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«Isto é hipocrisia, ou todos abrem ou todos fecham»

Gerente de um bar histórico na Amora, Fanito desabafa sobre as preocupações dos empresários de divertimento nocturno e a forma como são até agora tratados em tempo de pandemia

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“A porta custa um pouco a abrir, está há tanto tempo encerrada” lamenta Fanito, enquanto abre a entrada do ROOTS, a discoteca que este ano completa 16 anos na Amora. “Preparava uma renovação do espaço este ano, mas o Covid19 veio alterar tudo…”.

E foi o Covid19, ou melhor, as decisões das autoridades de saúde que o levaram a fazer o protesto que resultou nesta conversa com o Diário do Distrito.

No exterior do ROOTS, situado na marginal da Amora, colocou cartazes com a palavra «Hipocrisia» e com questões sobre o que leva a que os estabelecimentos ligados à noite continuem sob a obrigação de estar encerrados, quando todos os outros sectores privados já tiveram autorização para reabrir.

“Encerraram tudo sem pensarem concretamente no que estavam a fazer, de forma exagerada e sem qualquer bom-senso. E quando algo é feito dessa forma, dificilmente se corrige.”

Garante não ter receio do vírus, “porque este pode vir ou não, mas sempre tivemos outras doenças infeciosas. Receio sim o que isto vai trazer, como a miséria e a falta de emprego, bem como o medo que está a gerar, e que leva as pessoas a não irem tratar-se aos hospitais quando precisam.

Com tanta desorganização transformaram um problema de saúde num problema social, e do qual não sabemos em que vai resultar.”

Depois de quase sete meses encerrado, as contas acumulam-se. “Tive de pagar à SPA, tenho as rendas, as despesas normais como água e luz, e até aqui a EDP se lembrou de me andar a cobrar aos 300 euros quando a casa tem estado fechada… Recorri ao layoff mas o que recebo não chega aos 500 euros. E tenho de pagar aos trabalhadores do grupo porque, sejamos sinceros, nem toda a gente que trabalha na noite está a descontar.

Para a maior parte este é um segundo trabalho, com que equilibram as suas contas, outros são familiares ou amigos dos proprietários, e não têm vínculo laboral porque isso era impossível para as empresas, com as despesas que nos impõe. E são pessoas que estão a passar muitas dificuldades, porque alguns até perderam o emprego principal.”

Através do seu protesto admite que há também as vozes de muitos outros empresários da noite, e de todos os que também têm estabelecimentos naquela marginal.

“Quando nos encontramos, e porque nos damos todos bem, as conversas vão sempre parar a isto, as pessoas estão preocupadas, em stress, não sabem como vai ser o futuro, algumas já não têm quaisquer reservas financeiras, e estão a passar dificuldades, outras já estão a tratar de fechar os negócios porque é insustentável.

E não são só os donos das casas, são também os empregados, os barmans, os seguranças, os DJ e músicos.

Neste momento vejo grandes homens e mulheres, pessoas empreendedoras, ao contrário do que muita gente pensa das pessoas ligadas à noite, que estão a definhar de dia para dia, e mesmo assim com uma ponta de esperança, e por isso vão dizendo que sim a tudo o que lhes vão apontando para fazer, como se fossem ainda culpados do que se passa.

Já nem é desalento, porque isso sentimos quando a casa não factura, e é preciso pensar «se aquela casa faz dinheiro, o que é que eu estou a fazer mal» e avançarmos com a mudança. Neste caso é mais revolta e raiva pela injustiça, porque não podemos fazer nada e não vemos ninguém a lutar por nós.”

O sentimento de revolta cresce, “e um dia teremos de tomar uma qualquer atitude, e essa pode vir a ser condenada, porque não será consensual com aquilo que as autoridades querem. Isso ou teremos de inventar maneiras de abrir fora de horas e de forma ilegal, e entrar num caminho que nunca quis.”

Fanito garante que qualquer bar e discoteca também pode implementar as medidas “que a DGS dita, embora até hoje eu não acredito que o uso de máscara impeça a contaminação, porque se é essencial, desde que foi descoberto o vírus, porque não obrigaram logo ao seu uso? Nem eles, autoridades, sabem bem o que decidir.

Todos sabemos que precisamos de ter distanciamento, mas isso também nos impede de apanhar o riso, o beijo e o abraço, evita apanhar o bom e o mau.

Perante a lei, terei de colocar as mesas afastadas, mas admito que é impossível criar o distanciamento exigido, como é em qualquer lado, até no supermercado, cruzamo-nos sempre.”

O empresário aponta para as autoridades de saúde o ónus de “encontrarem regras e medidas para este sector, como fizeram com outros. Admito que tenham de limitar as entradas, mas não passar de 200 para 20 pessoas, os funcionários manterem sempre a máscara ou viseira, disponibilizar gel desinfectante mas também sempre com a noção de que os clientes têm de ter algum cuidado… podem até implementar uma máscara que permita beber por uma palhinha.

Estou disponível para fazer o que me mandarem, mas isso tem de ser exequível para este sector.”

 «Parece que o covid19 é culpa de quem gosta de dançar, cantar e viver»

A culpabilização do sector da noite feito pelas autoridades de saúde é outro dos aspectos que Fanito critica.

“Parece que o tal problema de saúde que eles (DGS) indicam ser mais preocupante nos idosos, é agora culpa dos empresários da noite e da juventude, do álcool, das pessoas que gostam de dançar, cantar e viver. Só se ouve falar que há surtos aqui e ali com jovens, e dão a entender que são estes que não se preocupam com nada e que estão a transmitir a doença ou que são as ‘pessoas da noite’ que abriram mais uma hora e estão a contribuir para o aumento dos casos.

Ainda não percebi porque querem pôr a culpa neste sector, que é o único que não deixam abrir e sem qualquer lógica.

Todos sabemos que as festas continuam a fazer-se, mesmo de forma ilegal. E que se as autoridades de saúde lá forem verificar, vão com certeza encontrar pessoas infectadas, da mesma forma que se forem a qualquer hipermercado, vão deparar com pessoas infectadas, porque quem vai às festas também vai a esses ou aos centros comerciais.

Se eu tivesse agora vinte anos também iria, porque não temos de julgar as pessoas que querem beber um copo e dançar em vez de ficar em casa a ver a novela ou ir a Fátima. É errado, mas estão a substituir os espaços que o Estado proibiu.”

Outro problema que o empresário aponta em relação a estas festas ilegais é a falta de segurança. ““Se houver um roubo ou até uma violação, os participantes não podem fazer queixa, logo estão menos seguros, e o mesmo com casos de violência. O álcool mostra aquilo que as pessoas são, beijam e dançam mais, mas também se chateiam mais depressa…”

«Queremos trabalhar, deixem-se de hipocrisias»

Através dos cartazes que colocou no seu exterior do ROOTS, o empresário critica a ‘hipocrisia’ das autoridades “porque vemos que tudo reabriu menos o sector da noite, e da diversão. A restauração já pôde abrir e agora pode estar aberta até mais tarde, até os casinos já podem abrir até à hora que querem, e estão cheios.

Só os bares e discotecas é que não o podem fazer nos moldes em que sempre funcionaram. E para o fazer temos de transformar a casa em «pastelaria», porque o cliente para beber tem de comer… vou passar a servir tostas com whisky? E mesmo assim ainda tenho de encerrar antes dos restaurantes? Claro que isto não tem qualquer lógica, é ridículo.

Queremos é que nos deixem trabalhar, mas não com os horários ridículos para fecharmos às 20h00, pelo menos que possamos estar abertos até às 01h00, que normalmente é quando uma casa destas começa a ter mais clientes, mas para quem está fechado até agora, é melhor que nada.

Não agradeço, mas aceito para continuar a trabalhar. E se tiver de fazer tostas e hamburgers para mostrar que sou ‘boa pessoa’, também as faço, mas irei sempre lutar, tal como os restantes empresários, para um horário pelo menos até às 04h00.”

Outra das ‘hipocrisias’ que o deixa indignado é a realização da Festa do Avante!.

“No meio de todas estas hipocrisias, a maior de todas é permitirem que se realize a Festa do Avante!. Não quer dizer que seja errado, eu costumo ir, e até quero que se faça e continue, afinal um dos parques de estacionamento é ao lado do meu estabelecimento, o que significa também clientes.

Mas o que não acho correcto é que, na linha da culpabilização que fazem aos estabelecimentos da noite, permitam depois que milhares de pessoas se reúnam ali, ao fundo da rua, e eu e os outros empresários tenhamos de continuar encerrados.

Não é justo o princípio de que ‘uns têm de continuar fechados porque são um problema, ou têm de encerrar às 20h00 e os outros podem realizar-se e vender bebidas até às tantaas porque são um comício’, e todos sabemos que o comício só acontece ao domingo.”

Por fim deixa ainda mais uma critica. “Há uma classe profissional que neste assunto do covid19 me desapontou muito porque há muita hipocrisia da comunicação social, que passam para o exterior noticias que causam medo e levam à tal culpabilização, mas também porque não informam como deviam ou, como já vi numa televisão, até querem que os comentadores que têm outros pontos de vista fora do que eles querem impor.”

 

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