Opinião

LARES, LARinhos e LARões, aves de gaiola e cucos …

O LAR é o último reduto contra injustiças deste mundo…. É onde geralmente se guardam as boas e más recordações da vida ou pelo menos onde elas são evocadas através de uma fotografia, de um livro, de um bibelot ou de um pensamento… é um armazém de bandeiras, de hinos e de esperanças.

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Mas não é só um local de símbolos, é também onde se encontra a melhor casa de banho do mundo e onde se tem acesso a este ou àquele objecto, de uso mais pessoal e reconfortante, de que a cama é apenas um exemplo. É ainda um lugar especial, pela fragrância que nos marca e que nos impregna as roupas, os sonhos e as convicções. Diz a sabedoria popular,

Ai LAR meu doce lar…. porque quem em casa alheia come, fica com fome … e quem tem casa não se molha …  porque em sua casa, muito pode o homem …  e o velho que de si cura.. cem anos dura

Mas há Lares e lares, e esta é uma armadilha de palavras homónimas, as que se leem e escrevem do mesmo modo, mas têm significados diferentes. É o caso do canto de uma esquina e do de um rouxinol, ou então o caso do Lar que construímos e daquele onde alguém quer que passemos a viver. É também o caso do palacete onde permanecem meia dúzia de eleitos, a quem diariamente servem ambrósia ao som de harpas e passarinhos ou o casebre para onde a larga maioria é desterrada e onde as flores são apenas os crisântemos do leito de morte.

Nada disto é novo, mas parece sempre esquecido. Este degredo dos mais velhos começa agora a impor-se como um hábito, justificado por dá cá aquela palha ou nem isso. Tornou-se uma fatalidade de um destino que a poucos interessa e a menos mobiliza. Para estes surdos à dor e à desgraça a vida prossegue e aqui, de interessante é apenas o paradeiro de meia dúzia de coroas…

Mas sabendo que tudo isto é um rio que ali vai desaguar, porque não estranham esta compladescência com a miséria? Será por Medo, por preguiça? Será por ignorância ou falta de vergonha? Será que é já uma dessas modernices da inteligência artificial? Não me parece! Provavelmente é apenas mais um exemplo de um mecanismo de defesa chamado denegação e nesse caso merece uma psicoterapia!

Não se trata aqui de discutir o propósito ou as intenções de quem não tem alternativas, mas sim de escalar o alarme para o agravamento progressivo do mal-estar de ricos e pobres que estão a ser despojados da dignidade porque não acautelaram a sua autonomia na velhice. E não se caia na tentação de justificar o drama pela ideia de que velho abandonado não foi moço ajuizado. A verdade é que a pancada de velho não dói, porque quem envelhece, arrefece…

Por outro lado, há muito pouca gente capaz de gerir bem uma estrutura complexa e acolhedora como uma família ou como um lar, onde à logística da hotelaria, da saúde e das finanças se devem associar aos requisitos da liberdade, da igualdade e da fraternidade, e ao mesmo tempo coligir os valores da generosidade, da dignidade e do profundo respeito pelo interesse e diversidade de cada um. E se do alto, é difícil equilibrar esses atributos, então estar no terreno a cuidar dos ditos, é ainda mais duro. De facto não se trata de um trabalho para todos, exige educação, custa dinheiro e obriga a uma santíssima paciência, mesmo quando os acamados ainda se lavam e controlam as urinas ou as fezes, quando ainda não passam os dias inteiros sentados em cadeiras, com um olhar   vítreo a criar escaras e a pensar nos gigantes que já foram … mesmo quando ainda não caiem de repente, não partem mais um fémur ou não vomitam sobre o seu cuidador. É sempre difícil.

Tentemos compreender esta encruzilhada em que todos ralham e ninguém tem razão

Antes do séc. XX, a guerra, a doença e a miséria não admitiam idades avançadas. Os anciãos eram menos frequentes e integravam-se em famílias amplas que se entreajudavam a troco de respeito. Aspirava-se então a morrer numa cama, em casa, rodeado pelo núcleo mais íntimo, a quem se revelava os derradeiros segredos. Quando não existiam estes recursos, restava a caridade, a misericórdia e a pena, que por essa altura, também já pouco abundavam. Em Portugal, morria-se então pelos 35-40 anos.

Mas depois da implantação da República, emergiu a vigorosa ideia de que quem deveria apoiar os necessitados seria o Estado, a Europa ou as Nações Unidas. Ora como se sabe, o estado não é uma pessoa de bem, nem é uma estrutura de respeito e ao fechar do século passado, era já mais do que evidente uma tamanha desorganização generalizada e o crescimento de uma nova classe politica, onde o privilegio de sangue azul tinha sido substituído pelo de falta de vergonha. Mais uma vez, prevaleceu a força bruta dos impulsos sobre a inefável beleza das boas intenções. Desta vez, com a morte do romantismo, foram adormecidas a elegância, a esperança, a confiança, o carinho e umas tantas outras ingenuidades.  

Meus Excelentíssimos Senhores, se é que o querem ser, não podem deixar de lutar … Se isto não se faz por nobreza ou por direito, se não se faz nem por dinheiro nem por dever, que se faça simplesmente porque é o caminho certo, e porque é esse que queremos para a prole.  

De facto, com o tempo desfaz-se o Corpo, apaga-se o Espírito, desligam-se as luzes, mas…e a Alma? Continua a intrigar-me por onde anda a Alma. Esqueceram-se dela? Não é pela Alma que a Humanidade se transcende? Não é a Alma que dá o sentido à vida? Não é com a Alma que se marcam os Golos?

Pelo menos foi assim que eu acabei por deixar de fumar…

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