Opinião

Insegurança(s)

Crónica de Isabel de Almeida

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A insegurança é algo que diariamente convive connosco de forma crescente. No momento presente é nítido o desconforto e medo que percepcionamos face aos novos tempos que vivemos do dito “novo (a)normal” em cada um dos aspectos do nosso quotidiano. Não nos sentimos seguros a caminhar pela rua, quando nos cruzamos com muitas pessoas em locais públicos, quando somos forçados a fazer a nossa rotina de trabalho como se esta decorresse de modo habitual mas constantemente cientes de que nada está igual ao que era antes, e pior, é totalmente imprevisível quando voltaremos a ter o nosso mundo normal, se é que sequer este regressará ainda durante a nossa geração.

Se é certo que nos sentimos inseguros, indiscutivelmente, em locais que sempre encarámos como parte integrante do nosso modo de vida e das rotinas do quotidiano e de que são exemplo: superfícies comerciais, transportes públicos, serviços, espaços de lazer, locais para a prática desportiva, estabelecimentos de ensino, os mais variados locais onde somos chamados a desempenhar as nossas tarefas laborais eis que surge agora uma nova e assustadora sensação e insegurança, bem patente através de relatos que nos chegam por testemunhos directos ou através do acesso aos media (acesso este que está tóxico, diga-se em abono da verdade). Trata-se de uma sensação crescente de não estarmos seguros em termos de integridade física de pessoas e bens nos locais onde residimos, na nossa terra, na nossa rua, na nossa própria casa.

O corona vírus veio servir de pretexto para desenvolver ou servir de contexto a muitos outros males: é pretexto para parar serviços ou afectar de forma bastante negativa o respectivo funcionamento sem que sejam dadas as respostas ideais (quem se sente seguro hoje se tiver de se deslocar a um centro de saúde ou a um hospital?, quem de sente seguro dentro de um meio de transporte público? Quem sente que os filhos ou amigos estão seguros nas escolas que frequentam? Como pode cada um de nós sentir-se seguro e tranquilo a trabalhar? Ou mesmos em momentos de lazer?); o actual contexto de absoluto descontrole generalizado com a redução de horários de estabelecimentos proporciona uma desertificação antecipada das ruas, menos pessoas, pessoas mais frágeis e mais ansiosas e receosas são tudo pretextos para um crescimento de fenómenos de criminalidade.

De forma mais ou menos casual começa a ser assustadoramente banal assistirmos a episódios de violência nas ruas (veja-se o recente esfaqueamento de um jovem numa estação ferroviária). Algo que antes era residual começa a fazer parte das vivências das nossas comunidades. Locais que eram pacatos, mormente na província, começam agora a ser alvo de estudo e atenção de grupos de criminosos que não hesitam em atacar o património das populações mais isoladas e de locais onde bem sabem não ser habitual o policiamento  e onde não existem meios suficientes para garantir a segurança da população.

No local onde resido há anos, em plena margem Sul, começou a tornar-se recorrente ouvir relatos de furtos em residências e/ou garagens privadas, assim como sucedeu recentemente um assalto numa residência que só não conheceu desfecho trágico talvez porque a vítima, idosa mas mantendo a presença de espírito, não ofereceu resistência nem deu alarme durante o sucedido para não ser maltratada pelos meliantes.

Quando além de um maldito vírus começamos a ter medo de estarmos nas nossas casas e sermos surpreendidos (de noite ou de dia) por amigos do alheio, quando receamos pelo nosso património e também pelas nossas vidas ou integridade física algo está mesmo muito errado nesta sociedade em corrida a passos largos para a desumanização.

Quando o Estado não consegue garantir a segurança das populações, quando vemos agentes da autoridade a ser punidos por terem cumprido o seu dever de reprimir criminosos, quando notamos que se em legítima defesa pessoal ou de terceiros causarmos lesões a alguém que nos esteja a fazer mal corremos mais riscos de sermos sancionados e punidos e mais depressa somos detidos do que aqueles que fazem do seu modo de vida habitual a prática de crimes, então algo de mesmo muito errado está a suceder, em menos de um ano, no nosso pais e na nossa sociedade.

Estaremos a assistir a uma regressão civilizacional? As ameaças são constantes: tememos pela saúde, tememos pela vida, tememos pelo bem-estar, tememos pelo futuro das gerações presentes e futuras.

Será que podemos mudar-nos para o Planeta Vénus de uma vez?! Pessoalmente pensava que já tinha visto de quase tudo, mas não me sinto preparada para este mundo distópico mais próprio de um filme série B de Hollywood. É arrepiante ver a realidade superar em muito a ficção científica e futurista distópica!

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