Opinião

Lisboa despida!

Uma crónica de Isabel de Almeida.

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Esta semana, assisti simbolicamente no dia 10 de Junho a um excerto de uma reportagem na SIC Notícias  denominada “A Última Sapataria de Alfama”, foi gravada em 2019, data daquela que viria a ser a última celebração do Santo António nas Ruas do Bairro de Alfama, com o desfile da marcha popular pelas ruas. Ali se destaca a história da sapataria “Ondina” que viria a encerrar definitivamente em Março de 2020. Após a doença e o óbito do anterior proprietário o espaço de comércio tradicional ficou a cargo de um sobrinho, apaixonado pelo negócio de família cujos cuidados lhe foram confiados pelo tio, que lhe pediu já doente para “ter a porta aberta mesmo que nem vendas nada !” Por pressão familiar de outros proprietários e com vista a vender o imóvel na zona histórica da capital a própria sapataria viu-se condenada a uma morte anunciada, ficando como símbolo de tudo o que naquele bairro, e noutros bairros e noutras cidades também certamente, já foi e deixou de ser para não mais voltar a sê-lo…

Confesso que como Lisboeta que sofre por se ver longe da sua cidade esta reportagem na qual, além das estórias que marcam a história, não consegui impedir que as lágrimas me invadissem os olhos e o rosto, o encerramento da última loja tradicional no Bairro de Alfama em Lisboa é símbolo de uma triste mudança de paradigma que afecta a minha cidade e atinge também tantas outras. Especialmente dolorosa e simbólica é aquela imagem final de uma rua vazia, com a loja fechada com os papeis de jornal e folhetos a tapar os vidros da porta e das montras outrora plenas de calçado de produção nacional que era adquirido pelas gentes do bairro e, mais recentemente pelos inúmeros turistas que já suplantavam em número os habitantes locais ou visitantes Portugueses.

Histórias como esta, cuja partilha em televisão constitui um verdadeiro serviço público, mas que certamente em audiências ficam para trás competindo com programas de estupidificação das massas como “Big Brother” ou “Quem quer casar com o agricultor” deixando em nós a imagem  dura e triste da mácula de uma cidade que, a pouco e pouco, se esvazia e se despe daquela que é a sua essência, daquelas que são as suas tradições de forma espontânea, e que deixa de ter lugar para as suas gentes, quem ali nasceu vai perdendo terreno para várias ameaças que mudam o pequeno mundo de muitos para algo triste e vazio, e que mudam a face e a identidade de uma linda cidade que é a capital de um pais também ele em mudança, e não para melhor.

Sintomáticos foram os relatos (e note-se que a reportagem já data de 2019) dos moradores do bairro que se queixam que foi imenso o volume de despejos para promover a recuperação de edifícios destinados a alojamento local, ou para terem como destino projectos habitacionais para compra ou arrendamento a preços perfeitamente proibitivos para o comum dos mortais, e que dificilmente são acessíveis aos Lisboetas de classe média, mesmo a jovens casais em início de vida, frise-se.

Há muito que se vem acentuando a tendência das pressões crescentes do turismo e dos negócios imobiliários milionários tantas vezes apenas ao alcance de investidores estrangeiros. Vendemos a cidade aos turistas, sem peias, sem limites, vendemos as propriedades no centro da Cidade a grandes investidores anónimos para quem é perfeitamente indiferente a nossa cultura, a nossa tradição, a nossa essência, que apenas sorriem contemplativamente ao ouvir um fado porque devemos ser para eles um povo estranho, hospitaleiro, generoso e sempre disposto a acolher e ajudar mesmo quem nem sempre venha por bem.

Antes da pandemia já era perceptível que Lisboa estava a começar a ficar despida da sua essência mais tradicional, as ruas da baixa invadidas de TUCS TUCS  deixavam bem patente que a cidade estava a deixar de ser nossa, e isto estava a suceder de modo selvagem, a caminhar para um nítido desequilíbrio. A especulação imobiliária faz subir os preços do metro quadrado no centro da cidade tirando a qualquer um de nós, simples mortais, o sonho de vivermos na cidade que em muitos casos nos viu nascer, que noutros tempos partilhámos com visitantes sem atropelos, sem excessos, com espaço racional para todos.

De menina chegam-me imagens das visitas aos armazéns do Chiado e do Grandella (para sempre perdidos com o triste incêndio do Chiado), de escolher tecidos, de percorrer as retrosarias da Rua da Conceição em busca de aviamentos de costura, à medida que fui crescendo a cidade cresceu também comigo, estudante de Direito era presença habitual na Livraria Petrony onde comprei muitos dos livros de estudo dos meus tempos de faculdade (uma livraria que também acabou por encerrar, creio existir online, mas não é, claro, a mesma coisa), nas retrosarias da baixa comprei o traje académico e a capa para a queima das fitas, assim como os emblemas da capa. Todos os anos tínhamos um ritual curioso, apanhar o 28 e ir até à Graça, o destino: os Alfarrabistas e a Feira da Ladra em busca de livros raros para regatear, e lá vínhamos nós, para o barco então no Terreiro do Paço, de volta à margem Sul com a biblioteca infinitamente mais rica, assim como a alma de uma bibliófila convicta, antes de irmos viajar de 28 percorríamos a baixa e era tradição o almoço no “João do Grão”, comida tradicional Portuguesa, e as melhores sobremesas de que há memória.

Enquanto advogada estagiária ficam célebres as inúmeras visitas ao Tribunal da Boa Hora, onde com um grupo de amigos e colegas assisti à maior parte das sessões do julgamento de Pedro Caldeira, e recordo que sempre que nos aproximávamos do Tribunal já se ouvia a discoteca Amália a invadir a Rua Nova do Almada com o som vibrante do “Money, Money” dos Abba. Também já sabíamos que, inevitavelmente e naquilo que se transformou num ritual perverso mas com uma certa graça, o segurança fazia questão de revistar sempre a mala da minha amiga Elsa, que ia assistir ao julgamento como antropóloga e não tinha a sorte de possuir a mágica cédula de Advogada Estagiária que permitia entrada privilegiada naquele templo da Justiça (também ser advogado nessa altura ainda fazia sonhar, e todo o sistema judicial era mais fiável e funcionava de forma mais justa e equilibrada).

Mais tarde consegui apaixonar-me pelos armazéns do Chiado na vertente Shopping. Passear pela Rua Garrett, até descobrir novos recantos em esplanadas no Chiado. Visitar a Bertrand, a livraria mais antiga de Portugal, dar dois dedos de conversa com Fernando Pessoa na esplanada da Brasileira…

Mais recentemente, organizar eventos literários na Feira do Livro de Lisboa, em pleno parque Eduardo VII, encontrar autores e livros de eleição, falar de livros, desvendar livros e os segredos da escrita e da literatura, e claro, fazer uma pausa para um café e uma fartura! Ir até ao terraço do Hotel Flórida, ao Marquês de Pombal, entrevistar autores internacionais também eles de visita e apaixonados pela Cidade.

Na expo uma vertente mais moderna mas não menos agradável, recordo com saudade percorrer o Parque das Nações, contemplar o Tejo, beber um Café na Portela, assistir a um concerto no Pavilhão Atlântico (agora Meo Arena) depois de um jantar no topo do Vasco da Gama.

Para mim Lisboa é isto e muito mais, será isto e tantas outras coisas para tantos outros Lisboetas ou apaixonados pela nossa Capital. Estou preparada para recuperar o tempo perdido, para viver a minha cidade assim que as circunstâncias o permitirem, mas há imagens para as quais a minha mente não consegue estar preparada. É impossível não chorar ao olhar as ruas agora vazias (naturalmente a pandemia veio agravar toda a vivência na cidade), os negócios tradicionais para sempre encerrados em especial na Baixa. Ironia cruel do destino, neste momento ninguém desfruta da cidade, nem nós, nem os turistas, porque o mundo mudou para pior sem fim à vista em termos de esperança de regresso à normalidade.

Dói ver as ruas despidas de uma cidade despida também de si própria! Dói querer estar perto e estar longe e sem saber quando voltará a ser prazeroso o regresso! Dói não saber sequer se voltarei a viver a minha cidade!

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Está a cidade despida e estou eu despida dela!


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