adoção de crianças, desde a espera, à construção da vinculação, aos desafios da  parentalidade  por esta  via,  constitui uma  das minhas áreas preferenciais de atuação, enquanto terapeuta familiar.

Como mãe, lido há quase 11 anos com os preconceitos e curiosidades que rodeiam esta decisão consciente de maternidade. Quem decide adotar enfrenta um longo processo de seleção e uma espera, tendencialmente demorada, de acordo com o perfil de criança a adotar. Enfrenta também o estigma da infertilidade, apesar de cada vez mais pessoas optarem pela parentalidade por via da adoção, enquanto primeira escolha e não como último recurso, após anos de tratamentos.

Para os mais distraídos, infelizmente muitos, gostaria de recordar que:

-Adotar não é sobre caridade, nem sobre boas pessoas é sobre desejo de ser mãe e pai;

-Adotar é uma forma legítima de construir vínculos de filiação, de construir famílias, enquanto ato voluntário e consciente;

-As famílias constituídas por via da adoção são verdadeiras, têm pais e mães verdadeiros e irmãos verdadeiros;

-O “sangue” e a partilha de código genético não gera afeto;

-A base de uma família é o amor, o respeito e a vinculação. Nas famílias, os elementos que a constituem não têm que ser parecidos fisicamente, algo que os manuais escolares teimam em sugerir e em reforçar, nomeadamente os de Estudo do Meio, no 1º ciclo;

-Os elementos de uma família partilham sentimento de pertença com base na interação, de qualidade, no vínculo, na sua personalidade, nos seus gostos e interesses. A parentalidade exerce-se na relação, não vem inscrita nos genes;

– Respeite  a  privacidade  das  famílias,  não  faça  perguntas intrusivas, principalmente na presença das crianças. Questões como “É adotado? Conhece o pai e a mãe? Veio de onde? Porque não o quiseram? São irmãos verdadeiros?”, são desadequadas e promotoras de preconceito. Quando há mais do que um filho, é claro que são irmãos verdadeiros: são filhos de quem os adotou.

Não é a biologia que determina o vínculo;

-Também não discrimine pela positiva, dando excessiva atenção à criança ou à família, quando percebe que terá sido constituída por via da adoção.

Na consulta de Adoção, tenho vindo a constatar que as famílias construídas por esta via, apresentam os mesmos desafios que as famílias construídas por via biológica, aos quais se acrescentam, naturalmente, outros inerentes à vida prévia da criança.

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Os pais que adotam devem estar conscientes das feridas e do tempo necessário para que as mesmas cicatrizem. O apoio psicoterapêutico e a partilha de experiências com outros pais que também adotaram será muito importante para um exercício mais seguro e mais satisfatório da parentalidade.

A  mudança  de  mentalidade  da  sociedade,  aceitando  a  adoção  como  forma legítima de ser família, pode contribuir e muito para a diminuição de alguns desses desafios!

Comece  por  mudar  a  sua  linguagem!  Não  há  famílias  adotivas  e  famílias biológicas!

Há famílias! Constituídas por diferentes vias, mas idênticas, quando existe vínculo e amor. Seja um exemplo de cidadania consciente! Fará a diferença na vida de muitas famílias.

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