Opinião

HOSPITAIS PRIVADOS, PAGAR OU MORRER!

Uma crónica de Bruno Fialho

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Antes de falar no assunto em epígrafe, permitam-me partilhar convosco uma resumida visão da iniciativa privada em Portugal, a qual defendo como sendo necessária para qualquer país que queira crescer e desenvolver-se, mas que necessita de ser melhor escrutinada.

Até à data nenhum governo conseguiu o melhor dos dois mundos, ou seja, criar condições para que os investidores privados, nacionais ou estrangeiros, se sintam atraídos a investir no nosso país e, ao mesmo tempo, proteger os trabalhadores dos abusos que alguns empresários cometem.

Assim, ao longo de décadas, constatamos que a burocracia é um obstáculo enorme e que os impostos são demasiado altos, afugentando quem quer investir. Mas quem o faz, por vezes, na ânsia de obter lucro, acaba por atacar os direitos dos trabalhadores, noutras situações, são apenas empresários sem capacidade que gostam de pensar que ainda vivemos no tempo do feudalismo.

Mas se existe um verdadeiro malfeitor entre nós, ele chama-se Estado, pois não tem piedade de ninguém ou quase ninguém, sendo que, tanto maltrata os funcionários públicos e os trabalhadores por conta de outrem, como os trabalhadores independentes e os empresários das PME´s.

Os únicos que o Estado raramente afronta e por quem tem respeito, são os grandes grupos empresariais, que por causa dos políticos profissionais que temos tido ao longo dos anos, ao contrário do que acontece noutros países, têm retirado mais ao nosso país do que dão.

A título de exemplo, o Grupo “Jerónimo Martins SGPS, S.A.”, conhecido por deter empresa de distribuição alimentar, retalho alimentar, retalho especializado, farmácias ou parafarmácias, e também conhecido por pagar vencimentos baixos aos seus Trabalhadores ou por ter mudado a sua sede para a Holanda, a fim de pagar menos impostos, é um desses casos.

Esta semana, o Pingo Doce, detido pelo Grupo Jerónimo Martins, andou pelas bocas do mundo ao tentar ganhar ainda mais dinheiro com a pandemia, pois queria abrir portas às 06h30, obrigando os trabalhadores a entrar ao serviço antes do horário normal de trabalho e sem remuneração extra, enquanto a mercearia da esquina, caso tentasse algo similar, provavelmente teria uma multa enorme passada pela ASAE.

Mas também posso recordar os tempos em que vivíamos sob  reinado do Ricardo Salgado, que detinha a alcunha de DDT (Dono Disto Tudo) e era grande amigo pessoal do actual Presidente da República, tendo arruinado milhares de portugueses, mas continua a viver em liberdade, talvez porque sabe demais sobre muitos governantes.

E, pode o leitor questionar, o que é que tudo isto, iniciativa privada, grupos económicos poderosos e um ex-banqueiro, tem a ver com os Hospitais Privados?

É que o Estado, mais uma vez, prefere proteger os grandes grupos económicos em detrimento dos portugueses, pois todos nós estamos a sofrer com a pandemia, excepto os Jerónimos, Salgados e Companhia.

A parte mais visível do que escrevo são os hipermercados que, desde o início da pandemia, tiveram excepções que mais nenhuma pequena e média empresa ou sequer o sector da restauração tiveram e que, neste momento, está à beira da falência.

Abordando, especificamente, o assunto principal de hoje, ou seja, os hospitais privados e pagar ou morrer, como sabem, desde Abril que o Estado comprometeu-se a pagar a conta dos doentes com Covid-19 no privado, mas só quando estes fossem encaminhados pelo SNS.

Ou seja, desde Abril que o Estado exige grandes sacrifícios a todos nós, maioritariamente aos trabalhadores e aos pequenos e médios empresários que estão em vias de encerrar os seus negócios, mas, pelos vistos, continua a proteger o negócio dos Hospitais privados, usualmente detidos por grandes grupos económicos, pois, parece que estes não podem ser alvo de uma requisição civil e passar a contribuir para a comunidade como todos nós.

Já me pronunciei publicamente sobre a necessidade de uma requisição civil aos Hospitais privados e não promover ainda mais o lucro destes grandes grupos económicos com a pandemia.

Não aceito que se continue a promover o lucro destes grupos económicos à custa da saúde dos portugueses.

Também não admito que os deputados e governantes deste país, durante ou imediatamente após o mandato, saiam da AR ou do Governo para irem trabalhar para aqueles grupos económicos que beneficiaram durante o seu mandato.

Muitas vezes se diz que a saúde não tem preço, mas pelos vistos para o Governo isso não é verdade, pois o Ministério da Saúde decidiu aumentar 533 euros o pagamento por doente com covid-19 que será feito aos Hospitais privados, em relação à convenção que existia e que foi agora renovada.

Mas se o doente necessitar de internamento nos cuidados intensivos, o valor estabelecido, que no passado era fixo, agora depende do número de horas que os pacientes precisem de estar ligados a um ventilador, que varia entre 6036 euros, para menos de 96 horas de internamento, e 8431 euros, para mais de 96 horas.

Qualquer pessoa percebe que este aumento se deve à falta de camas existentes nos Hospitais públicos e que, provavelmente, os privados colocaram os políticos profissionais entre a espada (portugueses) e a parede (grupos empresariais).

Parece-me que, como sempre, os nossos governantes optaram pela parede…

Como referi acima, sou a favor da iniciativa privada, a qual tem de ter mais apoios em situações normais e pagar menos impostos para promover os investimentos necessários à criação de emprego, mas nunca permitir que tenham lucro numa situação em que uns são pedidos sacrifícios aos portugueses e em que ficam a beneficiar com a desgraça e a saúde dos outros.

Os portugueses não podem continuar a aceitar que o lema dos sucessivos governos seja pagar (principescamente) aos Hospitais privados ou morrer.

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