Opinião

Mais do que nunca: Carpe Diem, porque o Natal está suspenso!

Crónica de Isabel de Almeida

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Como pode um ano com um número tão bonito, tão aparentemente harmonioso ter espalhado entre nós humanos tanta dor, tanto medo, tanta perda, tanta incerteza, tanto sofrimento, tanta incerteza, e novamente o medo, face ao futuro? São estas as questões que dou por mim a colocar a mim mesma, e que creio são transversais a muitos de nós?

Como pode este ano diferente para pior ter trazido à tona tanta ignorância, tanta maldade, tanta falta de empatia para com o sofrimento dos outros, tanta intolerância para com os que são diferentes ou que pensam de modo diferente?

O que podemos esperar daqui em diante? E, numa vivência temporal estranha (em que por um lado parece que estivemos em suspenso, por outro parece agora que está a findar ter decorrido num ápice, que chegamos a estar em negação sobre o tempo que passou) o que podemos fazer para reconquistar algum conforto, para criarmos a tão necessária esperança? Como devemos passar este período outrora festivo?

Aqui chegados, a este ponto da reflexão desta semana, devo confessar que, para mim, há muito que as festas estavam longe do esplendor, da entrega, do conforto e da oportunidade de recarregar baterias para um novo período, uma nova etapa do percurso da vida, um novo ano. O Natal na sua verdadeira essência há muito que perdeu o seu significado mais essencial, e tal sucedeu quando o tempo e o destino ou o acaso sei lá, me roubaram parte “das minhas pessoas” mais próximas.

A cada perda foi sendo cada vez menos Natal e mais o deixar-me ir, admito até que me deixo arrastar pelo politicamente correcto, quem nunca aceitou ir a um festejo porque “fica bem”, porque o não ir “gerava um conflito à escala diplomática” em termos sociais?

E porque a sociedade é mesmo assim, e não adianta hipocritamente negar tal facto, quem nunca aproveitou o Natal e período festivo para se perder entre o apelo comercial das promoções, dos belos embrulhos brilhantes, das ruas e espaços comerciais ricamente enfeitados e com luzes que anunciam a tentação difícil de resistir de comprar um qualquer produto de que, na verdade não necessitamos, mas está na moda, e está a um preço imperdível e é agora ou nunca? Eu cedi muitas vezes e sempre que pude a este tipo de tentações, quem nunca?

Por outro lado, mesmo se críticos ou com reservas perante o período festivo, porque adoro música, esta sempre vem sendo um pretexto para eu me desculpar a mim mesma quando tento resistir ao Natal e depois dou por mim a ouvir e cantarolar músicas de Natal (não tanto as clássicas, mas as músicas Pop dos anos 80 e 90 ou os duetos de edições especiais de Natal).

  Agora, tentando ver este meu comportamento auto-analisado de forma o mais possível racional, acho que este aspecto revela um mecanismo de defesa contra as contrariedades, de algum modo as emoções despertadas pelas músicas (e até filmes) de Natal como que me transportam mentalmente até aos tempos em que “o Natal era mesmo Natal”.

Este ano venho sentindo uma sensação de estranheza, de ser algo deslocado, não consigo em momento algum abstrair-me do facto de que o Natal (mais ou menos socialmente e politicamente correcto) está suspenso, mais do nunca há um olhar agridoce, descrente, até crítico perante as decorações, as árvores de Natal, os anúncios que ainda mostram famílias felizes e descontraídas a trocar presentes à lareira, e, para mim o grande sinal de alarme é que este ano nem as músicas me fazem ceder momentaneamente ao antigo encanto. Mas não devo ser a única pessoa a não conseguir mesmo “entrar no espírito de Natal”, pois surgem já anúncios realistas que registo com agrado e com desassombro, com a gratidão de me conseguir identificar com aquela mensagem tão real de que não estamos bem, não estamos num contexto habitual e nada fará com que consigamos fingir que as coisas são diferentes.

As crianças, as mais novas, são talvez quem ainda consiga encontrar conforto e alegria nestes festejos, mas muitas delas, mais maduras sentem que muita coisa mudou na sua essência.

Posto isto o que sugiro que façamos? Mais do que nunca, que consigamos satisfazer o melhor possível as nossas necessidades e sonhos mais imediatos e que sejam concretizáveis em segurança, liguemos ao amigo ou familiar para quem não temos encontrado tempo para mimar; enviemos um mimo que possa atenuar o peso do ambiente actual, retomemos o hobbie esquecido há muito algures numa gaveta por alegada falta de tempo (aquele bordado de ponto cruz inacabado, o crochet, o tapete de arraiolos, o tricot ou a costura, o texto ou livro por terminar), dediquemos tempo aos nossos e a nós mesmos, uma ideia será personalizar esta época com presentes feitos por nós à medida dos gostos dos que nos são queridos ou, se não tivermos jeito para as artes, porque não optar por artesanato local? Se pudermos oferecer a nós mesmos aquele livro, aquela peça de roupa, aquele computador, tablet, telemóvel ou e-reader que há muito andamos a namorar, mas não compramos porque achamos que é muito caro, seja, é agora ou nunca. Temos saudades daquela esplanada, daquela praia, daquele monumento que nos transporta numa viagem gloriosa ao passado, daquele ponto específico algures no planeta onde nos deliciámos a desfrutar da vista e a tirar fotos? (pois em segurança visitemos esses nossos sítios tão especiais). Sente saudades de ouvir a voz de um dos seus cantores preferidos e escapou-lhe o último álbum? Prepare um cantinho tranquilo em casa, procure as músicas na internet e sente-se confortavelmente no seu sofá preferido na companhia de um chá, café ou chocolate quente, e porque não um copo de vinho e desfrute do momento! As crianças estão cansadas de estar fechadas? Desafie a família para uma sessão de cinema conjunta e caseira com pipocas feitas em casa e deixem-se levar pela magia do cinema em família, partilhando afectos e gostos.

Em suma, desde que não nos coloquemos a nós ou a terceiros em risco, chegou o momento, mais do que nunca de nos reconciliarmos connosco mesmos, e de encontrar tempo para o que importa e para o que nos dá conforto e prazer e que nos encha de memórias e energias positivas. Carpe Diem, aproveitemos cada momento bom, façamos tudo ao nosso alcance para nos mimar, porque precisamos e porque merecemos, e porque amanhã pode ser tarde demais! O Natal está suspenso, mas nós não, então vivamos um dia de cada vez, mas em pleno sempre que possível!

Para quem vive neste momento com dificuldades de ordem financeira, o meu conselho é: procurem e peçam ajuda, saibam as alternativas ao dispor na comunidade. Peçam ajuda aos amigos, aos vizinhos, à autarquia, à paróquia, às IPSS locais. Todos estamos sujeitos a ver a vida mudar de um dia para o outro, e agora mais do que nunca a incerteza é a maior certeza que temos.

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Carpe Diem! Aproveitem cada segundo! A vida nunca foi um bem tão precioso!


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comentário

  1. Gosto sempre de ler os seus textos. Transpiram sempre algum humanismo e sentimento.
    Vou partilhar o mesmo no grupo MARGEM SUL LIVRE DE CENSURA.
    Desejo-lhe o melhor Natal possível nestes tempos nada fáceis.

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